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terça-feira, 13 de setembro de 2011



Arnaldo Antunes sempre se divertiu em cena. O antídoto risonho proposto por Nietzsche para desarvorar a vida é levado a ferro e fogo por sua persona bem grata. No palco do Instituto de Arte Contemporânea e Jardim Botânico (popular Inhotim), no último dia 11 de setembro, o artista desfilou sua dança apocalíptica, sua poesia concreta e seu terno cheirando a rasgado, eucalipto saído dos quadrinhos de Batman, provável “Duas Caras”, pois bom intuitivo que é, prefere os vilões.

O desafio a que se lança com microfone às costas, óculos preto & branco, e gravata ajeitada realça a gravidade de uma música pop imbuída de pretensão e ousadia. Tanto quanto o hermetismo melódico e estrutural de suas composições mais distantes, a proximidade também discorre arquitetada em balançantes hastes de ouro.

Pois fazer música pop de qualidade é tão sublime quanto lançar distorções contra tons. No abandono de seu lar, Arnaldo convida, “A Casa é sua”, parceria com Ortinho, cantada ao ouvido do coração, em clima de multidão: “Não me falta cadeira, não me falta sofá, só falta você sentada na sala, só falta você estar...”

Antes, porém, é Adoniran Barbosa quem invoca as chamas do passado, em sua restrita contestação ao ritmo que dá nome ao disco de Arnaldo, “Já fui uma brasa”, proclama: “Eu gosto dos meninos deste tal de iê iê iê, porque com eles, canta a voz do povo, e eu que já fui uma brasa, se assoprar, eu posso acender de novo”. Sem consternação, acende o novo fogo da platéia.

“Iê Iê Iê”, a própria, é música autoral construída na companhia dos parceiros tribalistas Marisa Monte e Carlinhos Brown que brinca com o sonhado sucesso: “Visto meu casaco de couro bang bang, manchado de batom e de sangue, se você pedir eu subo no palanque, e mostro aquele passo de funk”. Em contraposição melódica, “Essa Mulher” é ácida subordinação masculina, que rebobina êxito do álbum “paradeiro” (em minúscula): “Ela quer viver sozinha sem a sua companhia, e você ainda quer essa mulher”.

Alçada a estampa de homens entregues, surgem as homenagens a Odair José, que em “Quando você decidir”, apela na voz embargada de Arnaldo Antunes: “Lembre que eu existo, meu amor”, e Lupicínio Rodrigues, urgido sob a ferocidade dos versos e da guitarra de Edgar Scandurra: “Agora você vai ouvir aquilo que merece!”.

Em ambiente mais adaptado ao verde que espalha a paisagem, “Vou festejar”, de Jorge Aragão, Dida e Noeci é embalada nos metais da voz de Arnaldo, que ora tremem, outrora reluzem calmos. Em nova idiossincrasia, realça a beleza instantânea de “Americana”, da lavra do sanfoneiro potiguar Dorvigal Dantas, reiterando o inegável talento para remodelamentos sensíveis em composições alheias.

A leveza e agilidade com que Arnaldo tece seus movimentos estranhos de corpo a sugerir coquetéis de graças é interlocução dos textos sonoros e de palavras, que em “O Que Você Quiser” se traveste de “fruto proibido, deus ou diabo”, “Invejoso”, parceria com Liminha, alimenta o pecado capital cotidiano em delícia que recheia melodia sinuosa, que transcorre do melancólico ao cômico, enquanto “Longe”, de Arnaldo, Betão Aguiar e Marcelo Jeneci, surge sob o manto de translúcida reflexão nostálgica: “Onde é que eu fui parar? Aonde é esse aqui? Não dá mais pra voltar, porque eu fiquei tão longe?”

Em derradeiro número da tarde, o mestre de cerimônia inconforme (inconformidade sem formas inabaláveis), Arnaldo Antunes, saúda os convidados com seu titânico “Pulso”, arregimentado com Toni Belotto e Marcelo Fromer, na época em que a banda ainda era do iê iê iê, deixando espatifar palavras e sons sobre o palco, belo vilão desejável que é.

Raphael Vidigal

Publicado no jornal "Hoje em Dia" em 13/09/2011.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009




Lupicínio Rodrigues nunca tocou nenhum instrumento musical, tocou simplesmente o mais musical de todos os instrumentos: o coração daqueles que choram pelo amor perdido.
Com os cotovelos apoiados no balcão derramou o whisky feito choro na canção e criou a dor-de-cotovelo, o samba-canção.
Cantou o remorso, a vingança, a loucura, o ódio e o amor.
O amor universal.
O amor comum a todos.
Aquele que nos faz sofrer e a gente continua amando.
Cantou a dor.
Uma dor agressiva que nos castiga sem piedade e com rancor.
A dor que bate pra se defender, pra tentar amenizar o sofrimento de apanhar do próprio amor.
“Naquele desespero
De perder o meu amor
Ofereci até um coração
Que não é meu”

Lupicínio Rodrigues canta os amores tristes.
Os amores que ninguém pode negar que existem.
Os amores de vida e de morte.
O amor que trai e o amor traído.
O amor da amizade.
Os bons sentimentos e a maldade.

“Agora você vai ouvir aquilo que merece
As coisas ficam muito boas quando a gente esquece”
Impossível esquecer Lupicínio.
Sua voz pequena era a plataforma para seu coração imenso, disposto a amar e a sofrer.
E ele sofreu todas as dores do amor.
Do lamento rancoroso de “Judiaria” ao amor além da vida de “Carlucia”.
Com voz mansa e coração feroz seguiu a profecia de Noel Rosa, que disse: “Esse garoto é bom! Esse garoto vai longe!”
E foi. Mostrou “que ainda existe o verdadeiro amor”, se sujeitou a ser sacrificado, a salvar o mundo com sua dor e voltar para casa brigando com seu coração.

“Para mim
Só existe um caminho a seguir
É fugir de ti, é fugir
Apesar de ser minha vontade te seguir
Meu dever amor, é fugir”
A dor que procurava Lupicínio era como colírio: que incomoda e traz alívio.
Era a dor que ele cantava para nos mostrar a imensidão do seu amor. Traído, machucado e sonhador.
Lupicínio sempre cantou a dor. A dor que sabemos de onde vem e não passa.
Sempre cantou o amor. O amor que não sabemos de onde vem, e não passa.
“Mas como é que a gente voa
Quando começa a pensar”
Pensar em Lupicínio Rodrigues, feliz poeta do amor triste.

Raphael Vidigal Aroeira

Lido na Rádio Itatiaia dia 8/11/2009.

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