
O jeito de tocar o violão e o cavaquinho que lhe rendeu o apelido, beliscando as cordas com dois dedos, e a voz desafinada, sempre embargada de uma profunda tristeza, ajudam a compreender a essência daquele artista. Mergulhado na boêmia, Nelson Cavaquinho fazia da melancolia seu mote para compor sambas sinceros e profundos, como “Folhas Secas”, “A flor e o espinho” e “Quando eu me chamar saudade”, todas com Guilherme de Brito, além de criar a obra-prima “Luz Negra”, na qual mais uma vez se despedia da vida, alçada ao sucesso nas vozes de Nara Leão e Elizeth Cardoso. Sempre ligando o amor à tragédia, Nelson Cavaquinho foi um instrumentista, compositor e poeta que viveu a vida inspirado pela morte, e que soube tirar dela letras e melodias cheias de luz, mesmo negras, cheias de flores, mesmo que com espinhos e cheias de folhas, até mesmo as secas.
“A flor e o espinho” nasceu do cavaquinho de Nelson com a ajuda de mais um desses parceiros que ele conheceu nas mesas de boteco. Guilherme de Brito pediu a todos que tirassem o “sorriso do caminho”, pois ele ia passar com sua dor. O autor desses versos imponentes e tristonhos realmente conheceu Nelson em seu habitat preferido, mas diferente de outros “compositores de ocasião”, participou com poesia e não com dinheiro da canção gravada pelo cantor Raul Moreno, em 1957. O outro parceiro de Nelson na canção é Alcides Caminha, que só mais tarde teria sua identidade revelada, era o desenhista Carlos Zéfiro, famoso pelos quadrinhos eróticos nas décadas de 50 e 60. Escondido com sua voz nos porões do “Cabaré dos Bandidos”, Nelson só apareceria em disco em 1965, ao tocar seu violão rústico na música que era cantada por Elizeth Cardoso. O álbum chamava-se “Elizeth sobe o morro”. Nelson descia aos poucos para o estrelato.
Rugas
Nelson Antônio da Silva virou Cavaquinho depois que se enturmou nas rodas de choro com Edgar Flauta da Gávea, Heitor dos Prazeres, Mazinho do Bandolim e Juquinha, mas continuou assinando suas composições, quando assinava, como N. Silva. Isso porque tinha a mania de guardar as músicas na cabeça cheia de cachaça, e muitas delas se perderam. A primeira gravada foi “Não faça vontade a ela”, por Alcides Gerardi, onde já começou sua travessia empoeirada de trocar canções por favores. Henricão e Rubens Campos o ajudaram e foram incluídos como autores. Mas em 1943, o sambista Ciro Monteiro o conheceu e começou a remexer em seu repertório, pescando preciosidades até descobrir a música “Rugas”, de Nelson, Augusto Garcez e Ary Monteiro. No primeiro clássico do sambista que se fez no choro, Nelson dilacerava corações otimistas, ao definir a vida: “Feliz aquele que sabe sofrer”. Mais tarde ele diria como quem fala a um amigo: “Essa é uma das músicas que o Vinicius de Moraes e o Carlos Jobim me pedem pra cantar.” 
Luz Negra
Nelson Cavaquinho costumava se esgueirar em qualquer tipo de bar que visse. E o Zicartola, do amigo Cartola e sua esposa Dona Zica, foi mais um desses onde ele firmou residência fixa, diferente do lar matrimonial, que deixava Alice, sua primeira esposa, quase sempre acompanhada apenas dos três filhos. Nelson conheceu o amigo dono do bar enquanto fazia uma ronda no morro de Mangueira, e logo fizeram uma música juntos: “Devia ser condenada”. Qual não foi a surpresa de Cartola quando um sujeito qualquer cantou-lhe o samba afirmando que a música era sua, pois a havia comprado de Nelson, que se justificou depois com o parceiro: “Mas eu só vendi a minha parte.” Apesar do incidente bastante praticado na vida de Nelson, ele era um dos convidados mais freqüentes da atração comandada por Cartola e que recebia bambas do porte de Zé Kéti, Paulinho da Viola e o bossanovista Carlinhos Lyra que passava por lá para espiar. Também vinda da bossa-nova, Nara Leão ouviu Nelson cantar “Luz Negra”, que na versão dedilhada por Baden Powell em 1961 tinha o nome de Irani Barros na parceria e quando foi lançada em 1964 o de Amâncio Cardoso. A canção saiu no disco em que a estrela do espetáculo “Opinião” também cantava músicas de Zé Kéti, Elton Medeiros e Cartola. Um ano depois, a música serviu de trilha para o filme “A Falecida”, adaptação de Leon Hirszman para a peça de Nelson Rodrigues, com orquestração de Radamés Gnatalli. Também em 1965, Nelson cantou seu lamento rumo à despedida no disco de Elizeth Cardoso, em que subiam o morro os sambistas Paulinho da Viola e Nelson Sargento. 
Folhas secas
O pai de Nelson Cavaquinho chamava-se Brás Antônio da Silva, e era contramestre da Banda da Polícia Militar do Rio de Janeiro, onde tocava tuba, a mãe chamava-se Maria Paula da Silva, e lavava roupa para as freiras Carmelitas do convento de Santa Teresa. Da mãe, Nelson herdou a adoração fervorosa pela religião, e do pai, o gosto pela música. Unindo o estilo boêmio à religiosidade, Nelson criou verdadeiros clássicos do samba. O que só foi possível porque na juventude, quando ele não tinha dinheiro para comprar um instrumento, o jardineiro Ventura, que o assistia disputar “quedas” com os outros chorões, deu-lhe de presente um cavaquinho. Nelson deixou de pedir emprestado o auxílio feito de madeira dos outros músicos, entre eles Romualdo e Luperce Miranda, mas não parou de inovar. Ainda em criança, ele havia feito de uma tampa de caixa de charutos e barbantes esticados o necessário para tirar um som. No ano de 1973, lembrando com nostalgia sua mocidade, Nelson compôs ao lado do parceiro Guilherme de Brito, a essencial “Folhas Secas”, que prestava uma homenagem à querida Mangueira, onde ele conhecera o samba que o levaria por toda a vida. A música foi alvo de uma polêmica jamais resolvida entre Elis Regina e Beth Carvalho, que a lançaram no mesmo ano. Inicialmente dada para Beth gravar, foi levada pelo arranjador César Camargo Mariano para Elis. O resultado foram dois registros belíssimos para a música brasileira e uma desavença severa entre as duas intérpretes. 
Degraus da vida
O verdadeiro mestre de Nelson Cavaquinho na arte de empunhar o instrumento foi o violonista Juquinha. Para ele, Nelson dedicou seu segundo choro, “Gargalhada”, que simbolizava o gesto do professor toda vez que o aluno vencia uma “queda”, ou seja, quando quem está solando consegue fazer com que os outros músicos se percam. Nessa época, ao se casar com Alice, Nelson passou a precisar de um emprego, e o pai resolveu alterar a sua certidão de nascimento para que ele pudesse ingressar na cavalaria da Polícia Militar do Rio de Janeiro. O casamento e o emprego deram-se na forma de obrigação pelo pai da moça e de Nelson. A boemia e o samba foram uma opção de vida. Por conta dessas controversas realidades, Nelson ficou um ano mais velho, e tirou da boca do pai doente a inspiração para compor “Degraus da Vida”, ao ouvi-lo dizer: “sei que estou no último quartel da vida.” Nelson trocou quartel por degrau e teve a música chorosa lançada por Roberto Silva em 1950 e relançada pelo mesmo Roberto em 1961. A parceria ainda rendeu a Nelson Cavaquinho cerca de cem mil réis, ao incluir o nome de César Brasil na autoria da canção. É que Nelson subia regularmente os degraus do hotel de César, que nunca escreveu um verso ou tocou uma nota musical na vida. 
Pranto de poeta
Em suas andanças pelos subúrbios do Rio de Janeiro, Nelson Cavaquinho freqüentemente amarrava seu cavalo, conhecido como Vovô, em uma árvore no Morro de Mangueira e ia ao encontro de sambistas como Zé da Zilda, Carlos Cachaça e Cartola. Desde cedo conhecedor da alta malandragem carioca, representada por nomes como Brancura, Edgar e Camisa Preta, Nelson tornou-se amigo dos sambistas do morro a partir do emprego que conseguiu na polícia. Ficava horas bebendo cachaça e conversando com Cartola. Numa dessas, seu cavalo acabou fugindo e retornou sozinho para o Batalhão, o que ocasionou mais uma dentre as muitas prisões de Nelson, que habituado a ficar dias sem aparecer, aproveitava o tempo na cela para compor. Sobre esse episódio, Nelson diria em entrevista: ”E não é que o danado do cavalo tava rindo de mim quando cheguei no Batalhão?". No ano de 1938, antes de ser expulso da corporação, Nelson conseguiu dar baixa em seu cargo na polícia, separou-se de Alice e se entregou definitivamente ao samba e à boêmia. Em 1952 foi morar em Mangueira, onde permaneceu por um ano e meio, e em 1968, dividiu com Cartola, Clementina de Jesus, Carlos Cachaça e Odete Amaral os vocais de “Fala Mangueira”, produzido por Hermínio Bello de Carvalho. Já ao lado de Guilherme de Brito, ele compôs a música que seria lançada em 1957 por Lucy Rosana, gravada em 1965 por Nara Leão e interpretada em dueto nada sóbrio de sua parte por ele e Cartola, em 1977, “Pranto de Poeta”. A música exalta a Mangueira onde ele criou raízes e conheceu geniais sambistas que nortearam sua trôpega trajetória de brilho infindo. 
Notícia
Não se sabe ao certo se Nelson Cavaquinho nasceu no dia 28 ou 29 de outubro, nem em que bairro. Sabe-se que ele mudou várias vezes de residência, sempre vagando com seu violão na vertical agarrado ao corpo moreno e pequeno, crispado na superfície por lisos cabelos brancos. Sem jamais se prender a nada, Nelson vivia sob a égide do momento ao mesmo tempo em que exalava angústias sobre a morte. Do tipo que não se importava com bens terrenos, era seu costume distribuir o dinheiro entre doses generosas de bebida e esmola a amigos. Por conta desse hábito, passava dias sem voltar para casa, e desfilava sua liberdade lisonjeira na Praça Tiradentes, vendendo samba em troca de guarida. Desse comportamento errático, nasceram casos folclóricos do andante boêmio. Milton Amaral conta que certa vez Nelson Cavaquinho vendeu tanto uma música, que o mesmo samba tinha 16 autores. Eduardo Gudin afirma que quando o apresentador de um programa de rádio perguntou a Nelson quais eram seus planos, ele respondeu distraído: “Meus planos? O Gudin vai passar aqui para me pegar e vamos beber no Bar do Alemão”. E o próprio Nelson contava que em uma madrugada quando sonhara que ia morrer ás três da manhã, acordou e adiou os ponteiros do relógio, que já marcavam quinze para as três. Dizia ele: “Nessa eu não vou”. Essas notícias que circulavam sobre Nelson revelavam uma personalidade oposta àquela que era exposta em suas canções. Nelson Cavaquinho era uma figura complexa, capaz de criar sambas de contenção religiosa em meio a pileques e orgia. “Notícia”, por exemplo é mais uma parceria sua com o obscuro Carlos Zéfiro, que assina sob o pseudônimo Alcides Caminha, além de Norival Bahia. A música lançada por Roberto Silva em 1955 e regravada por Nelson em 1977, no disco intitulado “Os Quatro Grandes do Samba”, que dividiu com Guilherme de Brito, Candeia e Elton Medeiros, traz as entranhas de um relacionamento entremeado por traições e amadurecimento. 
Palhaço
No ano de 1951, a cantora Dalva de Oliveira, no auge de sua carreira, gravou a composição “Palhaço” de um ainda desconhecido Nelson Cavaquinho, que trazia na parceria os nomes de Oswaldo Martins e Washington Fernandes. Àquela altura, o violonista que abandonara o instrumento que dera-lhe o apelido, para empenhar uma arma mais suntuosa para seus cabelos brancos, havia sido gravado por Ciro Monteiro, Alcides Gerardi e Roberto Silva. Mas foi a gravação de Dalva que rendeu para Nelson seu maior sucesso até então. Na música, ele repetia o personagem que apareceria com freqüência em suas canções, o homem que teme a morte, o infeliz que agarra-se ao sofrimento, o palhaço que abandona o palco pra poder chorar.
Dona Carola
Os versos de uma das mais tocantes músicas de Nelson Cavaquinho deram a deixa perfeita para que em 1985, Cristina Buarque e Carlinhos Vergueiro pudessem arquitetar as matizes de “Flores em Vida”, disco em homenagem ao sambista que trazia as participações de Chico Buarque, Paulinho da Viola, João Bosco, Beth Carvalho, Toquinho, além do próprio Nelson cantando. O álbum, lançado um ano antes da morte do homenageado, foi recebido com festa na quadra da Mangueira, e trazia entre diversos sucessos, músicas menos conhecidas como “História de um Valente”, onde Nelson citava Noel Rosa, e “Pecado”, música que ele dividiu a autoria com Ligia Uchoa, mulher por quem se apaixonou ao encontrá-la sem teto na praça Tiradentes e de quem tatuou o nome no ombro direito, rendendo-lhe também outro samba “Tatuagem”. Em outra faixa que se tornou menos conhecida, Chico Buarque canta “Dona Carola”, partido-alto que põe à tona o lirismo espirituoso de Nelson Cavaquinho. 
Juízo Final
O reconhecimento à obra de Nelson Cavaquinho começou a se dar de forma mais intensa na década de 60, embora ele mesmo não demonstrasse preocupação com isso. A partir das gravações de Ciro Monteiro, Nara Leão e Elizeth Cardoso, outros nomes passaram a se associar ao de Nelson, a exemplo da mangueirense Beth Carvalho, com quem ele participou do Projeto Pixinguinha em 1978, e da portelense Clara Nunes. Em 1970, ele próprio ganhou a oportunidade de gravar suas músicas em um disco que levava seu nome, lançado pelo selo Castelinho, que logo iria falir, tendo o registro que ser relançado em 1974 pela Continental. Nessa gravação, Nelson era entrevistado pelo jornalista Sérgio Cabral, a cronista Eneida e o apresentador Sargentelli, além de ser anunciado por Elizeth Cardoso e acompanhado por Altamiro Carrilho. Dois anos depois, Nelson lançou seu segundo LP, através da “Série Documento” da RCA Victor. E em 1973, seu derradeiro registro solo, onde cantava pela primeira vez ao lado do parceiro eterno Guilherme de Brito, com produção de Pelão, levado ao mercado pela Odeon. Nesse último, Nelson Cavaquinho tocava pela primeira vez em disco o instrumento do apelido. Com seu nome bastante consolidado no mercado, Clara Nunes lançou no seu álbum “Claridade” de 1975, a música esperançosa de Nelson que decretava a chegada do sol no seu horizonte, a vitória do bem sobre o mal, a luz a brilhar nos corações. O amor será eterno, era o seu “Juízo Final”. 
Cuidado com a outra
A primeira cantora a realizar um trabalho apenas com músicas de Nelson Cavaquinho foi a alagoana Telma Soares, em seu disco intitulado “Telma Soares interpreta Nelson Cavaquinho”, com produção de Stanislaw Ponte Preta e arranjos de Radamés Gnatalli. O álbum saiu em 1966, e contava pela segunda vez em disco com a participação de Nelson, ao distribuir sua voz pitoresca em canções como “Rei sem trono”, “História de um valente” e “Cuidado com a outra”, essa uma sátira bem humorada que usava o pretexto do dia das mães para se perdoar a mulher amada. Mais tarde, o sucesso da canção veio através da gravação de Chico Buarque, em 1974.
Vou partir
São inúmeras as histórias que contam de parceiros fictícios de Nelson Cavaquinho, que nunca existiram como compositores, mas apenas como ajudantes diante dos arroubos anárquicos do poeta. Nelson Cavaquinho seguia seus ímpetos, e assim ia colecionando parceiros, amigos e mulheres. A última delas foi Durvalina, trinta anos mais nova, que Nelson conheceu aos mais de 50 anos de idade. Sua trajetória peculiar virou motivo para o cineasta Leon Hirszman gravar um curta-homenagem sobre ele, que saiu em 1969. Dos parceiros que teve na vida, muitos foram acompanhantes de boteco, poucos de poesia. Entre eles, destacam-se Guilherme de Brito, Carlos Cachaça, Zé Kéti, Cartola e Jair do Cavaquinho, companheiro até no apelido do sobrenome. Com Jair, Nelson criou a pérola “Vou partir”, gravada por Elizeth Cardoso em 1965, em que ele a acompanha com seu violão. Dessa vez, a despedida não era eterna, apenas enquanto durasse o carnaval. 
Quando eu me chamar saudade
A dupla Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito eternizou verdadeiros petardos da poesia musical brasileira. Através das lentes de seus óculos grossos e sua voz rareando a cada novo frasco de inspiração e cachaça, Nelson Cavaquinho soube conferir à morte uma beleza intrínseca. Guilherme de Brito o acompanhou sem o mesmo alarde, mas com total compreensão nessa incessante procura da vida. A música lançada no disco solo de Nelson em 1972, foi composta anos antes pela dupla, e recebeu novos versos, que de início eram: “Eu tenho amigos, enquanto eu viver, eu tenho tudo, enquanto eu merecer, mas amanhã se eu morrer, a maior parte de meus amigos nem vem me ver”. A definitiva versão recebeu os belíssimos: “Sei que amanhã quando eu morrer, os meus amigos vão dizer, que eu tinha um bom coração, alguns até hão de chorar, e querer me homenagear, fazendo de ouro um violão”. O instinto de efemeridade do compositor era delineado nos versos finais da música, em que pedia “flores em vida”. A canção recebeu regravações de Nelson Gonçalves, Nora Ney e Noite Ilustrada, entre muitos outros. Eram os versos de nostalgia de um homem que percebeu o sofrimento e soube transformá-lo em poesia. Por mais que seus dedos belisquem as cordas do instrumento e sua voz saia desafinada, Nelson Cavaquinho caminha exultante por entre as folhas secas, passando com sua dor, emanando sua luz que já não tem cor, chama-se saudade.
"Feliz aquele que sabe sofrer" Nelson Cavaquinho 
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 31/10/2010.

Angenor só descobriu seu nome aos 56 anos, ao se casar com sua segunda esposa. Só gravou suas músicas em disco aos 65, depois de lavar carros e construir com tijolo e cimento os caminhos de sua vida. Mas Angenor sempre foi poeta, sempre foi Cartola mesmo antes de tê-la na cabeça. Por obra do destino, cresceu fidalgo em meio à pobreza de Mangueira, e a cantou em versos silenciados pelo perfume das rosas. A cantou em versos que o estudo das línguas, a formação cultural, a exigência da técnica, não ensinam. Foi aprendiz da alvorada, das cores verde e rosa que o amanhecer nos mostra ao desfilar suas bandeiras, dos ensinamentos cíclicos de um mundo moinho, e mestre do samba nítido e acarinhado pelas cordas de aço de seu violão divino.
Cartola nasceu no Catete, logo depois foi morar em Laranjeiras, bairros da zona sul do Rio de Janeiro. Mas com a morte do avô, em 1919, ele e seus cinco irmãos foram obrigados a se mudar com os pais para o Morro da Mangueira, favela que se iniciava naqueles tempos. Sempre chegado a uma cachaça e várias mulheres, Cartola não gostava de trabalhar, o que lhe rendia diversas brigas com o pai. Numa dessas foi expulso de casa. A essa altura já trabalhava como pedreiro, já usava o chapéu coco para proteger o cabelo da cal que lhe deu o apelido famoso e já gostava de samba, inclusive já escrevia os seus. Os primeiros deles foram mostrados aos colegas do “Bloco dos Arengueiros”, que não simpatizaram muito com as composições. Embora fossem bons de samba e de briga, eles provavelmente não notaram que Angenor escondia sob a cartola que lhe protegia a cabeça, versos e melodias tão sublimes quanto as rosas que desabrochavam na primavera. Numa tarde de 1975, o compositor Nuno Veloso, que levava Cartola e dona Zica até a casa de Baden Powell, resolveu comprar flores para o casal. Ao se encantar com o desabrochar da roseira no dia seguinte, Zica questionou o marido: “Como é possível, Cartola, tantas rosas assim?”, ao que ele respondeu sem muito entusiasmo: “Não sei, as rosas não falam”. E começava a florescer naquele dia mais uma música que traria voz eterna a seu compositor. Gravada por ele e por Beth Carvalho em 1976, demonstrava toda a esperança lírica de Cartola, que a escrevera em seus 67 anos.
Alvorada no morro
Assim que chegou ao morro de Mangueira, Cartola ficou amigo de Carlos Cachaça. Freqüentando as zonas boêmias sempre que podia, foi apresentado aos malandros do local e se tornou um dos fundadores da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, em menção ao fato de ser a primeira estação onde parava o trem que partia da Central do Brasil. Inspirado por lembranças de sua infância, quando assistia às manifestações carnavalescas do “Rancho dos Arrepiados”, tingiu com elegância a combinação entre um “caule verde” e uma “rosa na ponta”, como costumava dizer. A escola que ajudou a fundar, e o morro que lhe deu inspiração para tal, seriam homenageadas em várias de suas canções, uma delas lançada por Odete Amaral em 1968 e imortalizada em 1972 no canto de brisa de Clara Nunes: “Alvorada” foi composta em uma das madrugadas em que Carlos Cachaça e ele desciam o morro do Pendura a Saia. Os dois se impressionaram com a beleza dos primeiros raios de sol que surgiam no horizonte e iluminavam a paisagem sofrida dos seus moradores. Ali começaram a ser coloridas as estrofes e melodias que ganhariam pinceladas de Hermínio Bello de Carvalho, e representavam a admiração dos autores pelo morro carioca. 
Não quero mais amar a ninguém
Com o sucesso da escola de samba da Mangueira, Cartola se tornou conhecido de figuras famosas como os cantores do rádio Mário Reis e Francisco Alves, o sambista e poeta da Vila, Noel Rosa e o maestro Heitor Villa-Lobos. No ano de 1936, sua música “Não quero mais”, em parceria com o amigo Carlos Cachaça e o bamba Zé da Zilda, recebeu prêmio no desfile da escola, e um ano depois foi gravada por Aracy de Almeida. Mestre de harmonia da Estação Primeira, Cartola vendia seus sambas, mas não abria mão da autoria. Por essa época, ele uniu seus trapos com Deolinda, uma mulher mais velha, casada e com uma filha. Vizinha de Cartola, Deolinda o ajudava quando estava doente, e aos poucos o carinho que nutria foi se transformando em outro sentimento. Os dois resolveram morar juntos em um barraco com lugar para a filha e o pai de Deolinda. Com o passar do tempo, a casa passou a receber mais moradores, e um dos mais constantes era justamente Noel Rosa, nas noites em que tomava porres homéricos ao lado de Cartola. Por uma triste ironia do destino, os anjos do morro levaram Deolinda para longe do menino que ela aprendeu a cuidar e a amar, e a música que ele havia composto para o carnaval simbolizava agora o início de sua longa quarta-feira de cinzas. Cartola estava indo embora de Mangueira, desiludido com a vida e com o samba, e sentenciava: “Não quero mais amar a ninguém, não fui feliz o destino não quis o meu primeiro amor, morreu como a flor, ainda em botão, deixando espinhos que dilaceram meu coração...”
Tive sim
As muitas agruras que a vida lhe proporcionou ao longo dos anos fizeram com que Cartola desistisse do samba. Ele já havia perdido a mãe em pequeno, sua esposa e agora decidira que abandonaria a música antes que esta o abandonasse. Os amigos achavam que estava morto, fizeram canções em sua homenagem. Carlos Cachaça o encontrou magro, sem dentes, bebendo dois litros de pinga por dia. Resolveu apresentá-lo à irmã de sua futura esposa. Dona Zica acolheu Cartola nos braços e no coração. Em 1968, ele lhe dedicou um de seus sambas mais comoventes: “Tive sim”, uma declaração de amor presente sem renegar as alegrias passadas. A música foi cantada por Cyro Monteiro na primeira Bienal do Samba, realizada pela TV Record, e ficou em quinto lugar. Durante a apresentação, Cyro foi vaiado por torcedores de outros concorrentes, e chorou mais tarde em uma mesa de bar: “Nunca fui vaiado na minha vida, ainda mais cantando música do Cartola!” Mas já não havia motivo pra choro. Cartola estava de volta.
Acontece
O retorno de Cartola para as raízes de sua Mangueira aconteceu aos poucos. Depois de conhecer Dona Zica, passou a trabalhar como lavador de carros. Numa dessas noites, resolveu ir até um bar próximo e esbarrou por lá com Sérgio Porto, conhecido como Stanislaw Ponte Preta, que o reconheceu imediatamente: “Você não é o Cartola?”, ao que ele respondeu: “Sou”. O jornalista não conteve o espanto, escreveu sobre o encontro em sua coluna e passou a divulgar seu nome, levando-o para cantar em programas de rádio. O sambista desaparecido havia sido encontrado. Ainda assim, Cartola se deparava com dificuldades e teve que trabalhar no jornal “Diário Carioca” e no Ministério de Indústria e Comércio, servindo café. Por conta do embalo inicial dado por Sérgio Porto e do amor despertado por Dona Zica, foi que Cartola voltou à cena definitivamente, e em 1972 teve seu samba “Acontece”, gravado por Paulinho da Viola. A música mais uma vez trazia a temática do amor diante do olhar sensível e resignado de Cartola, recusando-se a cultivar um disfarce. 
O Sol Nascerá [A Sorrir]
Passado o período noturno na vida de Cartola, ele agora vivia uma nova fase. Morando com Dona Zica, recebia diariamente a visita de amigos dispostos a curtir um bom samba. A idéia foi se transformando naquela que seria a casa mais famosa do Rio de Janeiro na década de 60. Dona Zica cuidava da cozinha, enquanto Cartola cuidava do violão. Nascia o Zicartola, freqüentado por bambas do morro e pela intelectualidade carioca que esboçava os primeiros passos da bossa nova. Para garantir a qualidade dos espetáculos, Cartola chamou o amigo Zé Kéti para ser diretor artístico e Hermínio Bello de Carvalho criou a Ordem da Cartola Dourada, que agraciava os grandes músicos brasileiros que ali se apresentavam. Entre eles estavam Nelson Cavaquinho, João do Vale, Ismael Silva e Paulinho da Viola. Localizada na rua da Carioca, a casa despertou o interesse de Nara Leão, que além de bossa nova gravou em seu disco de estréia três sambas, um deles intitulado “O Sol Nascerá” , também conhecido como “A Sorrir”, de Cartola e Elton Medeiros. Incluída no Show Opinião, a música tornou-se um dos maiores sucessos da carreira de Cartola, e recebeu regravações de Isaura Garcia, Elis Regina, Jair Rodrigues, dentre tantos outros. O refrão solar traduzia bem o momento de seu autor, sorrindo após a tempestade. 
Cordas de Aço
A voz de Cartola finalmente ecoou em disco no ano de 1974. Embora já tivesse feito participações em trabalhos de outros cantores, era a primeira vez que se ouvia seu canto em disco próprio. Lançado por iniciativa de João Carlos Botezzeli, o Pelão, através da gravadora Marcus Pereira, o álbum recebeu prêmios e reconhecimento instantâneo, sendo Cartola logo convidado a gravar mais três LP´s. A esses seguiram-se turnês que percorreram o Brasil com enorme sucesso. Cada vez mais conhecido do grande público, Cartola também encantava a crítica, e participou ao lado de João Nogueira do bem sucedido Projeto Pixinguinha. Foi num desses álbuns no ano de 1976 que ele deixou seu registro para a música “Cordas de Aço”, em que homenageava o companheiro de toda a vida, o querido violão. E lá iam os dois madrugada adentro, cantando.
O Mundo é um Moinho
“O mundo é um moinho” foi lançada por Cartola em 1976. Na música incisiva em que supostamente falava para uma sobrinha que saíra de casa para ser prostituta, Cartola era acompanhado pelo violão de Guinga, grande instrumentista com apenas 20 anos. A canção, que tinha sido ouvida dois anos antes em um programa especial na Rádio Jornal do Brasil, quando Cartola a cantara para o radialista e produtor Luiz Carlos Saroldi, pode ser considerada uma das mais bonitas da carreira do fundador de Mangueira. Era Cartola destilando seus sentimentos claros em um mundo cheio de obscuridades e mesquinharias. Partindo para ver o céu no dia 30 de novembro de 1980, o pedreiro de chapéu coco é sempre lembrado como um dos grandes gênios da música brasileira, suas rosas mais do que nunca falam e levam a vida a sorrir nesse moinho de tristezas e alegrias.
"Todo mundo tem o direito de viver cantando" Cartola 
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 10/10/2010.