
O auditório está de pé para apreciar a disputa entre duas vozes agudas que se elevam com categoria. Ao microfone da rádio elas se apresentam com a elegância de quem sabe ser majestade, e as bandeiras flutuantes na platéia alardeiam seus nomes, suspensas por exasperados fã-clubes que não se contentam em elegê-las somente rainhas das canções, promovendo uma histórica rivalidade. No topo mais alto da música, que és o lugar de direito, lá vem Marlene, pinta sob a boca, nariz em riste, lata d’água na cabeça. Lá vem Emilinha, com a mesma pinta, bem aprumada, despertando reações escandalosas. Nossas Rainhas Soberanas, exibem charme, e som de primeiríssima nobreza. 
Lata d’água
“É a maior!” gritam os enunciados e admiradores da cantora que se apresenta no programa de Manoel Barcellos. E de fato, ela faz jus à exaltação. Marlene veio ao mundo Vitória e pisou na passarela de notas e versos já com a inspiração da atriz alemã que lhe emprestou o nome artístico. Caminhou sempre com nitidez de passos e o espetáculo que concede desde o início tornou-se sinônimo de autenticidade. Marlene tem no cantar uma marca que é só sua, própria, e inalcançável. E é com essa força da personalidade que ela dá vida à Maria do morro de Luis Antônio e Jota Júnior, no carnaval de 1952 que está gravado na batalha diária, sob o clamor que anuncia Marlene:
“Lata d’água na cabeça
Lá vai Maria, lá vai Maria
Sobe o morro não se cansa
Pela mão leva a criança, lá vai Maria”
Qui nem jiló
Marlene teve carreira internacional, sendo levada, em 1959, a se apresentar no Teatro Olympia, em Paris, pela diva francesa Edith Piaf. Mas foi em solo brasileiro que ela consolidou suas maiores conquistas, atuando em teatros, musicais e shows históricos, como o invejável “Carnavália”, protagonizado ao lado de Blecaute e Nuno Roland e planejado pela cronista Eneida. Na opinião de muitos, o maior espetáculo de carnaval que o Rio de Janeiro teve a honra de receber. E nessa brasilidade cativa que exerce, Marlene apreciou canções românticas e polcas com a mesma integridade que utilizou em sambas tornados imortais. Foi responsável, inclusive, por realizar uma das primeiras gravações da obra de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, com a companhia do grupo vocal Os Cariocas, o baião “Qui nem jiló, em 1949:
“Se a gente lembra só por lembrar
O amor que a gente um dia perdeu
Saudade inté que assim é bom
Pro cabra se convencer, que é feliz sem saber”
Mora na filosofia
A Favorita da Aeronáutica mantinha uma disputa externa com a Favorita da Marinha. As brigas, levadas frequentemente à cena pela ação dos fã-clubes, frutificaram em belas gravações em dupla de Marlene e Emilinha Borba. As duas rimaram guerra e paz como Monsueto e Arnaldo Passos rimavam amor e dor na moradia que construíram na filosofia. O samba de 1954 possui uma das mais bem acabadas letras da canção popular brasileira, sinalizando a deixa perfeita para uma intromissão oportuna do homem que grita em meio aos batuques: “Tá na cara!” Ao que Marlene antecede os versos: “Se seu corpo ficasse marcado, por lábios e mãos carinhosas, eu saberia, a quantos você pertencia, não vou me preocupar em ver, seu caso não é de ver pra crer.” Diamante lapidado que se abrilhanta na voz de Marlene, artista completa que oferece seu talento estelar por onde canta.
“Eu vou lhe dar a decisão
Botei na balança, você não pesou
Botei na peneira, você não passou
Mora, na filosofia, pra quê rimar
Amor e dor?”
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 28/11/2010.

Quem disse que acabou-se a monarquia no Brasil é porque nunca ouviu Marinês, autêntica rainha do ritmo e das tradições nordestinas.
Nascida em meio à Asa Branca e o pandeiro de ícones do forró, do xaxado e do baião como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, Marinês deu seus primeiros passos na terra seca e amarelada do sertão pernambucano, mas foi em Campina Grande, no interior da Paraíba, que conheceu seu marido Abdias e formou com ele o “Casal da Alegria”.
Logo, os dois se juntaram ao zabumbeiro Cacau, completando o conjunto que começaria excursionando pela região nordeste e em breve ganharia todo o Brasil, toda sua gente.
Trazendo a sanfona, a zabumba, o agogô e o triângulo na sacola, Marinês tornou-se a primeira mulher a liderar com coroa de cangaceiro na cabeça um grupo de forró. 
Disparada
A rainha que cantava com malícia e força ganhou logo de cara delatores e admiradores. O pai, embora fosse seresteiro, não a queria como cantora, e por isso ela resolveu que a partir daquele momento não seria Inês Caetano de Oliveira, seria Maria Inês, que por descuido de um radialista apressado, receberia em seguida novo batismo: Marinês. Além disso, padres católicos pediam aos fiéis que não comprassem seus discos, considerados pecaminosos e de mau gosto, embora sua mãe fosse cantora de igreja. Para completar, a rainha sofria ainda com o preconceito que vinha das outras regiões do país, que reagiam com pudor e desdém à música nordestina. Apesar de tudo, Marinês prosseguiu soberana entre sua gente e foi ao encontro do Rei do Baião. Luiz Gonzaga a coroou de imediato “Rainha do Xaxado”.
“Prepare o seu coração
Pras coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar”
Gírias do norte
Quando desembarcou no Rio de Janeiro, trazendo para a Cidade Maravilhosa o canto arretado que ouvira desde pequena nos alto-falantes da Paraíba, Marinês recebeu de Chacrinha novo complemento ao seu nome, que fazia referência a todos aqueles que a adoravam e gostavam de sua música. Ela era a partir daquele instante o que sempre foi desde que saiu da barriga de sua mãe, era Marinês e sua gente. Porque Marinês é o nordeste por inteiro, na raiz, no caule, e por isso mesmo um pedaço importante e danado de bom do Brasil. E sua gente somos nós, súditos da Rainha do Xaxado, a Rainha do Forró, aquela que trouxe para o país inteiro as gírias gostosas do norte.
“O Zé-do-Brejo quando se casariou
Ele me convidariou
Pra quadrilha eu marcariá
Marcariei uma quadrilha ritmada
Fui até de madrugada
Todo mundo com seu pariá”
Bate coração
Nessa longa caminhada a rainha Marinês, neta de índios Airús, filha legítima do nordeste, participou do filme “Rico ri á toa”, de Roberto Faria, gravou disco “Feito com amor”, todo dedicado às festas juninas, recebeu dois prêmios Euterpe como melhor cantora regional e melhor vendagem, ganhou discos de ouro pelos LP´s “A Dama do Nordeste” e “Bate Coração”, gravou choros e temas românticos como “Carinhoso” de Pixinguinha e “O Amor morreu” de Dominguinhos e Anastácia, além das inesquecíveis e contagiantes “Peba na Pimenta” e “Pisa na fulô”, de João do Vale. Para coroar a trajetória de largo sucesso, a Rainha do Xaxado cantou ao lado de nomes quentes da música brasileira, como Gilberto Gil, Zé Ramalho, Alceu Valença, Genival Lacerda, Dominguinhos e sua principal seguidora, a leoa do norte Elba Ramalho.
“Oi tum, tum bate coração
Oi tum coração pode bater
Oi tum, tum bate coração
Que eu morro de amor com muito prazer”
Tá virando emprego
Após 71 anos entoando seu canto típico e ritmado, Marinês prossegue com aquela voz agitada e dançante que arrasta o pé e acelera o coração, animando quadrilhas e festas, animando qualquer pedaço de terra onde se dance um bom xaxado, um bom forró e um bom baião. Prossegue agora ao lado de São Pedro, Santo Antônio e São João.
“-Andam dizendo que nosso chamego
Nêgo tá virando emprego, nêgo falam pra daná
-Tem nada não nêga, se avexe não
Isso é pra quem canta forró, xote, baião” 
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 21/11/2010.

Por trás da expressão carrancuda, do semblante de poucos amigos e da barba que escondia-lhe a chance de um sorriso mais largo, havia um coração pronto a explodir do menino que desceu o São Carlos para colocar o dedo na ferida dos problemas sociais e afetivos de mulheres e homens. Filho do Rei do Baião, da dançarina Odaléia e da música brasileira que acolheu com tamanha propriedade, a cara de Gonzaguinha era a de um Brasil que não se entrega e não deixa de apontar as mazelas que atingem as suas pessoas. Com a camisa aberta e o peito à mostra ele escreveu através de suas músicas um retrato sensível, por vezes raivoso, outras vezes irônico, de sentimentos universais e em decadência. Era um grito de alerta, e ao mesmo tempo, de esperança. 
Filho de vários pais e de várias mães, Gonzaguinha teve história parecida com a de muitos brasileiros. Nasceu no ventre da cantora e dançarina da noite Odaléia e foi registrado pelo expoente maior da música nordestina levando seu nome. Com a morte da mãe quando ele tinha dois anos, vítima de uma tuberculose, Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior foi entregue aos carinhos de dona Dina e seu Xavier, para que o pai pudesse cumprir sua vida de viajante. Luizinho, como passou a ser chamado no morro de São Carlos, no Rio de Janeiro, logo aprendeu a tocar violão com seu padrinho, a sacar as malícias das ruas, e a ter vontade de conhecer outras bandas. Essa epopéia comum a tantos brasileiros, Gonzaguinha cantou “Com a perna no mundo”, de 1979, em que deixava um caloroso recado à madrinha querida: “Diz lá pra Dina que eu volto, que seu guri não fugiu, só quis saber como é, qual é, perna no mundo, sumiu...”
Espere por mim, morena
Moleque arisco e interessado em conhecer o mundo, Gonzaguinha decidiu aos 16 anos que queria cursar economia. Como os padrinhos Dina e Xavier, conhecido como Baiano do Violão, não tinham condições de pagar seus estudos, o menino resolveu por conta própria que iria morar com o pai. Depois de um começo de relação atribulada, com Gonzaguinha desentendendo-se constantemente com a madrasta e Luiz Gonzaga por conta de posições ideológicas, os ânimos se acalmaram, e a convivência entre os dois foi aos poucos melhorando. Gonzaguinha foi matriculado em um colégio interno e conseguiu concluir o curso que tanto queria. Mas a herança que pulsava em suas veias era a da música. Em 1967, seu pai gravou pela primeira vez uma composição sua: “From United States of Piauí”, canção bem humorada e crítica acerca dos americanismos na língua portuguesa. Mas somente em 1976, ele assumiria de vez as influências e a importância do pai em sua trajetória. No disco intitulado “Começaria Tudo Outra Vez”, gravou “Asa Branca”, um dos maiores sucessos de Luiz Gonzaga, e a toada “Espere por mim, morena”, grande êxito popular que trazia à tona o lado romântico e saudoso de um Gonzaguinha doce e leve, que falava de rede, cobertor e sol. 
Grito de Alerta
No ambiente universitário, Gonzaguinha passou a ter contato com Ivan Lins, Aldir Blanc, César Costa Filho e outros, com quem formou o Movimento Artístico Universitário, conhecido como MAU. O grupo se reunia com freqüência na casa do psiquiatra Aluízio Porto Carreiro para longas conversas e rodas de violão. Passaram então a participar de festivais, e no ano em que foi vencedor com a canção “O Trem (Você se lembra daquela nêga maluca que desfilou nua pelas ruas de Madureira?)”, Gonzaguinha recebeu uma das maiores vaias de sua carreira. Apenas em 1973, ele conheceu o sucesso. Ao entoar “Comportamento Geral” no programa de Flávio Cavalcanti, Gonzaguinha chocou os jurados, esgotou o disco nas prateleiras e foi censurado pela ditadura. Além do espírito combativo, as reuniões na casa de Aluízio, renderam-lhe seu primeiro casamento, com Ângela Porto, mãe de seus dois primeiros filhos. O discurso do embate político cedia espaço em 1980 para um envolvente Gonzaguinha, que acostumado a ouvir na infância Jamelão, Lupicínio Rodrigues e músicas portuguesas, entregava para Maria Bethânia consagrar um samba-canção de sua autoria, em que discutia as difíceis questões do coração. Deixando de lado a razão, “Grito de Alerta” era uma tentativa sincera de se desapegar de questões menores e amar de portas abertas. 
Guerreiro Menino
Gonzaguinha sempre foi considerado um artista de temperamento difícil, não gostava de dar autógrafos e raramente compunha com outros parceiros. Tido por muitos como mal humorado e arrogante, era na verdade um sujeito provocador, despojado, como ele próprio definia: “um grande gozador”, um moleque levado e teimoso que gostava de descumprir ordens. No entanto, o comportamento arredio e a desconfiança que lhe marcavam eram atribuídas por muitos aos conflitos que teve com Luiz Gonzaga. As diferenças entre os dois acabariam se tornando lá na frente o elo perfeito para formar uma parceria entre o sambista do morro carioca e o nordestino que inventou o baião, o destino de ambos cruzando o país, Gonzagão e Gonzaguinha. Já bem à vontade para tratar de temas mais sentimentais, Gonzaguinha teve gravada na voz de outro nordestino uma de suas músicas que continham maior ternura. Em 1983, seu compadre Fagner recebeu de Mariozinho Rocha o aviso de que Gonzaguinha havia lhe mandado uma música. O detalhe é que o empresário considerava que ela tinha sido feita “nas coxas” e não valia a pena gravá-la. Fagner insistiu, chorou de emoção ao ouvi-la e a transformou no carro-chefe do seu LP daquele ano. “Um homem também chora” delineava com maciez sensações singelas e muito humanas, habituadas a se esconderem atrás de hipocrisias. Gonzaguinha falava sem deixar passar nenhuma farpa da criança que constrói e existe em cada homem, da faceta mais frágil e carinhosa dos guerreiros meninos. E ele era um deles.
Sangrando, Explode Coração E Vamos à luta
No início da década de 80, Gonzaguinha passou a morar em Belo Horizonte com sua segunda esposa, Lelete. Desse casamento nasceu a sua caçulinha, Mariana, irmã de Daniel, Fernanda e Amora, filha do relacionamento do cantor com a Frenética Sandra Pêra. Nessa época, ele vivia sua melhor fase e já desfrutava dos sucessos de “Ponto de Interrogação”, “Grito de Alerta” e “Sangrando”. A balada imortalizada por Simone revelava um desenho auto-biográfico e pungente do compositor que não se dizia cantor, mas intérprete de suas emoções. Na letra de “Sangrando”, o intérprete se rendia por inteiro. Começava soltando a voz com um delicado pedido, para depois consentir que a música se apoderasse dele e exprimisse a vida em sua plenitude.
Contestador por natureza, em 1975 Gonzaguinha havia dispensado seus empresários para fundar depois seu próprio selo, Moleque, que também seria o nome do seu álbum de 1977. Nesse ano, “Explode Coração” tornou-se um dos maiores marcos de toda a carreira de Maria Bethânia. Intitulada inicialmente “Não dá mais pra segurar”, a música é um desabafo lento, progressivo, um exercício de confissão e entrega em que o compositor se despe de seus medos e aceita todos os desejos. Em “Explode Coração”, Gonzaguinha se descortina para que a vida entre sem pedir licença. 
Durante a sua trajetória, Gonzaguinha conviveu com a pobreza na favela, problemas de saúde como as duas tuberculoses que teve, e a falta de liberdade imposta pela ditadura. Apesar disso, deu um jeito de driblar as armadilhas para conquistar o que achava que tinha direito. “E vamos à luta” é talvez o samba mais animado, emblemático e contagiante de sua obra. A música é um recado otimista de persistência e coragem direcionado aos brasileiros que batalham seu lugar ao sol diariamente, com espaço para uma fezinha especial na juventude. Através dos versos esfuziantes da canção, Gonzaguinha cultiva as delícias da união e do sonho. Gravada por ele em 1980, a música foi apresentada depois em duetos descontraídos com Alcione e Roberto Ribeiro.
Começaria tudo outra vez
Ao som de bolero, samba, baião ou toada. Assim Gonzaguinha escreveu seu nome na canção brasileira. Um nome que já tinha peso antes mesmo dele nascer, e que foi aos poucos penetrando nos ouvidos das pessoas com aquele diminutivo. O menino esguio que falava de dramas, amores e problemas sociais, cresceu e continuou menino. Continuou falando, cantando, observando aquilo que lhe tocava com o cuidado de quem enxerga uma fruta madura no pé da árvore. Gonzaguinha no palco era solto, espontâneo, como se estivesse em casa, mas quando escrevia era incisivo, agudo, enfático, dando a medida que lhe cabia da força dos relacionamentos humanos em sua vida. Não imaginava ele que em 1976, só estava no começo, mas ainda assim decidia: “Começaria tudo outra vez, se preciso fosse, meu amor...”
"Só quero ver as pessoas assoviando as minhas músicas" Gonzaguinha 
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 26/09/2010.

Quando aquele menino de cabeça achatada e ombros caídos fugiu de casa, no interior de Pernambuco, para servir ao Exército, ninguém imaginava que o que ele faria seria uma verdadeira revolução na música brasileira.
Talvez nem mesmo ele.
Mas aqueles ombros caídos haviam sido feitos na medida exata para se abrigar uma sanfona, e aquela cabeça achatada tinha sido especialmente escolhida para se usar sobre ela um chapéu de vaqueiro.
Mas não um chapéu de vaqueiro qualquer.
Era o chapéu de vaqueiro do Rei do Baião.
Em Luiz Gonzaga, aquele chapéu seria uma coroa, aquelas roupas típicas e nordestinas eram os trajes de um rei e aquela sanfona que ele empunhava com rara habilidade era um cetro enfeitado de ouro e pérolas, que por vezes transformava-se em cajado, tal era a beleza e a força com que ele a tocava.
Tal era a beleza e a força com que ele a oferecia a seu povo para animar suas festas juninas, seus xotes, seus santos, seu São João. 
“Ai São João, São João do Carneirinho
Você é tão bonzinho
Fale com São José,
Fale lá com São José
Peça Prele me ajudar
Peça pra meu mio dá
20 espiga em cada pé”
Após ingressar no Exército, Luiz Gonzaga conheceu o sanfoneiro mineiro Dominguinhos Ambrósio, que lhe ensinou as músicas que faziam sucesso no Sul. No entanto, foi quando Gonzaga deu baixa no batalhão que ele iniciou sua revolução. Depois de experiências frustradas tocando em bares cariocas, o Rei do Baião conheceu o cearense Humberto Teixeira, e inventou com ele o ritmo que lhe daria a realeza. O ano era 1945, e Luiz Gonzaga tornava-se pai duas vezes. Assumia a paternidade do baião ao lado de Humberto Teixeira e a de Luiz Gonzaga Júnior, o Gonzaguinha, ao lado da dançarina e cantora Odaléia. Depois daquele momento, a música brasileira nunca mais seria a mesma. Pois ganhava ao mesmo tempo um novo ritmo e um novo músico que só trariam orgulho ao pai Gonzagão, que trazia sempre consigo sua terra, suas origens, a cultura do nordeste que ele carregava nos ombros, na cabeça achatada, nas roupas típicas e naquele balanço novo e contagiante que inventara. 
“Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo
Olha praquele balão multicor
Como no céu vai sumindo
Foi numa noite, igual a esta
Que tu me deste o teu coração
O céu estava, assim em festa
Pois era noite de São João”
A vida de viajante desse revolucionário rei teve 76 anos de andanças e sucessos. Durante sua caminhada, aquele que também ficou conhecido como o “Embaixador Sonoro do Sertão”, passeou com sua sanfona por quase todo o Brasil e por Paris, recebeu disco de ouro e Prêmio Shell, além de várias homenagens em livros e discos. No entanto, quem mais distribuiu presentes e homenagens foi ele, sempre disposto a ajudar seu povo com seu coração imenso e caridoso. O que ele fez através da música e também de ações sociais, como a Fundação Vovô Januário, criada na década de 80 para ajudar as mulheres de Exu, sua terra natal. O Rei do Baião já enxergara desde cedo o poder de sua música que encantou e continua encantando. Não há comemoração junina em que não se lembre o nome de Luiz Gonzaga. Nem um bom forró, um bom xaxado e um bom baião. Aquele olho dourado, mesmo machucado, continua avistando à distância a Asa Branca do pássaro que canta perto da Lua.
“Ai, que saudades que eu sinto
Das noites de São João
Das noites tão brasileiras nas fogueiras
Sob o luar do sertão” 
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 20/06/2010.
Bandeirinhas coloridas dançam uma quadrilha ao sabor do vento e da canjica.
A noiva veste branco, o padre sua bata preta e o noivo está amarelo de tanto medo!
Ao redor deles, os convidados completam a festa com roupas de todas as cores.
As mulheres com seus vestidos de chita e Maria Chiquinha no cabelo.
Os homens de camisa xadrez, calça remendada com panos coloridos e chapéu de palha.
Aquelas que ainda não encontraram um noivo fazem simpatias para Santo Antônio.
Aqueles que já encontraram uma noiva pedem a chave dos céus para São Pedro.
E aqueles que não querem uma coisa nem outra pulam a fogueira de São João! 
“Pula a fogueira Iaiá,
Pula a fogueira Ioiô
Cuidado para não se queimar
Olha que a fogueira já queimou o meu amor”
Olha os fogos de artifício para acordar São João.
Os balões no céu para oferecer aos 3 santos festeiros.
Todos nesse arraial dançam o “Anarriê!”
Com direito a quentão, cocada, pé de moleque e arroz doce.
E claro, não pode faltar a maçã do amor.
Não pode faltar também a sanfona, que escorrega na mão do sanfoneiro mais do que um pau de sebo.
Escorrega na mão do sanfoneiro no ritmo da cabrocha que roda o vestido, segura a saia e dança graciosa de pé no chão.
Enquanto seu par tira o chapéu, bate o pé e leva a cabrocha bonita no ritmo da sanfona, do cavaquinho, o triângulo, o pandeiro, a zabumba e o violão.
Olha a cobra! É mentira!
E lá vem o balão caindo!
E lá vem São João!
“Chegou a hora da fogueira
É noite de São João
O céu fica todo iluminado
Fica o céu todo estrelado
Pintadinho de balão”
Resta saber agora quem vai ficar sozinho e quem vai arranjar um par.
É dia dos namorados e Santo Antônio fica muito atarefado.
Por isso não custa nada pedir uma ajudinha aos outros santos!
“Implorei a São João
Desse ao menos um cartão
Que eu levava a Santo Antônio
São João ficou zangado
São João só dá cartão
Com direito a batizado”
E claro, muito cuidado para Pedro não levar a filha de João e deixar Antônio chorando!
“Com a filha de João
Antônio ia se Casar
Mas Pedro fugiu com a noiva
Na hora de ir pro altar”
É festa de Lamartine Babo, Braguinha, Haroldo Lobo, Assis Valente, Luiz Gonzaga e Marinês!
É festa do povo, da gente!
É o mês de junho e seu frio.
O calor da festa junina!
A criançada que solta bombinha rojão, explodindo em alegria!
Barraquinhas oferecem jogos: acerte a boca do palhaço, ganhe na pescaria!
Se proteja em volta da fogueira contra os maus espíritos.
Dance o forró, o xote, o baião, o arrasta-pé e o reizado!
Aproveite todas as delícias nordestinas!
“Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo
Olha praquele balão multicor
Como no céu vai sumindo
Foi numa noite, igual a esta
Que tu me deste o teu coração
O céu estava, assim em festa
Pois era noite de São João”
Quando o som da sanfona for aos poucos ficando mais baixo, as bandeirinhas forem se retirando e o fogo for lentamente recolhendo-se ao vento, ficará pregado nos ouvidos, barbantes e lenhas o cheiro do quentão, o gosto de canjica e as orações para os santos dançadas na forma de canção, de forró e de baião. Ficará pregado como melado no pau de sebo, como o frio que congela os dedos, o sabor da festa nordestina, a festa brasileira, nossa querida Festa Junina!
“Noite fria, tão fria de junho
Os balões para o céu, vão subindo
Entre as nuvens aos poucos, sumindo
Envoltos num tênue véu
Os balões devem ser, com certeza
As estrelas daqui deste mundo
Que as estrelas do espaço profundo
São os balões lá no céu”
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 13/06/2010.