
Sentado no meio de sua sala, com um copo de uísque na mão, cabelos longos, lisos e grisalhos, lá estava ele, rodeado por amigos que adoravam rir de suas piadas, cantar seus poemas, ouvir suas histórias de amor e tocar as músicas que eram feitas com suas letras. Amigos que sabiam que sem ele aquela comunhão não seria possível. Vinicius de Moraes chamava a todos por diminutivos, como prova de seu imenso carinho. O poetinha, como ficou conhecido por conta dessa carinhosa mania, era um reconhecido galanteador, um poeta indiscutível, um letrista que fazia do simples a obra de sua arte, um homem apaixonado que exaltou o amor a vida inteira. Exaltou as mulheres e as belezas brasileiras. Quem poderia dizer que aquele diplomata demitido pelo governo militar se tornaria um dos maiores poetas do nosso país? Quem poderia dizer que suas poesias se encaixariam com perfeição em melodias lapidadas por Tom Jobim, Chico Buarque, Carlos Lyra, Baden Powell, Francis Hime, Edu Lobo e principalmente Toquinho, o parceiro com quem mais compôs músicas? Quem seria capaz de dizer que aquele que mais propagou o amor na música e na literatura brasileira casaria-se nove vezes em circunstâncias e cerimônias cada vez mais inusitadas? Vinicius de Moraes era mesmo um homem surpreendente, que encontrou na bossa nova, na garota de Ipanema e na praia de Itapoã as paisagens perfeitas para sua poesia. 
“Passar uma tarde em Itapoã
Ao sol que arde em Itapoã
Ouvindo o mar de Itapoã
Falar de amor em Itapoã”
Vinicius de Moraes chamava um de seus melhores amigos pelo apelido de “cachorro engarrafado”, era ao uísque que ele se referia. Vinicius de Moraes chamava a cidade de São Paulo de “túmulo do samba”. E Vinicius dizia que “mesmo o amor que não compensa” era “melhor que a solidão”. Porque Vinicius de Moraes era contra a solidão, e a sua casa sempre aberta era uma prova disso. Seu coração sempre disposto era outra prova disso. Sua poesia sempre inspirada e apaixonada é a maior e mais duradoura prova de todas. Rodeado por muitos amigos e muitos amores, Vinicius mantinha aquela expressão de menino procurando algo, sempre atrás de alguma coisa. Talvez tenha achado, talvez a tenha perdido, mas ele estava sempre procurando. O amor que residia na felicidade, ou a felicidade que residia no amor. Ninguém jamais professou o amor com tamanha ternura e delicadeza como Vinicius de Moraes.
“Se você quer ser minha namorada
Ai que linda namorada
Você poderia ser”
“Formosa, não faz assim
Carinho não é ruim
Mulher que nega, não sabe não
Tem uma coisa de menos no seu coração”
Chega de saudade, meu poeta Vinicius de Moraes, vamos celebrar juntos esses 30 anos em que o amor teve menos uísque mas não menos poesia. “É melhor ser alegre, que ser triste”. Que bom seria “se todos fossem iguais a você” Vinicius. Mas você é único, “posto que é chama, que seja eterno enquanto dure” e dure para sempre, como sua música, sua poesia, seus amores. Vinicius de Moraes, poetinha do amor imenso.
“Chega de saudade
A realidade é que
Sem ela não há paz,não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai”
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 11/07/2010.

A voz caudalosa de Maysa, aqueles “oceanos não pacíficos” em seus olhos. Foram 40 anos de intensidade, navegando por entre notas musicais e doses nunca calculadas de whisky e cigarros. A cantora das fossas homéricas e das dores de amores insuportáveis usou a melancolia para dizer ao mundo que estava viva. Embora tenha tentado o suicídio, a mulher forte de sentimentos frágeis explicava que foi este mundo, e não ela, que caiu. Maysa manteve-se sempre de pé. Enfrentou o marido que não a queria como cantora e a imprensa de boataria que insistia em julgá-la. Permitiu que todo tipo de sentimento a invadisse, e dentre eles, o que mais a perseguiu foi a tristeza. 
“Bom dia tristeza
Que tarde tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando
Até meio triste
De estar tanto tempo
Longe de você”
Possessiva, passional, generosa, Maysa cantava como se todas as canções de amor fossem dela, todas as dores do mundo fossem suas. As mesmas dores que dividia com o público em um misto de entrega e procura. Sempre acompanhada por aquele sorriso de lado, mordendo os lábios como que para agarrar toda a poesia, toda a música que estivesse ao seu alcance. Música que estava mergulhada nela mesma. Há no canto de Maysa uma urgência, uma necessidade. Maysa precisa cantar. E nós precisamos ouvi-la. Não se recusa um convite para ouvir Maysa.
“Todos acham que eu falo demais
E que eu ando bebendo demais
Que essa vida agitada
Não serve pra nada
Andar por aí
Bar em bar, bar em bar”
Tudo em Maysa, o talento, a beleza, a angústia, é demais. Sua voz ressoava densa através de seus olhos caudalosos e do oceano não pacífico que foi sua vida. Os olhos fixos na platéia e o nariz em pé eram apenas duas das muitas marcas de uma cantora cheia de conflitos que não conseguia ter paz. Uma compositora que escreveu sua história através dos graves e agudos de rubi que enfeitavam seu mar vermelho. Maysa é Maysa é Maysa...esta chama que não vai passar, mar vermelho no oceano azul da música brasileira.
“Grande amor que não posso e não quero esconder
Vou vivendo esta vida, curtindo essa dor
Eu só quero que um dia tu possas saber
O que é o amor”
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 06/06/2010.