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sábado, 5 de fevereiro de 2011



Lúcio Alves



Multidão de dores e alegrias:

Lúcio Alves, a voz das brumas, das manias, da solidão e da amargura. A voz de um sábado ensolarado em Copacabana. Desde os 14 anos sua voz já embalava os corações apaixonados dos “Namorados da lua”. Uma voz grave que parecia sair das narinas e perfumava os ares cheios de dor e vida. Uma voz grave que cantava os dramas do samba-canção e as saudações otimistas da bossa nova que nascia. Uma voz grave, porém terna e macia. Para o “cantor das multidinhas” a canção será sempre imensa, e o amor uma multidão de dores e alegrias.



Herivelto Martins



O carioca Herivelto Martins compôs clássicos da canção brasileira ao longo de frutífera carreira que também incluiu as atividades de violonista e cantor do “Trio de Ouro” em todas as suas formações, tendo sido ele o principal idealizador e entusiasta do conjunto. A briga espalhada através de jornais e músicas com Dalva de Oliveira rendeu-lhe a pecha de arrogante, mal humorado e machista, mas mais do que isso, rendeu pérolas do quilate do nome que acompanhava o trio no qual cantou por mais de cinco décadas, até o último ano de sua vida.

Cabelos brancos (1949, samba) – Herivelto Martins e Marino Pinto

Os conflitos amorosos entre Dalva de Oliveira e Herivelto Martins deram início a uma briga pública e músicas que se tornaram eternas no cancioneiro brasileiro. Entre elas, “Cabelos brancos”, de 1949, gravada pelo conjunto cearense “Quatro Ases e um Coringa”. O grupo formado pelos irmãos Evenor, José e Permínio Pontes de Medeiros, e ainda André Batista Vieira e Pijuca fez sucesso no final da década de 40 ao lançar o rancoroso samba de Herivelto.



Praça Onze (samba de carnaval, 1942) – Herivelto Martins e Grande Otelo

Em 1941, quando ficou sabendo da intenção da prefeitura de demolir a Praça Onze, abrigo dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro, Grande Otelo indignou-se e escreveu versos românticos e tristonhos sobre o fato. Então levou a letra para músicos como Wilson Batista, Max Bulhões e Herivelto Martins, a fim de que a musicassem. Nenhum deles se interessou muito, mas o azar de Herivelto era que ele o via todo dia, pois os dois trocavam-se juntos no Cassino da Urca. Herivelto dizia que não cabia samba naquela letra, pois o que Otelo tinha escrito era um romance, com versos do quilate de “Oh Praça Onze, tu vais desaparecer”. Eis que devido à insistência diária do noviço compositor, Herivelto irritou-se e começou a cantar de improviso versos sambados, dizendo para o humorista: “O que você quer dizer é isso: vão acabar com a Praça Onze, não vai haver mais escola de samba, não vai...”, Otelo empolgou-se e começou a escrever ali mesmo os outros versos da canção, enquanto Herivelto tocava a melodia no violão. Quando ficou pronta, a música foi gravada pelo Trio de Ouro com a companhia de Castro Barbosa, e trouxe na execução uma novidade inventada por Herivelto e que fez grande sucesso entre os foliões, o uso do apito para dar ritmo. Todos que sentiam a perda da Praça cantaram e dançaram na avenida a música que dividiu o prêmio de melhor samba do ano de 1942 ao lado da clássica “Ai que saudades da Amélia”, de Ataulfo Alves e Mário Lago. Grande Otelo ria como fazia rir, apesar da tristeza pela perda da praça, ele conseguiu o que queria.

Raphael Vidigal Aroeira

Lido na Rádio Itatiaia dia 30/01/2011.

domingo, 18 de julho de 2010




Sob uma luz mais baixa ele carrega flores e corteja a dama. Folhas se entregam ao chão pois é outono, no mesmo instante o vento sibila sob o mar que bate contra a areia na noite deserta e pressente o orvalho que irá molhar as flores na primavera. Tito Madi é um cavalheiro da canção que debaixo das poucas estrelas que pontilham um céu escuro e macio conforta-nos com sua dor. A chuva tenta em vão abafar a saudade lá fora enquanto Tito nos inebria com sua voz límpida e doce pontuada pelas notas de um piano ou regida por uma orquestra.



“A noite está tão fria, chove lá fora
E esta saudade enjoada não vai embora
Quisera compreender porque partiste
Quisera que soubesses como estou triste”

A voz morosa e graciosa de Tito Madi sinalizava, no final da década de 50, qual seria o canto e as melodias da próxima estação. A bossa nova, canção que simbolazaria um Brasil novo e moderno iria se utilizar das influências trazidas pela turma de Tito Madi, Dick Farney, Agostinho dos Santos, dentre outros. As harmonias sofisticadas que Tito usava em suas músicas carregavam consigo todo o requinte de um compositor que sempre primou pela delicadeza e vê o canto como uma forma de cochicar ao ouvido da amada todo seu carinho e amor.



“E volte, por favor
Venha correndo
Que estarei para lhe dar
Carinho e muito amor”

Nas palavras de Tito Madi, sua obra e a de Dolores Duran funcionam como “elo de união da música brasileira entre as fases de Chico Alves e a bossa nova”. Caracterizado por ser um compositor cuidadoso e atento aos detalhes, Tito Madi utiliza-se do recurso de repetir com melindro as mais bonitas palavras da canção para que elas fiquem sutilmente gravadas nos corações. Pode-se dizer que a voz e as composições de Tito Madi inspiram-se na leveza que o bater de asas de um passarinho, a jóia regada a ouro e o bilhete colocado em meio ao buquê de rosas da namorada trazem para o mundo.Tito Madi canta olhando nos olhos e compõe como se fizesse uma confissão singela de seus mais nobres sentimentos. Tendo recebido prêmios como “Disco de Ouro”, medalhas dos Diários Associados e da Revista do Rádio, Tito teve também seus maiores sucessos regravados em versões em inglês nos Estados Unidos. Porque Tito é o compositor que faz balançar os corações da zona norte e da zona sul do Brasil. E inclusive fora dele.



“Balance os cabelos seus
Balance cai mas não cai
E se cair vai caindo caindo
Nos braços meus”

Raphael Vidigal Aroeira

Lido na Rádio Itatiaia dia 18/07/2010.

terça-feira, 13 de julho de 2010




Sentado no meio de sua sala, com um copo de uísque na mão, cabelos longos, lisos e grisalhos, lá estava ele, rodeado por amigos que adoravam rir de suas piadas, cantar seus poemas, ouvir suas histórias de amor e tocar as músicas que eram feitas com suas letras. Amigos que sabiam que sem ele aquela comunhão não seria possível. Vinicius de Moraes chamava a todos por diminutivos, como prova de seu imenso carinho. O poetinha, como ficou conhecido por conta dessa carinhosa mania, era um reconhecido galanteador, um poeta indiscutível, um letrista que fazia do simples a obra de sua arte, um homem apaixonado que exaltou o amor a vida inteira. Exaltou as mulheres e as belezas brasileiras. Quem poderia dizer que aquele diplomata demitido pelo governo militar se tornaria um dos maiores poetas do nosso país? Quem poderia dizer que suas poesias se encaixariam com perfeição em melodias lapidadas por Tom Jobim, Chico Buarque, Carlos Lyra, Baden Powell, Francis Hime, Edu Lobo e principalmente Toquinho, o parceiro com quem mais compôs músicas? Quem seria capaz de dizer que aquele que mais propagou o amor na música e na literatura brasileira casaria-se nove vezes em circunstâncias e cerimônias cada vez mais inusitadas? Vinicius de Moraes era mesmo um homem surpreendente, que encontrou na bossa nova, na garota de Ipanema e na praia de Itapoã as paisagens perfeitas para sua poesia.



“Passar uma tarde em Itapoã
Ao sol que arde em Itapoã
Ouvindo o mar de Itapoã
Falar de amor em Itapoã”

Vinicius de Moraes chamava um de seus melhores amigos pelo apelido de “cachorro engarrafado”, era ao uísque que ele se referia. Vinicius de Moraes chamava a cidade de São Paulo de “túmulo do samba”. E Vinicius dizia que “mesmo o amor que não compensa” era “melhor que a solidão”. Porque Vinicius de Moraes era contra a solidão, e a sua casa sempre aberta era uma prova disso. Seu coração sempre disposto era outra prova disso. Sua poesia sempre inspirada e apaixonada é a maior e mais duradoura prova de todas. Rodeado por muitos amigos e muitos amores, Vinicius mantinha aquela expressão de menino procurando algo, sempre atrás de alguma coisa. Talvez tenha achado, talvez a tenha perdido, mas ele estava sempre procurando. O amor que residia na felicidade, ou a felicidade que residia no amor. Ninguém jamais professou o amor com tamanha ternura e delicadeza como Vinicius de Moraes.



“Se você quer ser minha namorada
Ai que linda namorada
Você poderia ser”

“Formosa, não faz assim
Carinho não é ruim
Mulher que nega, não sabe não
Tem uma coisa de menos no seu coração”

Chega de saudade, meu poeta Vinicius de Moraes, vamos celebrar juntos esses 30 anos em que o amor teve menos uísque mas não menos poesia. “É melhor ser alegre, que ser triste”. Que bom seria “se todos fossem iguais a você” Vinicius. Mas você é único, “posto que é chama, que seja eterno enquanto dure” e dure para sempre, como sua música, sua poesia, seus amores. Vinicius de Moraes, poetinha do amor imenso.

“Chega de saudade
A realidade é que
Sem ela não há paz,não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai”



Raphael Vidigal Aroeira

Lido na Rádio Itatiaia dia 11/07/2010.

segunda-feira, 17 de maio de 2010




Elizeth Cardoso, Divina Rainha da música brasileira.
Rainha negra, Mulata Maior que desde cedo cantava os sucessos de Vicente Celestino, e aos 5 anos subiu pela primeira vez ao palco.
Rainha que se sentava “naquela mesa” no meio do povo que chorava a morte de Jacob do Bandolim, o amigo que a levou para fazer um teste na Rádio Guanabara.
E ali começaria sua trajetória para se tornar estrela enluarada.
Logo, a menina nascida na Estação de São Francisco Xavier no dia 16 de julho de 1920, estaria entoando canções que seriam sucesso em todas as casas, todos os lares, todos os barracões de zinco do país. Elizeth seria em breve, a própria canção de amor que cantou.

“Nas cinzas do meu sonho
Um hino então componho
Sofrendo a desilusão
Que me invade
Canção de amor, saudade!”

Apesar do acalanto quente e suave de sua voz, e da delicadeza com que interpretava as canções, Elizeth não teve apenas flores no caminho.
Em 1939, devido aos baixos salários que lhe pagavam nas rádios, começou a se apresentar em circos, clubes e cinemas com o quadro “Boneca de Piche”, nome de música de Ary Barroso e Luís Iglesias.
O quadro era apresentando ao lado do humorista Grande Otelo e fez tanto sucesso que eles o repetiram por quase dez anos.
Com muita classe, domínio e categoria, Elizeth passava pelos espinhos e exibia novamente seu sorriso de rainha.

“Luminosa manhã
Tanto céu, tanto azul
É demais
Para o meu coração”

Após muitos sucessos nas rádios, Elizeth alcançaria também as luzes do cinema e da televisão.
Lançou em 1958 o disco Canção do Amor Demais, considerado inaugural da bossa nova, e em 1965 estreou na TV Record de São Paulo, ao lado de Cyro Monteiro, o programa Bossaudade, um dos mais queridos pelo público durante quase dois anos.
Arranhando os erres, lapidando notas, letras e ouvidos como quem aninha um coração perdido, Elizeth subiu ao palco do Teatro Municipal do Rio para cantar as “Bachianas Brasileiras número 5” de Heitor Villa-Lobos, e gravaria no mesmo ano de 1965 o LP “Elizeth sobe o morro”, fruto do espetáculo “Rosa de Ouro”, acompanhada por bambas do porte de Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros, Nelson Sargento, entre outros, num dos mais belos registros vocais de toda a música brasileira.

“Tua voz eu escuto
Não te esqueço um minuto
Porque sei
Que tu és”

A rainha Elizeth passou a desfilar sua voz mulata de nobreza pelos tapetes vermelhos dos 4 cantos do mundo.
Ao lado do Zimbo Trio e de outros amigos excursionou pelos 4 continentes: Europa, Ásia, Américas e África.
Era a conquista da menina que cresceu cantando Vicente Celestino e que mais tarde gravou com Silvio Caldas, que cresceu ouvindo as serestas de seu pai e o canto de sua mãe, que foi madrinha do clube carnavalesco “Bola Preta”, que chegou a atuar como atriz e apresentadora, que foi a vida inteira cantora.
Mais do que conquistar o mundo, Elizeth conquistava a lua, e se tornava enluarada, conquistava o povo, e se tornava a maior mulata, conquistava a corte, e se tornava magnífica, conquistava a todos, e era definitivamente Divina.

“Ah, o amor
Quando é demais ao findar leva a paz
Me entreguei sem pensar
Que a saudade existe”

No dia 7 de maio de 1990, há exatos 20 anos, Elizeth Cardoso foi ao encontro da paz que tanto trazia aos ouvidos daqueles que eram agraciados com sua música. Aqueles que iam em busca da voz que preenchia na medida certa os anseios por emoção e ternura. Só quem ouviu Elizeth Cardoso tem a certeza de que cantar pode ser divino.

Raphael Vidigal Aroeira

Lido na Rádio Itatiaia dia 16/05/2010.

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