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terça-feira, 19 de outubro de 2010




O Raimundo mais famoso do Ceará levou as velas do Mucuripe para velejar o Brasil inteiro. Seu parceiro na música mostrou aos jovens seu descontentamento com a própria geração. O poeta que nasceu no Ceará era na verdade agricultor. O poeta que levou essa paixão no nome não era cearense. O grupo que se tornou mais conhecido exibiu com orgulho seus “Quatro Ases e um Coringa.” Outro compositor daquela terra desfilou na avenida seu bloco do prazer. E o letrista mais proclamado nas canções do Rei do Baião foi a síntese desse povo rico e diverso.



Mucuripe
Fagner e Belchior se conheceram em Fortaleza, depois do primeiro sair de Orós e o segundo deixar Sobral. Juntos, ao lado de Rodger Rogério, Ednardo e Ricardo Bezerra formaram o “Pessoal do Ceará”, que se apresentava semanalmente em um programa de rádio. Levando na bagagem as lembranças de sua terra, seguiram roteiros distintos, Fagner indo para Brasília estudar arquitetura e Belchior indo para o Rio de Janeiro estudar medicina. Mas em 1971, no Festival de Música Popular do Centro Universitário de Brasília, Fagner inscreveu uma música que havia feito com o conterrâneo agora distante. “Mucuripe”, destino solitário das jangadas em Fortaleza, tirou o primeiro lugar e atentou os olhares brasileiros para a permanente poesia das águas da canção cearense. Um ano depois, a música foi interpretada por Elis Regina. Com esse êxito, Raimundo Fagner mudou-se para o Rio de Janeiro e Belchior para São Paulo. Além disso, Fagner fez seu próprio registro, na série “Disco de Bolso”, lançada pelo jornal “Pasquim”, com Caetano Veloso cantando no outro lado do compacto “A Volta da Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Refletia no canto arraigado de Fagner, a permanente poesia das águas. Da flor fez-se o agasalho. Da vela que ilumina o mar, a esperança de um rapaz novo encantando.




Como nossos pais


Outro sucesso de um cearense na voz de Elis Regina foi a cultuada “Como nossos pais”, hino composto por Belchior que lamentava as não conquistas de sua geração. Traçando um paralelo interessante sobre a história da humanidade, o compositor sentenciava que estavam todos fadados a cometerem os mesmos erros do passado. Usando imagens fortes e carregadas de ironia, a música se tornou uma das mais conhecidas na voz de sua intérprete definitiva, que a gravou em 1976. Naquele ano, Belchior ainda lançou “Apenas um rapaz latino americano” e “A Palo Seco”. E a onda hippie passaria em seus versos se transformando justamente naquilo que mais repudiou.

Bloco do Prazer



O compositor Fausto Nilo conheceu os integrantes do “Pessoal do Ceará” ainda na década de 70, e desde então passou a ser gravado por cantores como Fagner e Belchior, e mais tarde, Chico Buarque, Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Geraldo Azevedo, e outros. No ano de 1979, o “Trio Elétrico Dodô e Osmar”, banda criada pelos inventores do Trio Elétrico na Bahia, lançou no carnaval a música “Bloco do Prazer”, parceria de Nilo com o novo baiano Moraes Moreira. O frevo, em ritmo acelerado, é uma conclamação desenfreada à alegria e à festa. Gravada por Nara Leão em 1981, tornou-se sucesso nacional na voz de Gal Costa, um ano depois. Era apenas o início do desfile daquele cearense de Quixeramobim.

Asa Branca


Humberto Teixeira foi parceiro de Luiz Gonzaga em verdadeiros clássicos da canção brasileira, além de ter fundado com ele o popular baião. Nascido em Iguatu, no interior do Ceará, Humberto recebeu de Luiz Gonzaga a missão de finalizar uma música que versava sobre uma certa lenda nordestina. A lenda era sobre “Asa Branca”, uma conhecida pomba brava que deixa para trás o sertão quando a seca se acomete dele. O compositor não só finalizou a música como escreveu versos de profunda sensibilidade, entre eles “quando o verde dos teus óios se espaiá na prantação.” A toada do homem que imita o vôo do pássaro tornou-se emblemática na união entre o cearense Humberto Teixeira e o pernambucano Luiz Gonzaga.



Kalu

A musa de verdes olhos de Humberto Teixeira, realmente existiu, como ele confessou anos mais tarde em entrevista: "Na verdade, Kalu existiu. Só que com outro nome, naturalmente". O baião de sua autoria foi um pedido feito diretamente por Dalva de Oliveira, que desejava incluir uma música nordestina na excursão que faria à Europa com a orquestra de Roberto Inglez. Gravada por ela em 1952, foi um dos grandes sucessos daquele ano, e mais uma dentre as muitas músicas famosas do cearense Humberto Teixeira, regravada por nomes como Chico Buarque e Eliana Pittman.

Cabelos brancos



Os conflitos amorosos entre Dalva de Oliveira e Herivelto Martins deram início a uma briga pública e músicas que se tornaram eternas no cancioneiro brasileiro. Entre elas, “Cabelos brancos”, de 1949, gravada pelo conjunto cearense “Quatro Ases e um Coringa”. O grupo formado pelos irmãos Evenor, José e Permínio Pontes de Medeiros, e ainda André Batista Vieira e Pijuca fez sucesso no final da década de 40 ao lançar o rancoroso samba de Herivelto. Outros sucessos do quinteto foram “Baião de Dois”, de Luiz Gonzaga e do conterrâneo Humberto Teixeira, “Baião”, também da dupla, “Trem de Ferro”, de Lauro Maia e “Onde estão os tamborins” de Pedro Caetano. Em 1957, as cartas do baralho cearense decidiram cada uma trilhar o seu próprio caminho.


A triste partida




O cearense Antonio Gonçalves da Silva, nasceu em Assaré, e ficou conhecido como Patativa de sua cidade. Seguiu a profissão do pai e tornou-se agricultor, mas ficou conhecido como poeta. Com pouca formação escolar, aprendeu mexendo na terra a irrigar as palavras que sentem o coração das pessoas. Principalmente as pessoas do seu nordeste, da sua aldeia inabitada que ele levou ao mundo. No ano em que se iniciava a ditadura no Brasil, o brilho de um monarca deu luz à arte de Patativa. Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, o viu recitar os versos de “A triste partida”, e decidiu que lhe cabiam as harmonias de uma música. Em 1965, como num repente, a caminhada triste e árdua do nordestino em busca dum melhor destino ganhou os ares de todo o país. A seca poesia clara de Patativa impregnava todo o Brasil. Dali em diante, seus livros de poesia poderiam ser lidos ou escutados, ou ainda admirados, por aqueles que o vissem trabalhando ao vento.



Luar do Sertão

Catulo da Paixão Cearense nasceu na capital do Maranhão, e aos dez anos foi para o interior do Ceará. Interior que amaria muito mais do que qualquer capital. Catulo era apaixonado pelas coisas singelas, simples e ingênuas e delas fez a obra-prima de suas canções. Eternizada na memória afetiva do povo brasileiro, “Luar do Sertão” foi composta por ele em 1914, e gerou divergências com relação à autoria da música. Enquanto Catulo afirmava que a havia composto sozinho, inspirado por uma música folclórica, outros como Heitor Villa-Lobos e Almirante diziam que a melodia era de João Pernambuco, violonista semi-analfabeto. O que não se discute é a lembrança imediata de cada brasileiro quando se começa a tocar o refrão que remete ao balanço de uma rede.

Raphael Vidigal Aroeira

Lido na Rádio Itatiaia dia 17/10/2010.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010




Em meio à lona de um circo aos pedaços, o cantor entra, começa a cantar e é sumariamente vaiado. Recebido com apupos e desaforos, uma flor que cai sobre seus pés lhe serve como consolo. Quando ele então percebe que quem atirou a flor foi sua amada, os dois logo se casam e ele promete trazer-lhe, como prova de seu amor, o coração de sua mãe. No entanto quando ele volta, já com o coração na mão, sangrando e com a perna partida, sua amada havia fugido com outro e deixara consigo apenas uma pequenina boneca de carne: sua filha, que passa a ser a única razão da sua vida e o único motivo que lhe resta para cantar, o que se desfaz quando Deus a leva para a eternidade. Ele então se entrega à bebida e os outros que passam em frente ao bar, ao vê-lo chamam-lhe: “Ébrio, Ébrio.” Essas cenas de tragédias repetidas nunca aconteceram na vida de Vicente Celestino, mas ele as adorava, e por muitas vezes as viveu com o coração na mão, dentro das telas do cinema ou em cima dos palcos de teatro, chopes e rádios. Vicente Celestino, aquela voz de tenor atravessando o corpo sofrido daquele pequeno descendente de italianos e a alma passional dos brasileiros que o adoravam: “A Voz Orgulho do Brasil!”



“Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer
Aquela ingrata que eu amava e que me abandonou
Apedrejado pelas ruas vivo a sofrer
Não tenho lar e nem parentes, tudo terminou”

Ao contrário do que propagava aos borbotões com seu canto de trato lírico e suas letras que falavam de desamores, Vicente Celestino sempre gozou de enorme sucesso junto ao público e viveu casado com a também cantora, atriz e cineasta Gilda de Abreu por 35 anos. Desde que começara a cantar na tenra idade de oito anos e o tenor italiano Enrico Caruso quis levá-lo para a Itália que o público já ficava embevecido, encantado, dedicando os píncaros da glória a Vicente Celestino, que derramava com abundância sua voz grave e extremada e era aplaudido de pé por vários minutos seguidos. Aliando sua voz possante a uma interpretação dramática e arrebatadora, Vicente Celestino se tornou sem dúvida um dos maiores nomes da música popular brasileira, tendo cantado durante 65 anos de sua vida, sempre recebido com aplausos e homenagens. Em sua voz, muitas frases tornaram-se célebres, como por exemplo a que encerrava de maneira certeira o filme O Ébrio, onde ele arrematava: “Eu disse que perdoava, mas não disse que me reconciliava.”



“Ontem, ao luar
Nós dois em plena solidão
Tu me perguntaste o que era a dor
De uma paixão
Nada respondi
Calmo assim fiquei
Mas, fitando o azul do azul do céu
A lua azul eu te mostrei”

Já aos 74 anos, Vicente Celestino viveria ainda seu último momento de glória, coroando uma carreira onde o carinho e o reconhecimento do público estiveram sempre presentes. Em 1968, Caetano Veloso gravaria uma nova versão de sua música “Coração Materno”, simbolizando a antropofagia do Movimento Tropicalista que revolucionava as concepções pré-estabelecidas da música brasileira. A repercussão seria estrondosa, como tudo que sempre cercou a carreira de Celestino, e ele seria convidado para uma homenagem televisiva feita pelos integrantes da Tropicália, no dia 23 de agosto de 1968. No entanto, Celestino se despediria antes, para pela primeira vez receber os aplausos do público sem que fosse preciso cantar. Arte que ele desenvolveu tão bem por mais de quatro décadas.



“Disse um campônio à sua amada: "Minha idolatrada, diga o que quer
Por ti vou matar, vou roubar, embora tristezas me causes mulher
Provar quero eu que te quero, venero teus olhos, teu corpo, e teu ser
Mas diga, tua ordem espero, por ti não importa matar ou morrer"

Raphael Vidigal Aroeira

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