
Arnaldo Antunes sempre se divertiu em cena. O antídoto risonho proposto por Nietzsche para desarvorar a vida é levado a ferro e fogo por sua persona bem grata. No palco do Instituto de Arte Contemporânea e Jardim Botânico (popular Inhotim), no último dia 11 de setembro, o artista desfilou sua dança apocalíptica, sua poesia concreta e seu terno cheirando a rasgado, eucalipto saído dos quadrinhos de Batman, provável “Duas Caras”, pois bom intuitivo que é, prefere os vilões.
O desafio a que se lança com microfone às costas, óculos preto & branco, e gravata ajeitada realça a gravidade de uma música pop imbuída de pretensão e ousadia. Tanto quanto o hermetismo melódico e estrutural de suas composições mais distantes, a proximidade também discorre arquitetada em balançantes hastes de ouro.
Pois fazer música pop de qualidade é tão sublime quanto lançar distorções contra tons. No abandono de seu lar, Arnaldo convida, “A Casa é sua”, parceria com Ortinho, cantada ao ouvido do coração, em clima de multidão: “Não me falta cadeira, não me falta sofá, só falta você sentada na sala, só falta você estar...”
Antes, porém, é Adoniran Barbosa quem invoca as chamas do passado, em sua restrita contestação ao ritmo que dá nome ao disco de Arnaldo, “Já fui uma brasa”, proclama: “Eu gosto dos meninos deste tal de iê iê iê, porque com eles, canta a voz do povo, e eu que já fui uma brasa, se assoprar, eu posso acender de novo”. Sem consternação, acende o novo fogo da platéia.
“Iê Iê Iê”, a própria, é música autoral construída na companhia dos parceiros tribalistas Marisa Monte e Carlinhos Brown que brinca com o sonhado sucesso: “Visto meu casaco de couro bang bang, manchado de batom e de sangue, se você pedir eu subo no palanque, e mostro aquele passo de funk”. Em contraposição melódica, “Essa Mulher” é ácida subordinação masculina, que rebobina êxito do álbum “paradeiro” (em minúscula): “Ela quer viver sozinha sem a sua companhia, e você ainda quer essa mulher”.
Alçada a estampa de homens entregues, surgem as homenagens a Odair José, que em “Quando você decidir”, apela na voz embargada de Arnaldo Antunes: “Lembre que eu existo, meu amor”, e Lupicínio Rodrigues, urgido sob a ferocidade dos versos e da guitarra de Edgar Scandurra: “Agora você vai ouvir aquilo que merece!”.
Em ambiente mais adaptado ao verde que espalha a paisagem, “Vou festejar”, de Jorge Aragão, Dida e Noeci é embalada nos metais da voz de Arnaldo, que ora tremem, outrora reluzem calmos. Em nova idiossincrasia, realça a beleza instantânea de “Americana”, da lavra do sanfoneiro potiguar Dorvigal Dantas, reiterando o inegável talento para remodelamentos sensíveis em composições alheias.
A leveza e agilidade com que Arnaldo tece seus movimentos estranhos de corpo a sugerir coquetéis de graças é interlocução dos textos sonoros e de palavras, que em “O Que Você Quiser” se traveste de “fruto proibido, deus ou diabo”, “Invejoso”, parceria com Liminha, alimenta o pecado capital cotidiano em delícia que recheia melodia sinuosa, que transcorre do melancólico ao cômico, enquanto “Longe”, de Arnaldo, Betão Aguiar e Marcelo Jeneci, surge sob o manto de translúcida reflexão nostálgica: “Onde é que eu fui parar? Aonde é esse aqui? Não dá mais pra voltar, porque eu fiquei tão longe?”
Em derradeiro número da tarde, o mestre de cerimônia inconforme (inconformidade sem formas inabaláveis), Arnaldo Antunes, saúda os convidados com seu titânico “Pulso”, arregimentado com Toni Belotto e Marcelo Fromer, na época em que a banda ainda era do iê iê iê, deixando espatifar palavras e sons sobre o palco, belo vilão desejável que é.
Raphael Vidigal
Publicado no jornal "Hoje em Dia" em 13/09/2011.

A voz caudalosa de Maysa, aqueles “oceanos não pacíficos” em seus olhos. Foram 40 anos de intensidade, navegando por entre notas musicais e doses nunca calculadas de whisky e cigarros. A cantora das fossas homéricas e das dores de amores insuportáveis usou a melancolia para dizer ao mundo que estava viva. Embora tenha tentado o suicídio, a mulher forte de sentimentos frágeis explicava que foi este mundo, e não ela, que caiu. Maysa manteve-se sempre de pé. Enfrentou o marido que não a queria como cantora e a imprensa de boataria que insistia em julgá-la. Permitiu que todo tipo de sentimento a invadisse, e dentre eles, o que mais a perseguiu foi a tristeza. 
“Bom dia tristeza
Que tarde tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando
Até meio triste
De estar tanto tempo
Longe de você”
Possessiva, passional, generosa, Maysa cantava como se todas as canções de amor fossem dela, todas as dores do mundo fossem suas. As mesmas dores que dividia com o público em um misto de entrega e procura. Sempre acompanhada por aquele sorriso de lado, mordendo os lábios como que para agarrar toda a poesia, toda a música que estivesse ao seu alcance. Música que estava mergulhada nela mesma. Há no canto de Maysa uma urgência, uma necessidade. Maysa precisa cantar. E nós precisamos ouvi-la. Não se recusa um convite para ouvir Maysa.
“Todos acham que eu falo demais
E que eu ando bebendo demais
Que essa vida agitada
Não serve pra nada
Andar por aí
Bar em bar, bar em bar”
Tudo em Maysa, o talento, a beleza, a angústia, é demais. Sua voz ressoava densa através de seus olhos caudalosos e do oceano não pacífico que foi sua vida. Os olhos fixos na platéia e o nariz em pé eram apenas duas das muitas marcas de uma cantora cheia de conflitos que não conseguia ter paz. Uma compositora que escreveu sua história através dos graves e agudos de rubi que enfeitavam seu mar vermelho. Maysa é Maysa é Maysa...esta chama que não vai passar, mar vermelho no oceano azul da música brasileira.
“Grande amor que não posso e não quero esconder
Vou vivendo esta vida, curtindo essa dor
Eu só quero que um dia tu possas saber
O que é o amor”
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 06/06/2010.

Adoniran Barbosa, poeta do chapéu, do terno, do cachecol e da gravata borboleta.
Afinal, ele vivia na cidade da garoa e precisava se proteger da chuva e do vento.
Mas a cidade da garoa era para ele muito mais que chuva e vento, eram as pessoas humildes que viam seus trens, seus sonhos, seus amores irem embora.
Adoniran Barbosa era um cronista irreverente, que cantava uma cidade que estava indo embora e aos poucos deixaria de existir para dar lugar ao progresso.
Mas o que jamais iria embora era a sua música, sua maloca, seu trem das onze que ele eternizou em versos.
“Não posso ficar
Nem mais um minuto com você
Sinto muito amor, mas não pode ser
Moro em Jaçanã
Se eu perder esse trem
Que sai agora ás onze horas
Só amanhã de manhã”
Com voz rouca e bom humor, Adoniran burila a paisagem cinzenta da cidade e nos presenteia com os versos coloridos da canção.
Adoniran fala de Iracema, das mariposas que dançam em volta da “lâmpida”, do despejo na favela.
Com seu jeito simples de dizer coisas bonitas, Adoniran prova que falar difícil nunca foi certeza de falar bonito.
Falar bonito é dizer ao sentimento, e sem rodeios atingir com “frechadas” o peito.
“De tanto levar frechada do teu olhar
Meu peito até parece sabe o quê?
Táubua de tiro ao álvaro
Não tem mais onde furar”
Adoniran Barbosa é um cronista da fala, e a reproduz em suas músicas da maneira exata como ela sai da boca do homem apaixonado, do homem envaidecido, dos homens que vão ao samba, do povo que vê sua maloca destruída, com seu sotaque paulista caipira bem italianado.
A fala que representa não apenas o que o povo diz, mas como ele vê e sente as mazelas do dia a dia.
Adoniran Barbosa é o exemplo mais bem acabado da poesia do povo da cidade.
Mesmo entre fumaças, prédios e construções, o povo da cidade é poesia, e Adoniran Barbosa, seu poeta.
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 28/02/2010.