
A artista Nara Leão podia parecer indefesa para aqueles que escutassem sua voz, mas não percebessem a presença explícita do que cantava sua boca, seus gestos contidos e sua interpretação diminuta. Nara era imensa como um leão. Não em seu corpo, de porte médio. Não em seus cabelos, cortados ao pé do ouvido. Nem em sua voz, de fato, pequena. Mas em sua participação como artista dentro daquilo que se convencionou chamar de música popular brasileira, bossa nova, samba do morro carioca ou tropicália. Nara Leão nunca foi uma cantora convencional. Mas convenceu a todos com seu timbre lisonjeiro e desafiador. Natural de Vitória, no Espírito Santo, morreu aos 47 anos, depois de lutar por uma década contra um tumor no cérebro. Se estivesse viva, completaria 69 anos na última quarta-feira. 
O Sol Nascerá [A Sorrir]
Localizada na rua da Carioca, o bar Zicartola despertou o interesse de Nara Leão, que além de bossa nova gravou em seu disco de estréia três sambas, um deles intitulado “O Sol Nascerá” , também conhecido como “A Sorrir”, de Cartola e Elton Medeiros. Incluída no Show Opinião, a música tornou-se um dos maiores sucessos das carreiras de Cartola e Nara, e recebeu regravações de Isaura Garcia, Elis Regina, Jair Rodrigues, e muitos outros. O refrão solar traduzia bem o momento de seu autor.
Luz Negra
Nara Leão ouviu Nelson Cavaquinho cantar “Luz Negra” numa das visitas que fez ao Zicartola. A música, que na versão dedilhada por Baden Powell em 1961 tinha o nome de Irani Barros na parceria e quando foi lançada em 1964 o de Amâncio Cardoso, saiu no disco em que a estrela do espetáculo “Opinião” também cantava músicas de Zé Kéti, Elton Medeiros e Cartola. Um ano depois, a canção serviu de trilha para o filme “A Falecida”, adaptação de Leon Hirszman para a peça de Nelson Rodrigues, com orquestração de Radamés Gnatalli. Também em 1965, Nelson cantou seu lamento rumo à despedida no disco de Elizeth Cardoso, em que subiam o morro os sambistas Paulinho da Viola e Nelson Sargento. 
Com açúcar, com afeto
Dos vários tipos de amor que existem, um deles é o que sufoca, machuca, maltrata. O outro é o que cuida, constrói, espera, prepara o café e o doce predileto. Em comum, o fato de serem amores e passarem por cima do sofrimento, da indiferença e da loucura para sobreviverem. Em 1967, Nara Leão cantou a resignada espera de Chico Buarque, “com açúcar, com afeto”.
Camisa amarela
“Camisa amarela”, música de Ary Barroso, mostra a vida da mulher que espera o seu amor antes, durante e depois do carnaval e se contenta com um pedaço apenas daquele imenso amor que ela tem para dar, pois sabe que jamais o terá por inteiro. Aquele pedaço que para as outras parece pequeno é o suficiente para completá-la. E ela precisa dele como o carnaval precisa de fantasias, máscaras e camisas amarelas. É a mulher que ama mais ao seu homem do que a si, e permite, deixa que ele goze de tal liberdade. No ano de 1967, Nara reviveu com graciosidade o clássico imortal de Ary Barroso. 
Formosa
Nássara era um encantador de formas. Mesmo antes das notas e dos versos ele já trabalhava em suas linhas melódicas. Em 1928, chegou à Escola Nacional de Belas Artes e começou a desenvolver os pilares de sua paixão. Lá, formou um conjunto musical com Barata Ribeiro, Manuelito Xavier, Jaci Rosas, Luís Barbosa, e J. Rui, que se tornaria seu parceiro na canção “Formosa”, lançada por Luís Barbosa e gravada no carnaval de 1933 pela dupla Francisco Alves e Mário Reis. No entanto, foi a gravação da dupla Maria Bethânia e Nara Leão, em 1972, que fez com que novas gerações pudessem conhecer a música. Sob confetes e serpentinas as duas embalam os irresistíveis versos na trilha sonora do musical de Carlos Diegues, Quando o Carnaval chegar: “Foi Deus quem te fez formosa, formosa, ô formosa, porém este mundo te tornou presunçosa, presunçosa...” 
Diz que fui por aí
Em 1963 Zé Kéti recebeu o convite para ser diretor artístico do Zicartola. Até que um dia chegou por lá Carlinhos Lyra, diretor da UNE e um dos integrantes do que viria a se chamar de bossa nova. Seria esse Carlinhos que apresentaria a Zé Kéti uma moça chamada Nara Leão, que era cantora e que gravaria em seu LP de estréia, com acompanhamento do violonista Geraldo Vespar, o samba “Diz que fui por aí”, no ano de 1964. A ditadura se instalava no Brasil enquanto o morro se unia à bossa nova da zona sul através da música e da boemia. Anos depois, a canção seria sucesso também nas vozes de Jair Rodrigues, Elis Regina e MPB-4, dentre vários outros.
Opinião
A união entre Zé Kéti e Nara Leão, que começara com a gravação daquela música sobre as andanças de um boêmio, se estenderia até os palcos de teatro sob o nome de “Opinião”. A música composta por Zé Kéti sobre o processo de remoção de favelas que era executado pelo governo da Guanabara, seria o mote perfeito para que no final de 1964 os artistas pudessem dar o seu primeiro grito de liberdade silenciada.
"Podem me prender, podem me bater, podem até deixar-me sem comer, que eu não mudo de opinião"
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 23/11/2011.

Subindo as ruas íngremes de Bento Ribeiro, José Flores de Jesus lembra-se da sua adolescência, quando morava no subúrbio de Piedade, e de sua infância, que passara em Inhaúma, redutos conhecidos da malandragem do Rio de Janeiro. Ao passar pelas ruas do atual bairro, José Flores enxerga velas acesas, máscaras negras e pede licença para cantar o seu amor. Quando ele finalmente chega à roda de samba para a qual caminha, nem precisa se apresentar, todos já sabem que aquele sujeito de chapéu de aba pequena na cabeça, caixinha de fósforos na mão e andar sambado é o Zé Quietinho filho da dona Leonor, ou o Zé Kéti da Portela que hoje todos conhecem: a voz do morro, da opinião, da prece de esperança e do poema de botequim. 
Neto do flautista e pianista João Dionísio Santana, o primeiro instrumento que Zé Quietinho tocou foi uma flautinha dada por sua mãe. Dali para as reuniões na casa do avô na companhia de Pixinguinha, Cândido das Neves, o Índio, e outros, o menino que era quieto foi se interessando cada vez mais pela música e compôs um choro para o qual deu o nome de “Remelexo”. Então em 1955, ele viu estourar na boca do povo o seu primeiro sucesso: A voz do morro, samba que exaltava o próprio como porta-estandarte da favela. Gravado por Jorge Goulart com arranjo do maestro Radamés Gnatalli, a música fez parte da trilha sonora do filme Rio 40 Graus, marco do cinema nacional dirigido por Nelson Pereira dos Santos, e rendeu ao menino Zé Quieto a sua primeira oportunidade como ator. Na pele de Neguinho ele dialogava com o malandro interpretado por Jece Valadão. Estava fazendo nada mais do que interpretar a si mesmo, e dar voz a seu povo sofrido com seu balanço de cronista esperto. Zé Kéti era o rei dos terreiros.
Diz que fui por aí
Depois de algumas voltas, em 1963 a música de Zé Kéti tornou-se conjunto musical. A Voz do Morro contava em sua formação com bambas do peso de Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Anescarzinho do Salgueiro, Nelson Sargento, Oscar Bigode, José da Cruz e Paulo César Batista de Faria, a quem Zé Kéti rebatizou de Paulinho da Viola. No mesmo ano, ele recebeu o convite para ser diretor artístico do Zicartola, com dona Zica na cozinha e Cartola no violão. Trazidos por Zé Kéti, a casa recebia artistas e atraía intelectuais da zona sul do Rio de Janeiro. Até que um dia chegou por lá Carlinhos Lyra, diretor da UNE e um dos integrantes do que viria a se chamar de bossa nova. Seria esse Carlinhos que apresentaria a Zé Kéti uma moça chamada Nara Leão, que era cantora e que gravaria em seu LP de estréia, com acompanhamento do violonista Geraldo Vespar, o samba “Diz que fui por aí”, no ano de 1964. A ditadura se instalava no Brasil enquanto o morro se unia à bossa nova da zona sul através da música e da boemia. Anos depois, a canção seria sucesso também nas vozes de Jair Rodrigues, Elis Regina e MPB-4, dentre vários outros que a regravaram. 
Opinião
A união entre Zé Kéti e Nara Leão, que começara com a gravação daquela música sobre as andanças de um boêmio, se estenderia até os palcos de teatro sob o nome de “Opinião”. A música composta por Zé Kéti sobre o processo de remoção de favelas que era executado pelo governo da Guanabara, seria o mote perfeito para que no final de 1964 os artistas pudessem dar o seu primeiro grito de liberdade silenciada. E foi também no ambiente do Zicartola, onde segundo Zé Kéti os compositores podiam cantar à vontade, que surgiu a idéia do musical. Escrito por Paulo Pontes, Ferreira Gullar, Armando Costa e Oduvaldo Viana Filho, e contando com a direção de Augusto Boal, “Opinião” tornou-se um dos espetáculos mais bem sucedidos do teatro brasileiro, e consagrou definitivamente o sambista e poeta do seu povo Zé Kéti, que interpretava mais uma vez o malandro dos morros cariocas, e atuava ainda ao lado de Nara Leão no papel da mocinha da zona sul e João do Vale, representado a força do nordeste. O espetáculo encenado no Teatro de Arena, em Copacabana, e que depois daria nome a um famoso grupo de teatro de São Paulo, ficou mais de um ano em cartaz. Como já era comum na carreira de Zé Kéti, sua composição extrapolava as raízes da música, e tornava-se além de um emblemático espetáculo teatral, o nome de um jornal, de um teatro, um grupo de teatro e do segundo LP de Nara Leão. Era inclusive em uma de suas falas no Show Opinião que Zé Kéti explicava que adotara o K em seu nome por ser a inicial de estadistas da época, a exemplo de Kennedy e Kubitscheck, simbolizando mais uma vez o forte caráter político da Opinião. Apanhando ou não, Zé Kéti era um sambista livre, que dialogava com todas as formas de música que surgiam no país da censura. 
Acender as velas
Depois de desfrutar do enorme sucesso de Opinião, Zé Kéti voltava-se novamente para o sofrimento do seu povo, e acendia velas contra o descaso que atingia crianças que morriam diariamente na sua favela. A amiga Nara Leão seria quem a gravaria primeiro, seguida depois com o mesmo sucesso por Elis Regina e Jair Rodrigues. No ano em que denunciava a tristeza que assaltava os morros, Zé Kéti era premiado com o troféu Euterpe, como melhor compositor carioca, e dividiria com Nelson Cavaquinho o posto de melhor compositor brasileiro, recebendo o troféu O Guarany. Também nesse ano, o conjunto que ele idealizara como A Voz do Morro, gravava o seu primeiro LP, através da Musidisc. Era o compositor sendo festejado e realizando vários sonhos no ano em que cantava o lado mais triste da favela, que via seu povo morrer sem querer morrer, iluminado apenas pela luz de velas. 
Máscara Negra
Máscara negra foi o grande sucesso do carnaval de 1967. A marcha composta por Zé Kéti se tornaria uma das grandes músicas cantadas por Dalva de Oliveira, e um dos últimos êxitos populares de ambos. Vencedora do carnaval daquele ano, a canção contava a antiga história dos laços amorosos entre Pierrôt, Colombina e Arlequim. A diferença é que nos versos de Zé Kéti a história ganhava contornos líricos e suaves, aproveitando-se do grande talento do compositor. Além disso, Zé Kéti corrigia um erro histórico e dava nova chance a Pierrôt, fazendo com que Arlequim fosse o rejeitado dessa vez. Máscara negra é uma das mais belas músicas de carnaval já escritas, provando toda a essência poética do trabalho de Zé Kéti, que jamais mascarou os problemas do seu povo, mas também não deixou de iluminá-los com seus sambas e suas atuações.
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 19/09/2010.