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segunda-feira, 27 de setembro de 2010



Por trás da expressão carrancuda, do semblante de poucos amigos e da barba que escondia-lhe a chance de um sorriso mais largo, havia um coração pronto a explodir do menino que desceu o São Carlos para colocar o dedo na ferida dos problemas sociais e afetivos de mulheres e homens. Filho do Rei do Baião, da dançarina Odaléia e da música brasileira que acolheu com tamanha propriedade, a cara de Gonzaguinha era a de um Brasil que não se entrega e não deixa de apontar as mazelas que atingem as suas pessoas. Com a camisa aberta e o peito à mostra ele escreveu através de suas músicas um retrato sensível, por vezes raivoso, outras vezes irônico, de sentimentos universais e em decadência. Era um grito de alerta, e ao mesmo tempo, de esperança.



Filho de vários pais e de várias mães, Gonzaguinha teve história parecida com a de muitos brasileiros. Nasceu no ventre da cantora e dançarina da noite Odaléia e foi registrado pelo expoente maior da música nordestina levando seu nome. Com a morte da mãe quando ele tinha dois anos, vítima de uma tuberculose, Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior foi entregue aos carinhos de dona Dina e seu Xavier, para que o pai pudesse cumprir sua vida de viajante. Luizinho, como passou a ser chamado no morro de São Carlos, no Rio de Janeiro, logo aprendeu a tocar violão com seu padrinho, a sacar as malícias das ruas, e a ter vontade de conhecer outras bandas. Essa epopéia comum a tantos brasileiros, Gonzaguinha cantou “Com a perna no mundo”, de 1979, em que deixava um caloroso recado à madrinha querida: “Diz lá pra Dina que eu volto, que seu guri não fugiu, só quis saber como é, qual é, perna no mundo, sumiu...”

Espere por mim, morena

Moleque arisco e interessado em conhecer o mundo, Gonzaguinha decidiu aos 16 anos que queria cursar economia. Como os padrinhos Dina e Xavier, conhecido como Baiano do Violão, não tinham condições de pagar seus estudos, o menino resolveu por conta própria que iria morar com o pai. Depois de um começo de relação atribulada, com Gonzaguinha desentendendo-se constantemente com a madrasta e Luiz Gonzaga por conta de posições ideológicas, os ânimos se acalmaram, e a convivência entre os dois foi aos poucos melhorando. Gonzaguinha foi matriculado em um colégio interno e conseguiu concluir o curso que tanto queria. Mas a herança que pulsava em suas veias era a da música. Em 1967, seu pai gravou pela primeira vez uma composição sua: “From United States of Piauí”, canção bem humorada e crítica acerca dos americanismos na língua portuguesa. Mas somente em 1976, ele assumiria de vez as influências e a importância do pai em sua trajetória. No disco intitulado “Começaria Tudo Outra Vez”, gravou “Asa Branca”, um dos maiores sucessos de Luiz Gonzaga, e a toada “Espere por mim, morena”, grande êxito popular que trazia à tona o lado romântico e saudoso de um Gonzaguinha doce e leve, que falava de rede, cobertor e sol.



Grito de Alerta

No ambiente universitário, Gonzaguinha passou a ter contato com Ivan Lins, Aldir Blanc, César Costa Filho e outros, com quem formou o Movimento Artístico Universitário, conhecido como MAU. O grupo se reunia com freqüência na casa do psiquiatra Aluízio Porto Carreiro para longas conversas e rodas de violão. Passaram então a participar de festivais, e no ano em que foi vencedor com a canção “O Trem (Você se lembra daquela nêga maluca que desfilou nua pelas ruas de Madureira?)”, Gonzaguinha recebeu uma das maiores vaias de sua carreira. Apenas em 1973, ele conheceu o sucesso. Ao entoar “Comportamento Geral” no programa de Flávio Cavalcanti, Gonzaguinha chocou os jurados, esgotou o disco nas prateleiras e foi censurado pela ditadura. Além do espírito combativo, as reuniões na casa de Aluízio, renderam-lhe seu primeiro casamento, com Ângela Porto, mãe de seus dois primeiros filhos. O discurso do embate político cedia espaço em 1980 para um envolvente Gonzaguinha, que acostumado a ouvir na infância Jamelão, Lupicínio Rodrigues e músicas portuguesas, entregava para Maria Bethânia consagrar um samba-canção de sua autoria, em que discutia as difíceis questões do coração. Deixando de lado a razão, “Grito de Alerta” era uma tentativa sincera de se desapegar de questões menores e amar de portas abertas.



Guerreiro Menino


Gonzaguinha sempre foi considerado um artista de temperamento difícil, não gostava de dar autógrafos e raramente compunha com outros parceiros. Tido por muitos como mal humorado e arrogante, era na verdade um sujeito provocador, despojado, como ele próprio definia: “um grande gozador”, um moleque levado e teimoso que gostava de descumprir ordens. No entanto, o comportamento arredio e a desconfiança que lhe marcavam eram atribuídas por muitos aos conflitos que teve com Luiz Gonzaga. As diferenças entre os dois acabariam se tornando lá na frente o elo perfeito para formar uma parceria entre o sambista do morro carioca e o nordestino que inventou o baião, o destino de ambos cruzando o país, Gonzagão e Gonzaguinha. Já bem à vontade para tratar de temas mais sentimentais, Gonzaguinha teve gravada na voz de outro nordestino uma de suas músicas que continham maior ternura. Em 1983, seu compadre Fagner recebeu de Mariozinho Rocha o aviso de que Gonzaguinha havia lhe mandado uma música. O detalhe é que o empresário considerava que ela tinha sido feita “nas coxas” e não valia a pena gravá-la. Fagner insistiu, chorou de emoção ao ouvi-la e a transformou no carro-chefe do seu LP daquele ano. “Um homem também chora” delineava com maciez sensações singelas e muito humanas, habituadas a se esconderem atrás de hipocrisias. Gonzaguinha falava sem deixar passar nenhuma farpa da criança que constrói e existe em cada homem, da faceta mais frágil e carinhosa dos guerreiros meninos. E ele era um deles.



Sangrando, Explode Coração E Vamos à luta

No início da década de 80, Gonzaguinha passou a morar em Belo Horizonte com sua segunda esposa, Lelete. Desse casamento nasceu a sua caçulinha, Mariana, irmã de Daniel, Fernanda e Amora, filha do relacionamento do cantor com a Frenética Sandra Pêra. Nessa época, ele vivia sua melhor fase e já desfrutava dos sucessos de “Ponto de Interrogação”, “Grito de Alerta” e “Sangrando”. A balada imortalizada por Simone revelava um desenho auto-biográfico e pungente do compositor que não se dizia cantor, mas intérprete de suas emoções. Na letra de “Sangrando”, o intérprete se rendia por inteiro. Começava soltando a voz com um delicado pedido, para depois consentir que a música se apoderasse dele e exprimisse a vida em sua plenitude.

Contestador por natureza, em 1975 Gonzaguinha havia dispensado seus empresários para fundar depois seu próprio selo, Moleque, que também seria o nome do seu álbum de 1977. Nesse ano, “Explode Coração” tornou-se um dos maiores marcos de toda a carreira de Maria Bethânia. Intitulada inicialmente “Não dá mais pra segurar”, a música é um desabafo lento, progressivo, um exercício de confissão e entrega em que o compositor se despe de seus medos e aceita todos os desejos. Em “Explode Coração”, Gonzaguinha se descortina para que a vida entre sem pedir licença.



Durante a sua trajetória, Gonzaguinha conviveu com a pobreza na favela, problemas de saúde como as duas tuberculoses que teve, e a falta de liberdade imposta pela ditadura. Apesar disso, deu um jeito de driblar as armadilhas para conquistar o que achava que tinha direito. “E vamos à luta” é talvez o samba mais animado, emblemático e contagiante de sua obra. A música é um recado otimista de persistência e coragem direcionado aos brasileiros que batalham seu lugar ao sol diariamente, com espaço para uma fezinha especial na juventude. Através dos versos esfuziantes da canção, Gonzaguinha cultiva as delícias da união e do sonho. Gravada por ele em 1980, a música foi apresentada depois em duetos descontraídos com Alcione e Roberto Ribeiro.

Começaria tudo outra vez

Ao som de bolero, samba, baião ou toada. Assim Gonzaguinha escreveu seu nome na canção brasileira. Um nome que já tinha peso antes mesmo dele nascer, e que foi aos poucos penetrando nos ouvidos das pessoas com aquele diminutivo. O menino esguio que falava de dramas, amores e problemas sociais, cresceu e continuou menino. Continuou falando, cantando, observando aquilo que lhe tocava com o cuidado de quem enxerga uma fruta madura no pé da árvore. Gonzaguinha no palco era solto, espontâneo, como se estivesse em casa, mas quando escrevia era incisivo, agudo, enfático, dando a medida que lhe cabia da força dos relacionamentos humanos em sua vida. Não imaginava ele que em 1976, só estava no começo, mas ainda assim decidia: “Começaria tudo outra vez, se preciso fosse, meu amor...”

"Só quero ver as pessoas assoviando as minhas músicas" Gonzaguinha



Raphael Vidigal Aroeira

Lido na Rádio Itatiaia dia 26/09/2010.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010


Na primeira quarta-feira do mês de agosto desse ano, a cantora Leny Eversong, dona de uma das mais potentes vozes que o Brasil já teve, teria completado 90 anos de idade.
Leny, que nasceu Hilda Campos Soares da Silva, começou a carreira aos 12 anos, cantando no programa “A Hora Infantil”, na Rádio Clube de Santos, cidade onde nasceu. Demonstrando desde o início seu enorme talento para interpretar foxes estrangeiros, Leny logo passou a ser chamada de Hildinha, a Princesa do Fox. Pouco tempo depois, ela deixaria para trás o nome em português, mas não abandonaria as canções estrangeiras, passando a se especializar também em outros ritmos, como jazz, bolero e blues. Ela, que não falava nada em inglês, anotava na mão a pronúncia das palavras e era proibida por seu empresário de dar entrevistas fora do Brasil, arriscando no máximo alguns “all right´s” e “ok´s”.



A partir da metade da década de 50, Leny passou a receber convites frequentes para se apresentar anualmente em Las Vegas e fazer shows pela Europa, já que a essa altura também cantava (e muito bem) em outras línguas, como italiano, espanhol e francês, e tudo isso sem saber falar o idioma.
Apesar da enorme fama da qual já desfrutava no exterior, Leny nunca obteve no Brasil o reconhecimento que lhe era devido, e gravou poucas vezes em português, numa dessas tendo feito registros históricos de músicas que seriam sucesso mais tarde na voz de Elis Regina, a exemplo de “Aleluia”, de Edu Lobo e Ruy Guerra, e “Arrastão”, a música que lançou Elis no Festival da Canção, também de Edu Lobo e Vinicius de Moraes.



No início da década de 70, quando seu marido desapareceu supostamente seqüestrado por traficantes que o confundiram com seu filho (mais tarde ele seria preso acusado de envolvimento com drogas), Leny não quis saber mais de música e se refugiou por um tempo na casa do amigo e cantor Agnaldo Rayol. Conhecida por sua figura gorda e loura e sua voz que alcançava tons extremos, Leny ficou deprimida, teve diabetes e raramente apareceu em alguns programas televisivos. Nunca mais gravou um disco. Aquela figura alegre, expansiva, que falava alto e comia muito já não existia mais.
No dia 29 de abril de 1984, pouco tempo depois de ter as duas pernas amputadas, Leny morreu aos 63 anos, e sua voz desapareceu definitivamente.
Entre seus maiores sucessos estão Jezebel, gravada por ela em 1956 e Summertime e St Louis Blues, sucessos em inglês gravados em 1957. Além disso, foi responsável por lançar o cantor Juca Chaves, ao gravar uma música sua quando ele tinha então 16 anos, e ajudou Cauby Peixoto no início da carreira.
Hoje em dia, ainda é possível encontrar seus discos sendo vendidos pela internet por preços que variam entre R$80 e R$150, e em 2007, o jornalista e produtor musical Rodrigo Faour, lançou uma coletânea de Leny Eversong através da série Grandes Vozes, editada pela Som Livre.
Leny Eversong tornou-se artigo de colecionador, raridade, mas sua voz poderosa, afinada e límpida é a prova maior do valor de uma cantora de inquestionável qualidade.



(Matéria publicada no jornal "Hoje em Dia")

Raphael Vidigal Aroeira

quinta-feira, 16 de setembro de 2010




Em meio à lona de um circo aos pedaços, o cantor entra, começa a cantar e é sumariamente vaiado. Recebido com apupos e desaforos, uma flor que cai sobre seus pés lhe serve como consolo. Quando ele então percebe que quem atirou a flor foi sua amada, os dois logo se casam e ele promete trazer-lhe, como prova de seu amor, o coração de sua mãe. No entanto quando ele volta, já com o coração na mão, sangrando e com a perna partida, sua amada havia fugido com outro e deixara consigo apenas uma pequenina boneca de carne: sua filha, que passa a ser a única razão da sua vida e o único motivo que lhe resta para cantar, o que se desfaz quando Deus a leva para a eternidade. Ele então se entrega à bebida e os outros que passam em frente ao bar, ao vê-lo chamam-lhe: “Ébrio, Ébrio.” Essas cenas de tragédias repetidas nunca aconteceram na vida de Vicente Celestino, mas ele as adorava, e por muitas vezes as viveu com o coração na mão, dentro das telas do cinema ou em cima dos palcos de teatro, chopes e rádios. Vicente Celestino, aquela voz de tenor atravessando o corpo sofrido daquele pequeno descendente de italianos e a alma passional dos brasileiros que o adoravam: “A Voz Orgulho do Brasil!”



“Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer
Aquela ingrata que eu amava e que me abandonou
Apedrejado pelas ruas vivo a sofrer
Não tenho lar e nem parentes, tudo terminou”

Ao contrário do que propagava aos borbotões com seu canto de trato lírico e suas letras que falavam de desamores, Vicente Celestino sempre gozou de enorme sucesso junto ao público e viveu casado com a também cantora, atriz e cineasta Gilda de Abreu por 35 anos. Desde que começara a cantar na tenra idade de oito anos e o tenor italiano Enrico Caruso quis levá-lo para a Itália que o público já ficava embevecido, encantado, dedicando os píncaros da glória a Vicente Celestino, que derramava com abundância sua voz grave e extremada e era aplaudido de pé por vários minutos seguidos. Aliando sua voz possante a uma interpretação dramática e arrebatadora, Vicente Celestino se tornou sem dúvida um dos maiores nomes da música popular brasileira, tendo cantado durante 65 anos de sua vida, sempre recebido com aplausos e homenagens. Em sua voz, muitas frases tornaram-se célebres, como por exemplo a que encerrava de maneira certeira o filme O Ébrio, onde ele arrematava: “Eu disse que perdoava, mas não disse que me reconciliava.”



“Ontem, ao luar
Nós dois em plena solidão
Tu me perguntaste o que era a dor
De uma paixão
Nada respondi
Calmo assim fiquei
Mas, fitando o azul do azul do céu
A lua azul eu te mostrei”

Já aos 74 anos, Vicente Celestino viveria ainda seu último momento de glória, coroando uma carreira onde o carinho e o reconhecimento do público estiveram sempre presentes. Em 1968, Caetano Veloso gravaria uma nova versão de sua música “Coração Materno”, simbolizando a antropofagia do Movimento Tropicalista que revolucionava as concepções pré-estabelecidas da música brasileira. A repercussão seria estrondosa, como tudo que sempre cercou a carreira de Celestino, e ele seria convidado para uma homenagem televisiva feita pelos integrantes da Tropicália, no dia 23 de agosto de 1968. No entanto, Celestino se despediria antes, para pela primeira vez receber os aplausos do público sem que fosse preciso cantar. Arte que ele desenvolveu tão bem por mais de quatro décadas.



“Disse um campônio à sua amada: "Minha idolatrada, diga o que quer
Por ti vou matar, vou roubar, embora tristezas me causes mulher
Provar quero eu que te quero, venero teus olhos, teu corpo, e teu ser
Mas diga, tua ordem espero, por ti não importa matar ou morrer"

Raphael Vidigal Aroeira

terça-feira, 31 de agosto de 2010



“Ao soar o carrilhão dando as doze badaladas, ao se encontrarem os ponteiros na metade do dia, também os ouvintes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, no programa Luís Vassalo, se encontram com Francisco Alves, o Rei da Voz!”
Com essas palavras, Lúcia Helena o anunciava e sua voz grave e pesada logo tomava conta de todas as casas do país. Àquela altura ele já havia sido nomeado por César de Alencar, mas antes de poder desfrutar de toda a sua realeza havia trabalhado como motorista de táxi, engraxate e operário de fábrica de chapéus. Quando lhe foi oferecido pela primeira vez um microfone a estréia se deu em um circo, cenário que jamais se repetiria depois que ele gravou duas músicas do sambista Sinhô. Dali para a frente sua vida seria repleta de glórias, dinheiro e muitos discos vendidos, ocupando sempre o lugar mais alto das paradas de sucesso, afinal de contas a coroa já era dele e o microfone há muito reverenciava-lhe. Francisco Alves foi o representante primeiro e mais importante de duas décadas que consagraram um estilo de cantar empostado e com dós de peito. Trajando ternos e smokings elegantes, carregando a voz e o violão, ele se tornou o grande fenômeno de massa da era de ouro do rádio brasileiro e foi peça fundamental na consolidação e no aprimoramento das técnicas elétricas das gravações de música no Brasil. Não houve brasão maior da música brasileira, mesmo que influenciada pelo bel-canto da ópera italiana, do que aquele que reinou absoluto nas décadas de 30 e 40, aclamado pelos radialistas e adorado por seu povo, o Rei da Voz, Francisco Alves.



“Onde o céu azul é mais azul
E uma cruz de estrelas mostra o sul
Aí, se encontra o meu país
O meu Brasil grande e tão feliz”

Levantando a voz e erguendo os pulmões para que eles alcançassem a ponta do microfone e pudessem transmitir ao público os sentimentos exacerbados da voz do rei de todas elas, Francisco Alves cantou de todo o tipo de música: marchinhas, boleros, tangos, sambas e rumbas e foi sempre idolatrado. Indo da Argentina até os morros cariocas, emprestou sua voz para jogar luz sobre sambistas como Cartola, Ismael Silva, Nilton Bastos e Noel Rosa, e usou seu dinheiro para que seu nome fosse incluído na autoria. Nesse percurso sempre em disparada e tons extremos formou uma emblemática dupla com o suave Mário Reis e compôs belas melodias para as letras do poeta Orestes Barbosa. Como em tudo que fazia, o glamour e a grandiosidade eram os estandartes principais de sua trajetória regada a ouro, bambas do samba e músicas bonitas. Francisco Alves era um rei por excelência, e o apogeu em sua história foi quase que uma constante. Ainda no auge, ele partiu para mais uma viagem no dia 27 de setembro de 1952, só que dessa vez o grande Chico Alves seria sinônimo de cinco letras que choram.



“A sorrir você me apareceu
E as flores que você me deu
Guardei no cofre da recordação”

Quando a notícia do trágico acidente que matara o Rei da Voz chegou houve comoção no país inteiro, as fãs se desesperaram e registrou-se até um suicídio. Mais uma vez arrastando uma multidão como sempre fazia, seu corpo seguiu em cortejo acompanhado por milhares de admiradores emocionados. A voz magistral se calava temporariamente, pois Chico Viola logo voltaria em sambas feitos em sua homenagem e nas rádios que continuariam tocando seu repertório mesmo após a sua partida. Alguns anos se passaram e cantores como Orlando Silva e Nelson Gonçalves viriam a dividir o lugar de destaque que por tanto tempo pertenceu somente a ele, nunca deixando de lembrar seu pioneirismo e a influência que Chico Alves ainda exercia sobre eles. Por mais tempo e cantores que tenham atravessado a história da música brasileira com igual ou superior qualidade nunca se esqueceu do legado e da importância do Rei da Voz. Enquanto esteve vivo, nenhum cantor foi tão soberano por tanto tempo como ele. Um rei escolhido por seu povo será sempre legítimo, e se a voz do povo é mesmo a voz de Deus, o Rei da Voz é aquele que merece ser sempre ouvido.
“Meus amigos e ouvintes aqui me despeço, desejando um bom domingo para todos e até o próximo se Deus quiser.”



“Na carícia de um beijo
Que ficou no desejo
Boa noite, meu grande amor!”

Raphael Vidigal Aroeira

Lido na Rádio Itatiaia dia 28/08/2010.

terça-feira, 13 de julho de 2010




Um terno alinhado, uma camisa de botão, para as ocasiões mais especiais uma gravata, cabelos penteados para trás, anel de brilhante no dedo, metralha na cintura e na garganta, no gogó, como ele dizia. Assim ele subia ao palco, disparava o vozeirão e era adorado por seu povo. Com sua porção sofisticada e sua porção considerada brega Nelson Gonçalves agradava tanto ao gosto popular como aos ouvidos mais exigentes. Porque Nelson cantava de tudo, tinha voz para cantar de tudo, e cantava como ninguém. Escolhia seu repertório através das canções que mais lhe comoviam e se encaixavam em sua voz. E era exatamente por causa dessa última condição que ele cantava de tudo. A voz de Nelson Gonçalves era maior até que as próprias canções que cantava. Maior do que o próprio mito em torno dele. Nunca ouve voz capaz de vibrar tanto quanto aquele grave. Quando cantava os versos de “Pensando em Ti” com a voz embargada por supostas lágrimas ou concedia a força necessária para a “Renúncia”, Nelson costumava dizer que ele mesmo se emocionava com suas interpretações. Era um homem vaidoso, que gostava de se elogiar, centrado em si, que deixou suas mulheres, sua mãe e seus filhos. Mas que deixou principalmente sua voz, para que pudéssemos ouvi-la e nos emocionar como ele. Municiado por seus “dós-de-peito” Nelson cantava sem nenhum esforço. Cantar, para Nelson Gonçalves, era a coisa mais fácil do mundo.



“Eu amanheço pensando em ti
Eu anoiteço pensando em ti
Eu não te esqueço
É dia e noite pensando em ti
Eu vejo a vida pela luz dos olhos teus
Me deixa ao menos
Por favor pensar em Deus”

Até hoje não se tem certeza do dia em que aquele menino batizado Antônio Gonçalves Sobral nasceu, em Santana do Livramento, no interior do Rio Grande do Sul. No entanto, sabe-se dizer com exatidão quando foi que Nelson Gonçalves nasceu para o mundo. Foi quando ele começou a cantar. Muito antes da cantora Sônia Carvalho rebatizá-lo, Nelson Gonçalves já era Nelson Gonçalves. Muito antes de acompanhar seu pai, que se fingia de cego e tocava violão para arrecadar uns trocados, ele já era Nelson Gonçalves. Muito antes de subir naquele caixote de papelão. Nelson Gonçalves nasceu Nelson Gonçalves. Nasceu com aquela voz que o consagraria e que seria também a senha para sua ruína. Depois de batalhar muito e alcançar sucesso estrondoso com clássicos como “A Volta do Boêmio”, “Meu vício é você”, ambas de Adelino Moreira, seu parceiro mais freqüente, “Maria Bethânia”, “Carlos Gardel”, “Normalista”, “Segredo”, “Marina”, dentre tantos outros, os confetes e serpentinas que lhe caíam na cabeça transformaram-se em pó branco, e em 1965 ele seria preso. Restava a Nelson agora, eleito diversas vezes Rei do Rádio, dar a volta por cima. Após vários romances e casamentos conturbados com Elvira Molla e a cantora do Trio de Ouro Lourdinha Bittencourt, Nelson se juntava agora à Maria Luiza. E seria ela que tentaria vender seus shows em circos e casas pequenas quando ninguém o queria, seria ela que agüentaria surras homéricas e não reclamaria. E foi para ela que Nelson Gonçalves, um ano depois de ser preso, compôs uma música em agradecimento e homenagem. Ela que esteve com ele durante os piores dias de sua vida. Muitas lágrimas rolaram no caminho dos dois.



“Eu chorei
Pela segunda vez na minha vida
Quando minha vida se complicou
Tínhamos então mais vinte anos
Mágoas, saudades, desenganos
Lembro-me bem do teu olhar esquisito
Quando te olhei surpreso e muito aflito
E uma lágrima dos olhos me rolou”

“Fracasso, fracasso, fracasso afinal
Por te querer tanto bem
E me fazer tanto mal”

O desejo de cantar herdado do pai veio acompanhado pela boemia que Nelson levou para toda a vida. Embora tenha se livrado da cocaína ele nunca largou o cigarro, a jogatina e a bebida. E esses eram alguns dos motivos que o levavam a cometer covardias contra suas mulheres, e embora tenha batido em todas elas, ninguém apanhou mais de Nelson Gonçalves do que ele mesmo. Como o político que nunca conseguiu ser, Nelson tentava agradar aos outros somente no palco, quando cantava suas mágoas, seus amores e suas tristezas. Mas cantava e principalmenta contava também suas conquistas. Nelson foi sempre chegado a boas histórias como brigas inesquecíveis com malandros da Lapa e lutas de boxe que se tornaram históricas. Era comum também mentir sobre o número de filhos, que foram tantos que ele provavelmente perdeu a conta. Se sua fala soava muitas vezes inapropriada, gaga, taquilárica, controversa, ele sabia exatamente o que queria dizer quando cantava, com a autoridade concedida por sua voz grave como foi sua vida, imensa como foram seus amores, destrutiva e emblemática como foi seu apelido, capaz de destruir corações e acariciar ouvidos, Nelson Gonçalves Metralha. A vida o conduziu, as brigas lhe feriram, mas a voz o eternizou.



“Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor”

Com o humor afiado que lhe era peculiar, sempre com tiradas irônicas e sorrisos sacanas, Nelson dizia que se considerava um “dinossauro”, e para ele não importava “ser o número um em Miami ou o segundo em Veneza”, pra ser feliz ele queria “o quinto lugar nas paradas de Madureira ou o terceiro na periferia de São Paulo.” Nelson Gonçalves nunca se desfez de sua origem simples, sofrida, e o comportamento que teve durante a vida esteve sempre associado à essa característica. Por isso mesmo, ele caiu nos braços do povo como nos braços de suas mulheres, com a diferença que abandonou todas elas, e dos braços do povo, nunca saiu.

“Não, não, não, não amor
Dos meus braços tu não sairás
Se tentares me abandonar
Nem sei de que serei capaz”

Nelson Gonçalves era um homem de temperamento difícil, um boêmio, um ingênuo, um tirador de sarro que teve vida errante e voz inalcançável. Começou imitando Orlando Silva e terminou recebendo prêmio concedido somente à Elvis Presley, por ter ficado 55 anos na mesma gravadora, a RCA-Victor. O personagem Nelson Gonçalves. A Voz de Nelson Gonçalves, aquele que não conheceu Frank Sinatra, mas que foi o cantor mais popular de sua época do país mais rico em música de que se tem notícia.



“Eu quero pra mim seu amor, só porque
Aceito seus erros, pecados e vícios
Hoje na minha vida, meu vício é você”

Raphael Vidigal Aroeira

Lido na Rádio Itatiaia dia 11/07/2010.

domingo, 6 de junho de 2010




A voz caudalosa de Maysa, aqueles “oceanos não pacíficos” em seus olhos. Foram 40 anos de intensidade, navegando por entre notas musicais e doses nunca calculadas de whisky e cigarros. A cantora das fossas homéricas e das dores de amores insuportáveis usou a melancolia para dizer ao mundo que estava viva. Embora tenha tentado o suicídio, a mulher forte de sentimentos frágeis explicava que foi este mundo, e não ela, que caiu. Maysa manteve-se sempre de pé. Enfrentou o marido que não a queria como cantora e a imprensa de boataria que insistia em julgá-la. Permitiu que todo tipo de sentimento a invadisse, e dentre eles, o que mais a perseguiu foi a tristeza.



“Bom dia tristeza
Que tarde tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando
Até meio triste
De estar tanto tempo
Longe de você”

Possessiva, passional, generosa, Maysa cantava como se todas as canções de amor fossem dela, todas as dores do mundo fossem suas. As mesmas dores que dividia com o público em um misto de entrega e procura. Sempre acompanhada por aquele sorriso de lado, mordendo os lábios como que para agarrar toda a poesia, toda a música que estivesse ao seu alcance. Música que estava mergulhada nela mesma. Há no canto de Maysa uma urgência, uma necessidade. Maysa precisa cantar. E nós precisamos ouvi-la. Não se recusa um convite para ouvir Maysa.

“Todos acham que eu falo demais
E que eu ando bebendo demais
Que essa vida agitada
Não serve pra nada
Andar por aí
Bar em bar, bar em bar”



Tudo em Maysa, o talento, a beleza, a angústia, é demais. Sua voz ressoava densa através de seus olhos caudalosos e do oceano não pacífico que foi sua vida. Os olhos fixos na platéia e o nariz em pé eram apenas duas das muitas marcas de uma cantora cheia de conflitos que não conseguia ter paz. Uma compositora que escreveu sua história através dos graves e agudos de rubi que enfeitavam seu mar vermelho. Maysa é Maysa é Maysa...esta chama que não vai passar, mar vermelho no oceano azul da música brasileira.

“Grande amor que não posso e não quero esconder
Vou vivendo esta vida, curtindo essa dor
Eu só quero que um dia tu possas saber
O que é o amor”

Raphael Vidigal Aroeira

Lido na Rádio Itatiaia dia 06/06/2010.

domingo, 21 de março de 2010




Elis Regina, a voz das Madalenas, Marias e Clarices.
A voz que brinca moleque o sonho de criança e ensina como nossos pais sobre as agruras do dia a dia.
A voz que dançou na bossa ao lado de Jair Rodrigues.
Durante seus 36 anos de vida, Elis Regina nos deu uma certeza.
A certeza de que no momento em que canta tudo é possível, desejado e permitido.

“Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito
Tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos como nossos pais”

Elis é essa força que vem de dentro e explode na superfície, nos olhos fechados, no sorriso largo, nas sobrancelhas em pé que lhe conferem aquele ar desafiador, provocante e destemido.
Nas mãos que movem-se para o alto, procurando no espaço vazio a verdade torturante daquele momento, inquietas, intensas.
Tudo parece vibrar com sua voz.
Tudo pulsa, lateja, transborda em Elis Regina.

“A tua mão no pescoço
As tuas costas macias
Por quanto tempo rondaram
As minhas noites vazias”

Elis Regina é essa vontade de cantar o mundo em todas as suas notas, acordes e versos.
E ela canta.
Com fé cega e faca amolada, compreende em seu canto todo o velho, o novo, o nada será como antes.
Compreende em sua voz todo o mundo.
Os bêbados, as equilibristas, as águas de março e as romarias.
Elis Regina é a vida no limite, a canção, a voz que ultrapassa limites.
Que alcança os tons mais distantes e os corações mais escondidos.
Sublinhando com tinta quente, que arde como pimentinha e varre como furacão, todos os contornos possíveis da melodia.
Ninguém é mais o que canta do que Elis Regina.

“Poema divino cheio de esplendor
Teu sorriso quente, inebria, entontece
És fascinação, amor”

Elis Regina canta, sempre canta, música e vida.

Raphael Vidigal Aroeira

Lido na Rádio Itatiaia dia 21/03/2010.

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