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segunda-feira, 22 de novembro de 2010




Quem disse que acabou-se a monarquia no Brasil é porque nunca ouviu Marinês, autêntica rainha do ritmo e das tradições nordestinas.
Nascida em meio à Asa Branca e o pandeiro de ícones do forró, do xaxado e do baião como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, Marinês deu seus primeiros passos na terra seca e amarelada do sertão pernambucano, mas foi em Campina Grande, no interior da Paraíba, que conheceu seu marido Abdias e formou com ele o “Casal da Alegria”.
Logo, os dois se juntaram ao zabumbeiro Cacau, completando o conjunto que começaria excursionando pela região nordeste e em breve ganharia todo o Brasil, toda sua gente.
Trazendo a sanfona, a zabumba, o agogô e o triângulo na sacola, Marinês tornou-se a primeira mulher a liderar com coroa de cangaceiro na cabeça um grupo de forró.



Disparada

A rainha que cantava com malícia e força ganhou logo de cara delatores e admiradores. O pai, embora fosse seresteiro, não a queria como cantora, e por isso ela resolveu que a partir daquele momento não seria Inês Caetano de Oliveira, seria Maria Inês, que por descuido de um radialista apressado, receberia em seguida novo batismo: Marinês. Além disso, padres católicos pediam aos fiéis que não comprassem seus discos, considerados pecaminosos e de mau gosto, embora sua mãe fosse cantora de igreja. Para completar, a rainha sofria ainda com o preconceito que vinha das outras regiões do país, que reagiam com pudor e desdém à música nordestina. Apesar de tudo, Marinês prosseguiu soberana entre sua gente e foi ao encontro do Rei do Baião. Luiz Gonzaga a coroou de imediato “Rainha do Xaxado”.

“Prepare o seu coração
Pras coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar”




Gírias do norte

Quando desembarcou no Rio de Janeiro, trazendo para a Cidade Maravilhosa o canto arretado que ouvira desde pequena nos alto-falantes da Paraíba, Marinês recebeu de Chacrinha novo complemento ao seu nome, que fazia referência a todos aqueles que a adoravam e gostavam de sua música. Ela era a partir daquele instante o que sempre foi desde que saiu da barriga de sua mãe, era Marinês e sua gente. Porque Marinês é o nordeste por inteiro, na raiz, no caule, e por isso mesmo um pedaço importante e danado de bom do Brasil. E sua gente somos nós, súditos da Rainha do Xaxado, a Rainha do Forró, aquela que trouxe para o país inteiro as gírias gostosas do norte.

“O Zé-do-Brejo quando se casariou
Ele me convidariou
Pra quadrilha eu marcariá
Marcariei uma quadrilha ritmada
Fui até de madrugada
Todo mundo com seu pariá”




Bate coração

Nessa longa caminhada a rainha Marinês, neta de índios Airús, filha legítima do nordeste, participou do filme “Rico ri á toa”, de Roberto Faria, gravou disco “Feito com amor”, todo dedicado às festas juninas, recebeu dois prêmios Euterpe como melhor cantora regional e melhor vendagem, ganhou discos de ouro pelos LP´s “A Dama do Nordeste” e “Bate Coração”, gravou choros e temas românticos como “Carinhoso” de Pixinguinha e “O Amor morreu” de Dominguinhos e Anastácia, além das inesquecíveis e contagiantes “Peba na Pimenta” e “Pisa na fulô”, de João do Vale. Para coroar a trajetória de largo sucesso, a Rainha do Xaxado cantou ao lado de nomes quentes da música brasileira, como Gilberto Gil, Zé Ramalho, Alceu Valença, Genival Lacerda, Dominguinhos e sua principal seguidora, a leoa do norte Elba Ramalho.

“Oi tum, tum bate coração
Oi tum coração pode bater
Oi tum, tum bate coração
Que eu morro de amor com muito prazer”




Tá virando emprego

Após 71 anos entoando seu canto típico e ritmado, Marinês prossegue com aquela voz agitada e dançante que arrasta o pé e acelera o coração, animando quadrilhas e festas, animando qualquer pedaço de terra onde se dance um bom xaxado, um bom forró e um bom baião. Prossegue agora ao lado de São Pedro, Santo Antônio e São João.

“-Andam dizendo que nosso chamego
Nêgo tá virando emprego, nêgo falam pra daná
-Tem nada não nêga, se avexe não
Isso é pra quem canta forró, xote, baião”




Raphael Vidigal Aroeira

Lido na Rádio Itatiaia dia 21/11/2010.

domingo, 12 de setembro de 2010



Quando nasceu aquele José na Paraíba, os traços nordestinos já prenunciavam que ele seria miudinho, de cabeça chata e pele morena, mas não prenunciavam que aquele José Gomes Filho se transformaria no Rei do Ritmo. Um pouquinho que ele cresceu, a cabeça achatou mais ainda e a pele escureceu devido ao sol que lhe queimava todos os dias e já começaram a chamá-lo de Jack, herói do cinema mudo americano que desembarcava no faroeste da Paraíba. A mãe não gostou nada daquela história, e enquanto cantava uns cocos aproveitava também para lhe bater e lhe passar aquele sermão: “Mas é danado mesmo, batizar um filho com nome de José e ver trocarem o nome assim pra Jack.” Mas não adiantou, foi só ele começar a se vestir com chapéu coco na cabeça achatada, inventar um caprichado bigodinho fino e segurar com mãos maliciosas o pandeiro, que lhe batizaram pela terceira e definitiva vez: Jackson do Pandeiro, rei de Alagoa Grande, rei da Paraíba, rei do ritmo do Brasil.



“Vixe como tem Zé
Zé de baixo, Zé de riba
Desconjuro com tanto Zé
Como tem Zé lá na Paraíba”

Ainda quando era chamado de Jack do Pandeiro, aquele paraibano miudinho do interior do estado rumou em direção à capital João Pessoa para formar com Rosil Cavalcanti a dupla “Café com Leite”, onde ele tocava violão e Rosil tocava pandeiro. Depois de um ano, Rosil foi para Recife e mais tarde para Campina Grande, onde tornaria-se famoso radialista e comandaria o programa “Forró do Zé Lagoa”. Jack também foi para Recife, e lá começou a trabalhar na Rádio Jornal do Comércio e a ser chamado pela primeira vez de Jackson do Pandeiro. Seria com este nome que ele cantaria os grandes sucessos da sua carreira, como “Sebastiana”, “Chiclete com banana”, “O canto da ema”, “Forró em limoeiro”, entre tantos outros, chegando a vender mais de 50 mil cópias em seu primeiro disco, gravado quando ele já tinha 35 anos de idade. Seria também com este nome que ele conheceria Almira Castilho, com quem trocaria alianças, declarações de amor, muita música e umbigadas em cima do palco.



“Que diferença da mulher o home tem?
Espera aí que eu vou dizer, meu bem
É que o home tem cabelo no peito
Tem o queixo cabeludo e a mulher não tem”

Inventivo e criando jeitos ágeis e novos de cantar as músicas, dividindo as palavras como só ele sabia, Jackson logo tornou-se sucesso no país inteiro.
Sua voz enjoada, seu pandeiro atrevido e sua malemolência que ele empregava como ninguém na forma de cantar todos os ritmos tornaram-se marca registrada e serviram de influência para cantores como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Gal Costa, Elba Ramalho e muitos outros que gravaram seus sucessos e lhe fizeram homenagens. Jackson do Pandeiro cantava de tudo e tocava pandeiro com a maestria de malandro nordestino que só ele tinha. Como ele dizia: “E sempre cantando. Cantando samba, cantando marcha de arrasta-pé, cantando coco, essa coisa toda.” Jackson do Pandeiro é essa coisa toda, esse Brasil inteiro, esse pandeiro que escorrega na mão, mas não perde sua majestade.



“Eu só boto be-bop no meu samba
Quando o Tio Sam tocar um tamborim
Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba
Quando ele aprender que o samba não é rumba
Aí eu vou misturar Miami com Copacabana
Chiclete eu misturo com banana
E o meu samba vai ficar assim”

Raphael Vidigal Aroeira

quarta-feira, 4 de agosto de 2010




A cortina do teatro se abre e o homem com voz feminina e pose libidinosa contorna de preto os olhos e pisa firme no palco, pinta de vermelho a boca e aguça os ouvidos para sentir os sons que emergem de seu corpo quase nu. Uma flor vermelha se espreguiça na orelha e ruma para lançar seu perfume por entre os dentes separados desse mago sensual e aflito. O batom vermelho beija bandidamente o público com seus agudos que dançam acompanhando os quadris e as batidas do peito. Colares de pérolas, brilhantes e badulaques completam o espetáculo. O mago se transforma em peixe, em água viva, em pássaro, em lobisomem. Se transforma num pescador de pérolas. As correntes do homem libertário enfeitam seu corpo mas não impedem seus movimentos. No palco ele está livre, pula, dança, flerta com milhares de rostos ao mesmo tempo e canta. Canta com sua voz encantada que nenhuma força jamais impediu. Porque não há força capaz de impedir o canto de Ney Matogrosso. Dentro dele há um bicho, uma mulher, um canto imprevisível e sedutor que rebola lascivamente dentro do imaginário e do corpo da música brasileira.



“Esse corpo moreno
Cheiroso e gostoso
Que você tem
É um corpo delgado
Da cor do pecado
Que faz tão bem”

Investido por sua postura de bicho-homem Ney Matogrosso libera seus instintos mais provocantes e crava a língua no ouvido do público. Por todos os lados uma espiral de cores o circunda e faz prevalecer o feitiço dourado do amarelo de seu corpo e o vermelho fogo que lateja em seu rosto. Com uma venda preta cobrindo seus olhos Ney realiza fantasias de todas as espécies e se despe em cena ao revelar seus desejos mais secos e mais molhados. Ney Matogrosso é um artista destemido, atrevido, dançante, capaz de unir o homem e a mulher em seu canto. Um artista que ao se despir em público faz do palco o teatro de sua vida.



“Nunca vi rastro de cobra
Nem couro de lobisomem
Se correr o bicho pega
Se ficar o bicho come”

Com o sangue latino em brasas e anéis brilhantes que lhe veneram os dedos, Ney Matogrosso penetra o olhar sobre a platéia, domina a voz e o palco com seus agudos rasgados e volumosos e se entrega aos sentimentos e às sensações fazendo muita cena, usando e abusando de seu talento performático, seu figurino exótico e sua voz mágica. Adepto convicto da exuberância e da fartura Ney Matogrosso revigora seus sentidos com a vitalidade de um homem bicho mulher de quase 70 anos de experiências e liberdades e estimula os pecados da gula e da luxúria ao brindar a música brasileira com sua arte exuberante e ousada.



"Sou um homem, sou um bicho, sou uma mulher
Sou a mesa e as cadeiras desse cabaré
Sou o seu amor profundo, sou o seu lugar no mundo"

Raphael Vidigal Aroeira

Lido na Rádio Itatiaia dia 01/08/2010.

terça-feira, 27 de julho de 2010




A voz rouca e encorpada de Eduardo Araújo já ecoava pelos campos da fazenda de seu pai em Joaíma, no interior de Minas Gerais, desde muito cedo, e logo o fez perceber que a carreira de veterinário talvez não fosse a melhor opção para sua vida. Partiu então em busca de outras terras e resolveu cavalgar pelas notas e acordes dançantes de um ritmo novo que surgia com força e ousadia no cenário musical brasileiro: a Jovem Guarda. Liderada por nomes como Roberto Carlos e Erasmo Carlos e tendo ainda em seu elenco as presenças marcantes de Renato e seus Blue Caps, Ronnie Von, The Fevers, Jerry Adriani além das musas Wanderléa, Rosemary e Sylvinha Araújo, dentre outros, a Jovem Guarda logo emplacaria nas paradas de sucesso e faria com que um desesperançado Eduardo Araújo deixasse novamente a fazenda de seu pai para trás e voltasse ao Rio de Janeiro atrás do sonho de cavalgar na crista da onda daquelas canções. O que aconteceria efetivamente no ano de 1967 quando estourou com o seu primeiro sucesso, a canção “O bom”, de Carlos Imperial, que traduzia o comportamento e a postura musical e artística daquela nova geração de músicos.



“Ele é o bom, é o bom, é o bom
“Ele é o bom, é o bom, é o bom
Ah! Meu carro é vermelho, não uso espelho pra me pentear
Botinha sem meia e só na areia eu sei trabalhar”

Eduardo Araújo sempre se mostrou um artista inventivo e original que além de comandar o programa o “Bom”, na TV Excelsior, ao lado de sua futura esposa Sylvinha Araújo, também começava a fazer experimentos na música brasileira. Tendo dito em 1971 que Luiz Gonzaga era o “papa da verdadeira música brasileira” ele já demonstrava a sua vontade de misturar diversos gêneros sob a batuta do rock ao gravar com virilidade músicas como “Asa Branca”, “Juazeiro”, ambas de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, e “Ave Maria no morro”, de Herivelto Martins, dentre outras. No entanto, o maior sucesso autoral de Eduardo Araújo até hoje ainda é a música “Vem quente que eu estou fervendo”, em parceria com Carlos Imperial, verdadeiro Midas das paradas de sucesso da música brasileira.



“Se você quer brigar
E acha que com isso
Estou sofrendo
Se enganou meu bem
Pode vir quente
Que eu estou fervendo”

Esse espírito inventivo e desbravador envolveria também Sylvinha Araújo, que havia ficado nos primeiros lugares da parada de sucessos em 1968 com a música “Minha primeira desilusão”, e agora gravaria versões pungentes e inusitadas das músicas “Risque”, de Ary Barroso e “Paraíba”, também de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, o que levaria o jornalista Nelson Motta a compará-la à musa do blues dos anos 70, Janis Joplin. E Sylvinha Araújo não era mais apenas a cantora que imitava Rita Pavone, ganhava assinatura e público próprios.



“Hoje eu mando um abraço
Pra ti pequenina
Paraíba masculina
Mulhé macho, sim sinhô"

Essa vontade de se remeter às raízes da música brasileira intensificou-se na década de 80, quando Eduardo Araújo mergulhou de cabeça na chamada country music e retornou definitivamente para onde tudo começou. Sempre apaixonado por cavalos e o ambiente da fazenda, com o qual conviveu desde a infância, Eduardo Araújo passou a se notabilizar por fazer agora uma música com a qual o brasileiro do interior sempre se identificou e que passava a invadir também o sentimento do homem criado na cidade, a partir da mistura de dois gêneros, o country e o rock. Sem perder a veia inovadora, Eduardo gravou uma versão em twist da música “Maringá”, de Joubert de Carvalho, e obteve grande sucesso ao homenagear uma das mais nobres raças de cavalo, o “Mangalarga Marchador”.



“Ô Maringá, Maringá
Depois que tu partiste
Tudo aqui ficou tão triste
Que eu garrei a imaginar
Ô Maringá, Maringá
Para haver felicidade
É preciso que a saudade
Vá bater noutro lugar”

Os cabelos lisos e penteados de lado com direito a olhar galanteador deram lugar ao chapéu de boiadeiro e ao bigode, mas a essência do rock continua em suas músicas que misturam com qualidade irretocável os melhores gêneros da música brasileira. Com guitarra em punho, violão a tiracolo e voz sempre imponente e verdadeira Eduardo Araújo segue há 50 anos por essa estrada do rock, guiado pela voz jovial e inesquecível de Sylvinha Araújo. Eduardo e Sylvinha Araújo, dois pioneiros do rock brasileiro e da mistura de gêneros, serão sempre lembrados no hall dos nomes mais importantes da música brasileira.



“Eu sou terrível
Vou lhe dizer
Eu ponho mesmo
Pra derreter
Estou com a razão no que digo
Não tenho medo nem do perigo
Minha caranga é máquina quente
Eu sou terrível”

Raphael Vidigal Aroeira

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