Bandeirinhas coloridas dançam uma quadrilha ao sabor do vento e da canjica.
A noiva veste branco, o padre sua bata preta e o noivo está amarelo de tanto medo!
Ao redor deles, os convidados completam a festa com roupas de todas as cores.
As mulheres com seus vestidos de chita e Maria Chiquinha no cabelo.
Os homens de camisa xadrez, calça remendada com panos coloridos e chapéu de palha.
Aquelas que ainda não encontraram um noivo fazem simpatias para Santo Antônio.
Aqueles que já encontraram uma noiva pedem a chave dos céus para São Pedro.
E aqueles que não querem uma coisa nem outra pulam a fogueira de São João! 
“Pula a fogueira Iaiá,
Pula a fogueira Ioiô
Cuidado para não se queimar
Olha que a fogueira já queimou o meu amor”
Olha os fogos de artifício para acordar São João.
Os balões no céu para oferecer aos 3 santos festeiros.
Todos nesse arraial dançam o “Anarriê!”
Com direito a quentão, cocada, pé de moleque e arroz doce.
E claro, não pode faltar a maçã do amor.
Não pode faltar também a sanfona, que escorrega na mão do sanfoneiro mais do que um pau de sebo.
Escorrega na mão do sanfoneiro no ritmo da cabrocha que roda o vestido, segura a saia e dança graciosa de pé no chão.
Enquanto seu par tira o chapéu, bate o pé e leva a cabrocha bonita no ritmo da sanfona, do cavaquinho, o triângulo, o pandeiro, a zabumba e o violão.
Olha a cobra! É mentira!
E lá vem o balão caindo!
E lá vem São João!
“Chegou a hora da fogueira
É noite de São João
O céu fica todo iluminado
Fica o céu todo estrelado
Pintadinho de balão”
Resta saber agora quem vai ficar sozinho e quem vai arranjar um par.
É dia dos namorados e Santo Antônio fica muito atarefado.
Por isso não custa nada pedir uma ajudinha aos outros santos!
“Implorei a São João
Desse ao menos um cartão
Que eu levava a Santo Antônio
São João ficou zangado
São João só dá cartão
Com direito a batizado”
E claro, muito cuidado para Pedro não levar a filha de João e deixar Antônio chorando!
“Com a filha de João
Antônio ia se Casar
Mas Pedro fugiu com a noiva
Na hora de ir pro altar”
É festa de Lamartine Babo, Braguinha, Haroldo Lobo, Assis Valente, Luiz Gonzaga e Marinês!
É festa do povo, da gente!
É o mês de junho e seu frio.
O calor da festa junina!
A criançada que solta bombinha rojão, explodindo em alegria!
Barraquinhas oferecem jogos: acerte a boca do palhaço, ganhe na pescaria!
Se proteja em volta da fogueira contra os maus espíritos.
Dance o forró, o xote, o baião, o arrasta-pé e o reizado!
Aproveite todas as delícias nordestinas!
“Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo
Olha praquele balão multicor
Como no céu vai sumindo
Foi numa noite, igual a esta
Que tu me deste o teu coração
O céu estava, assim em festa
Pois era noite de São João”
Quando o som da sanfona for aos poucos ficando mais baixo, as bandeirinhas forem se retirando e o fogo for lentamente recolhendo-se ao vento, ficará pregado nos ouvidos, barbantes e lenhas o cheiro do quentão, o gosto de canjica e as orações para os santos dançadas na forma de canção, de forró e de baião. Ficará pregado como melado no pau de sebo, como o frio que congela os dedos, o sabor da festa nordestina, a festa brasileira, nossa querida Festa Junina!
“Noite fria, tão fria de junho
Os balões para o céu, vão subindo
Entre as nuvens aos poucos, sumindo
Envoltos num tênue véu
Os balões devem ser, com certeza
As estrelas daqui deste mundo
Que as estrelas do espaço profundo
São os balões lá no céu”
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 13/06/2010.

Carlos Alberto Ferreira Braga, o João de Barro, o inesquecível Braguinha nasceu no dia 29 de março de 1907, no Rio de Janeiro e completaria 103 anos de vida no dia de amanhã. Dono de um dos mais vastos e ricos repertórios da música brasileira, Braguinha jamais aprendeu a tocar um instrumento musical, compondo suas músicas através de uma das formas mais antigas que existem, e que desde criança se aprende, o assovio. Como se fosse um passarinho, um João de barro a construir sua casinha, Braguinha se embrenhava por entre os caminhos do carnaval, do samba-canção e da música infantil dando a medida exata ao chão e às paredes melódicas que construía. Tendo estudado arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes, Braguinha logo se consagraria pela música, mas não abandonaria nunca a condição de arquiteto da melodia, sutilmente calculada em seus assovios que criavam personagens como a Chiquita Bacana, o Pirata da Perna de Pau, os heróis e vilões das histórias infantis e as traduções tão deliciosamente brasileiras que ele fazia para os desenhos da Disney.
“Eu sou o pirata da perna de pau
Do olho de vidro, da cara de mau”
Braguinha nada tinha de pirata. Era um autêntico marujo do samba, que navegava com tranqüilidade por aquelas águas que ele bem conhecia, que ajudou a criar quando formou ao lado de Almirante, Henrique Brito e Alvinho, o conjunto Flor do Tempo, e depois com o adendo de Noel Rosa, com quem compôs a belíssima Pastorinhas, o Bando de Tangarás. Ao contrário do que dizia na marchinha, Braguinha também não tinha cara de mau. Pelo contrário, carregava na face uma expressão sempre alegre, tranqüila e serena. Como se todo dia fosse mais um dia de carnaval e como se toda expressão de vida merecesse uma marchinha.
“Lourinha, lourinha
Dos olhos claros de cristal
Desta vez, em vez da moreninha
Serás a rainha do meu carnaval”
“Vem moreninha, vem tentação
Não andes assim tão sozinha
Que uma andorinha não faz verão”
Braguinha era um típico amante da vida. Amante das mulheres, das belezas naturais, das lourinhas, mulatas e chinesas. Era um amante do Brasil, e cultivava seu carinho pela terra como aquele passarinho que lhe deu o apelido cultiva sua casinha. Antecipando a bossa nova e o clima tropicalista que invadiria o país anos mais tarde, exaltava as belezas da praia de Copacabana e estufava o peito para dizer: Yes, nós temos bananas!
“Copacabana princesinha do mar
Pelas manhãs tu és a vida a cantar
E à tardinha o sol poente
Deixa sempre uma saudade na gente”
Braguinha era acima de tudo um compositor sensível, atento aos sentimentos e ás mudanças do ser humano, e compôs com o mestre Pixinguinha uma das mais belas e executadas músicas brasileiras de todos os tempos, gravada por nomes como Sílvio Caldas, Ângela Maria, Elizeth Cardoso, Elis Regina, Dalva de Oliveira, Maria Bethânia, Radamés Gnattali, Tom Jobim, Baden Powell, Jacó do Bandolim, Hermeto Pascoal e o pioneiro Orlando Silva, a eterna “Carinhoso”.
“Ah, se tu soubesses como eu sou tão carinhoso
E muito, muito que eu te quero
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim”
Compositor, cineasta, dublador, cantor, Braguinha trazia no apelido singelo e simples a expressão perfeita para sua alma de criança divertida e brincalhona.
“No balancê, balancê,
Quero dançar com você
Entra na roda, morena pra ver
O balancê, balancê”
“Vai, com jeito vai
Senão um dia
A casa cai”
Mesmo em canções que traziam versos um pouco mais reflexivos, nos quais explorava todo seu talento lírico, ao final Braguinha sempre optava pela alegria!
“Apronta a tua fantasia
Alegra teu olhar profundo
A vida dura só um dia, Luzia
E não se leva nada desse mundo”
No dia 24 de dezembro de 2006, véspera de Natal, Braguinha partiu aos 99 anos, para onde o céu é mais azul. E nos veio à memória “a saudade é dor pungente, morena, a saudade mata a gente, morena”. Mas a saudade que Braguinha deixou virá sempre acompanhada por seu canto singelo e festeiro.
“Canto para te ver mais contente
Pois a ventura dos outros
É a alegria da gente
Canto e sou feliz só assim
E agora peço que cantem
Um pouquinho para mim”
Cantemos então com Braguinha, o João de Barro, passarinho que voa alto na canção brasileira!
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 28/03/2010.