
O homem de cachimbo vem com lagarto no ombro, cobra enrolada nos pés, lagartixa na palma da mão. Arrisca-se quem resumi-lo cientista. Ele também o é, especialista em samba sem diplomacia. Se puder imaginá-lo, pense na pintura de Magritte, nas experimentações de um Einstein, no avanço das tropas de Napoleão. E terás o retrato abstrato do erudito mais popular brasileiro! Paulo Vanzolini.
Ronda
“Para mim acorde é que nem latir para cavalo”. O que não o impede de falar a língua dos músicos, através da poesia e da inseparável boemia. Em suas experiências noturnas farreando ou mesmo vigilante como cabo do exército, Paulo Vanzolini retirou o essencial para sua pequena, porém qualitativa, produção de sambas. Um dos mais emblemáticos nasceu em 1951, e só foi chegar ao disco dois anos depois, por acaso do destino e ingenuidade de Inezita Barroso, que não sabia que disco possuía lado B. Para ela então, amiga do casal Vanzolini, foi destinada a felicidade de lançar o compositor-cientista, sem a mínima repercussão, que só veio quando a canção já era cantada há 14 anos por boêmios inveterados, na gravação em 1977 de Márcia: “de noite eu rondo a cidade, a te procurar, sem encontrar...”. Mais um caso passional onde o amor se envolveu com as páginas de sangue do jornal na manhã seguinte.
Volta por cima
“Samba é que nem osso, uma vez que tá na rua, vai na boca de qualquer cachorro”, riu-se Vanzolini, quando perguntado por Zé Henrique o que fazer com a música que este havia ganhado, e que por briga com a gravadora, não poderia gravá-la. Foi então que “Volta por cima” encontrou Noite Ilustrada, e por três semanas consecutivas angariou o primeiro lugar nas paradas de sucesso do ano de 1962. Notícia que seu autor só veio a ter quando voltou de sua viagem à Amazônia, entretido com os afazeres da zoologia, e ouviu no rádio sua exaltação para aquilo que ficaria conhecido no dicionário Aurélio da Língua Portuguesa como “ato de superar uma situação difícil”, cantada com emoção ímpar por Elza Soares: “Chorei, não procurei esconder, todos viram, fingiram, pena de mim não precisava, ali onde eu chorei qualquer um chorava, dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava.” Para ele, a parte mais importante da letra não está no título, mas no verso ‘reconhece a queda’.
Samba erudito
Só mesmo o irônico Paulo Vanzolini, com toda sua robustez ranzinza, para misturar em uma canção popular Pôncio Pilatos, Santos Dummont, Olavo Bilac e São Pedro, resultado de sua formação intelectualizada, como ele mesmo afirma. O “Samba erudito” foi lançado em 1967 por Chico Buarque.
Chorava no meio da rua
Paulo Vanzolini descamba a maioria das gravações feitas com seu repertório. Delineia que Maria Bethânia é “muito mais uma declamadora do que uma cantora”, e que a suposta homenagem de Caetano Veloso ao introduzir partes de “Ronda” em “Sampa”, está mais para plágio. No entanto, o compositor-cientista rende-se ao charme do canto de Cristina Buarque, que desaforada, teve a audácia de modificar uma composição sua, fato que segundo ele próprio, o deixa bastante irritado. Só que dessa vez não foi o caso, Vanzolini acatou a sabedoria da irmã mais nova de Chico Buarque, segundo Cartola, “cantora pra compositor”, que entoou em 1967 os versos do samba assumido: “Se eu tivesse que chorar, chorava no meio da rua...” 
Capoeira do Arnaldo
Samba para Paulo Vanzolini sempre foi sinônimo de diversão, brincadeira, e não haveria razão de sê-lo não fosse pelos amigos, pela boemia, embora as horas de talhar os versos lhe fossem bastante desgastantes. Valia a pena pelo amor às palavras, jamais pela intenção de gravá-las em disco, ganhar dinheiro, fazer disso uma profissão. Para esse trato, cabia-lhe a zoologia, paixão que nascera com ele, e aflorou em passeio de bicicleta pelo Butantã. “Capoeira do Arnaldo” surgiu de uma provocação irritada de Arnaldo Horta, grande amigo, que não concebia o fato de Carybé, um gringo argentino apaixonado pelo Brasil, contratado pelo governo da Bahia para fazer uns desenhos populares na cidade, saber mais de candomblé do que os brasileiros. Foi isso que motivou Paulo Vanzolini a compor a capoeira, um rugido de mamífero que se transformou em pássaro a voar sem ninho. A história do nordestino que migra de sua terra em busca do destino. Puro folclore realista.
Maria que ninguém queria
Na década de 50, com o aperto financeiro batendo à porta, Vanzolini, pesquisador do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, logo se enturmou com os bambas da TV Record. Foi ele o responsável por domar a fera doce Aracy de Almeida, e resolver a impossibilidade da cantora em decorar as letras, transformando-a em dona de botequim, e colocando uma máquina registradora à sua frente, com tudo o que ela precisava cantar, naturalmente. Nessa mesma década, ele produziu junto com Raul Duarte o primeiro Festival da Velha Guarda, que reergueu Pixinguinha, João da Baiana, Donga, e muitos outros. Já completamente entrosado no meio musical, em 1974 foi a sua vez de receber homenagem, através do amigo Marcus Pereira, dono da gravadora de mesmo nome, e dos cantores Paulo Marques e Carmen Costa, que sambaram, entre tantas, a irresistível “Maria que ninguém queria”, composição que esbanja o humor afiado e incorreto de Paulo, destilando as ironias vorazes sobre um caso conjugal cheio de convenções absurdas e incrivelmente aceitas com naturalidade: “Maria que ninguém queria, eu resolvi reformar...Orgulho eu não tenho, mas sou homem demais pra 50%!” 
Mente
“Para cantar nos meus discos é obrigatório ter duas qualidades: ser meu amigo e ter bom caráter”. É essa afirmativa que enchem as obras dedicadas à Paulo Vanzolini de músicos consagrados e ilustres desconhecidos do grande público, com a realeza de gozarem do prestígio da amizade do compositor. Luiz Carlos Paraná comandou com ele o famoso bar “Jogral”, um dos primeiros de São Paulo dedicado à música, e foi o responsável pelo abatimento gradual de Vanzolini após sua morte, em 1970. Adauto Santos tornou-se o responsável por levar às notas o canto que ele guardava na cabeça. Poucos outros tiveram tamanho privilégio, dentre eles, Eduardo Gudin, que em 1978 dividiu duas composições com o compositor-poeta, “Longe de casa”, e “Mente”, reiterada por Clara Nunes no mesmo ano, com a acentuação perfeita das contradições fetichistas: “Mente, ainda é uma saída, é uma hipótese de vida, mente, sai dizendo que me ama...Pois na mentira, meu amor, crer eu não creio, só pretendo que de tanto mentir, repetir que me ama, você mesma acabe crendo” 
Na boca da noite
O elo entre Paulo Vanzolini e a música chama-se poesia. O que não é difícil perceber, basta constatar a inaptidão do compositor com qualquer instrumento de cordas, sopro ou batuque, embora ele os adore. Nunca soube reparar “as frescuras” de João Gilberto, amigo que conheceu moço. Em sua juventude lançou “Lira”, livro de poesias. Depois “Tempos de Cabo”, com o mesmo sumo poético, recolhido dos tempos de exército. “Na boca da noite”, é exemplo bem acabado dessa característica de sua pessoalidade, embora o próprio advirta que ela não estava pronta quando o apressado Antônio Pecci, apelidado Toquinho, resolveu lançá-la. Senão teria tirado o sétimo lugar no II Festival Internacional da Canção promovido pela TV Globo, e não o oitavo, revigora sua picardia. Seja como for, as imagens do samba de 1967, são de beleza poética, e talvez, justamente, por estarem inacabadas sob o olhar do poeta. “Nuvem alta em mão de vento é o jeito da água voltar. Morena, se acaso um dia tempestade te apanhar, não foge da ventania, da chuva que rodopia, sou eu mesmo a te abraçar...Vi um rosto na janela, parei na beira da estrada, cheguei na boca da noite, saí de madrugada...”
Cravo branco
Paulo Vanzolini atesta-se como típico reprodutor em versos das características e da sintaxe paulistana. Nascido na capital do estado é alardeado como um dos grandes nomes musicais da cidade, posto ocupado ao lado de outra sumidade, de quem também foi amigo, o emblemático Adoniran Barbosa. Mas não se esquece de avisar que sua formação é fruto de gênios ouvidos através do rádio carioca: Ary Barroso, Lamartine Babo, Noel Rosa, Mario Reis, Ismael Silva. Ele, inclusive, morou um tempo no Rio de Janeiro em sua infância. “Cravo branco”, lançada por Adauto Santos em 1967 é história que poderia ter acontecido em qualquer lugar do Brasil, mas lhe ocorreu ao escutar com atenção o relato de sua empregada. Pronta a inspiração para recitar o crime cometido por ciúme, embalsamando o pobre com o cravo branco na mão, alento em sua despedida.
Juízo Final
“Eu sou puritano mesmo, sempre fui. Eu tenho 60 músicas e nunca usei a palavra malandro.” Esse rigor estilístico e conceitual de Vanzolini, nunca o impediu de tratar com senso de humor áspero temas de natureza recalcada. A religiosidade foi uma das escolhidas como alvo de seu deboche bem construído. “Juízo Final” é uma satírica composição que reproduz até os toques de harpa tocada pelo recém-aceito anjinho de sua pessoa, que olha para baixo e ri-se da desgraça alheia, “a ingrata que hoje trabalha de salsicha, espetadinha no garfo, satanás fritando a bicha...ô Demônio capricha!”. De uma incorreção saborosa e bem trabalhada por Vanzolini. O humor, quando bem empregado, sem conotações morais e no entretanto, sem fazer concessões popularescas, constitui, sem dúvida nenhuma, um dos baluartes da inteligência.
Leilão
Paulo Vanzolini considera “Leilão” seu samba mais acabado, pronto, intelectualizado. Cantado pela primeira vez em disco por Luiz Carlos Paraná em 1967 rebobina o arrependimento do homem que não arrematou aquilo que desejava, sem revelá-lo, recapeando o caminho de sua vida com “olho de cobra mansa” e “boca de fruta brava”, elementos tradicionalmente folclóricos.
Praça Clóvis
A primeira experiência radiofônica de Vanzolini aconteceu no programa “Consultório Sentimental” apresentado por Cacilda Becker. A primeira experiência musical foi recitando versos nos regionais da universidade. A primeira com os animais para os quais dedicou seus estudos de zoólogo, e tornou-se um dos mais respeitados na área, foi visitando o Butantã. A primeira com poesia talvez tenha sido a “Lira”. Mas não se pode afirmar com exatidão, apenas supor, pois muitos desconfiam que em seu DNA já estavam absortas essas sementes que trouxeram à tona o homem de cachimbo, especialista em samba sem diplomacia, inspirado em fatos pitorescos para compor sua obra: como os batedores de carteira que deram vida à “Praça Clóvis”, samba lançado em 1967 por Chico Buarque, concentrador da ironia do compositor para agradecer ao assalto responsável por levar de sua carteira a foto da mulher desprezada.
“Do povo, de cada um pessoalmente, eu não gosto, mas do povo em geral eu gosto muito.” Paulo Vanzolini 
Raphael Vidigal Aroeira

O samba recheado de quebradas marcou a vida irregular do compositor. O rebolado das baianas o colocou no chão. De queixo caído ele assistiria ao rebuliço em torno da bossa nova que ele próprio antecipara, não tivesse partido tão cedo. Sem saber, o mineiro que alimentou fama e discórdia no Rio de Janeiro foi um precoce e um privilegiado. Por ter assistido de perto à criação da Estação Primeira de Mangueira e ter convivido com grandes bambas da malandragem teve o prumo certo para tirar melodia e letra do mel que brotava na sua frente. Nem sempre doce, o sambista Geraldo Pereira foi um prodígio, reconhecido mesmo em sua brevidade, como talvez nunca tivesse sido não fossem as tempestades em sua vida.
Falsa baiana
Geraldo Pereira já perseguia o sucesso há algum tempo quando seu samba estourou na praça, em 1944. O começo da história data de um carnaval em que Geraldo estava no Café Nice, um dos seus pontos prediletos, e viu adentrar o recinto a esposa do compositor Roberto Martins, toda fantasiada de baiana e com uma desanimação de dar dó, ao que ouviu a fala do marido: “Olha aí a falsa baiana”, prontamente começou a matutar em sua cabeça o novo samba sincopado. Ao cantá-lo para Roberto Paiva embolando as letras, já alto depois de umas e outras, recebeu um não do cantor, que se surpreendeu positivamente ao ouvir a música na voz de Ciro Monteiro ecoar nas rádios. A baiana de Geraldo Pereira deixou a mocidade louca! A música foi regravada na década de 70 por Gal Costa, repetindo o êxito que a consagrou.
Sem compromisso
O calado menino Geraldo, que herdara o nome pelo qual ficaria conhecido de uma tia que o manteve sob seus cuidados quando a família foi para o Rio de Janeiro, chegou à capital federal por volta dos 12, 13 anos. Inicialmente com o intento de ajudar o irmão Mané Araújo numa tenda que esse mantinha no morro de Mangueira, acabou desvirtuando seus passos e indo de encontro ao samba. Antes, porém, arrumou emprego como motorista de caminhão de lixo, e seguiu nesse batente até o fim da vida. Acusado de ter um temperamento difícil tornou a público a título de lenda ou realidade a fama de que descumpria compromissos, dava calotes em seus companheiros e até abandonara a mãe no leito de morte para curtir a orgia, o que acarretou uma séria briga com o irmão mais velho. Mas Geraldo Pereira também sabia acusar, como fez em 1944 em parceria com Nelson Trigueiro: “Você só dança com ele e diz que é sem compromisso, é bom acabar com isso...”. Lançado pelos Anjos do Inferno o samba recebeu celebrada regravação de Chico Buarque.
Bolinha de papel
João Gilberto conta que foi Geraldo Pereira um dos inspiradores da batida com a qual ele caracterizou a bossa nova. O sambista bom de bossa, aliás, vivia jogando seu charme para cima das cabrochas de seu convívio. Numa dessas acabou se dando mal, engravidou a moça e foi obrigado a casar, mas nada que impedisse suas peregrinações galantes. Na contagiante “Bolinha de papel”, lançada pelos Anjos do Inferno em 1945, ele declara seu amor capaz de garantir até sossego para a tal Julieta. A música recebeu regravações de Miltinho e do próprio João Gilberto.
Pisei num despacho
Geraldo Pereira migrou de Mangueira depois de conflitos com o irmão Mané, importante e temido na região por acumular os cargos de dono de tenda e funcionário da Central do Brasil, o que lhe garantia alto poderio econômico. Antes de deixar o morro, ele conheceu Cartola e Carlos Cachaça, que fundaram mais tarde a escola de samba mais famosa do local, e teve aulas de violão com Aluísio Dias e Alfredo Português, padrasto de Nelson Sargento. No ano de 1947 ele já desfrutava de certa imponência no meio do samba por conta de gravações recentes que obtiveram alta cota no gosto popular. Nesse mesmo ano, lançou outra delas, que versava sobre os infortúnios de um sujeito que atribuía isso ao fato de ter “pisado num despacho”. Geraldo falava na música sobre a gafieira, um dos ritmos que o ajudaram a inventar o “samba de teleco-teco.” A música foi lançada por Ciro Monteiro e recebeu regravações de Roberto Silva, Jackson do Pandeiro e Zeca Pagodinho.
Chegou a bonitona
Dizem que era difícil fisgar o coração de Geraldo Pereira, embora e por isso mesmo fosse ávido amante de mulheres, mas não se contentava com uma só. Coube a Isabel Mendes da Silva a proeza de capturar o coração do sambista, para quem compôs diversos sambas, mas também dedicou brigas e complicações típicas de seu estilo de vida. Apreciador, esse sim, inveterado da bebida, com predileção pelo conhaque de alcatrão, cachaça e cerveja, não podia ver passar uma bonitona que seus olhinhos já meio bêbados brilhavam de alegria. Talvez tenha sido essa uma das inspirações para ele compor junto com José Batista, “Chegou a bonitona”, gravada em 1948 com enorme sucesso por Blecaute, depois de dada a Ciro Monteiro e retirada pela demora da gravação, o que gerou briga entre o cantor e compositor que resultou em quebra de relação por seis anos. Na posteridade, sua divulgação ficou a cargo da voz cadente de Luiz Melodia. 
Pedro do Pedregulho
Embora muito conhecido pelas confusões que propagou ao longo da vida, geradas na maioria por conta de bebida e mulheres, Geraldo Pereira era esforçado divulgador de seu trabalho e também de outros artistas, o que lhe garantiu parcerias com Moreira da Silva (“Na subida do morro”) e Wilson Batista (“Acertei no Milhar”). Na música “Pedro do Pedregulho, o sambista retrata com sensibilidade uma realidade que poderia muito bem ser a sua, tivesse ele dado chance para a calmaria. Mas a poesia impetuosa de Geraldo não permitiu que ele fizesse concessões desse tipo. Ele mesmo lançou como cantor o samba, em 1950.
Ministério da Economia
“Ministério da Economia” era supostamente uma música para fazer afagos em Getúlio Vargas, então presidente do Brasil. Mas o samba não ficou datado justamente pelo caráter irônico que se pode atribuir a ele, ao se constatar o protagonista esbanjando o fato de não precisar “comer mais gato”. A música em parceria com Arnaldo Passos foi novamente lançada pelo próprio Geraldo Pereira, e recebeu regravação do portelense Monarco.
Escurinha
Geraldo Pereira criou em 1952 uma interessante personagem do cancioneiro brasileiro. Ele próprio já tinha experiência nessa área ao trabalhar como ator numa peça de teatro que escreveu e dirigiu, e ao aparecer em filmes interpretando a si mesmo, como no “Brasil na batucada”, de Luiz Barros, em que proclamava: “Não acabou a Praça Onze não!”, por idéia de Herivelto Martins. Essa habilidade, portanto, de observar personalidades típicas do morro, já havia sido demonstrada por ele diversas vezes, mas nunca com tanta desenvoltura quanto no samba “Escurinha”, em parceria com Arnaldo Passos. Na história, Geraldo desenvolve o embate entre o malandro apaixonado e a donzela requisitada: “Escurinha tu tem que ser minha de qualquer maneira, te dou meu boteco, te dou meu barraco, que eu tenho no morro de Mangueira, comigo não há embaraço”. O cantor fez questão de lançar a preciosidade, mais tarde revigorada por Cartola, João Nogueira, Jorge Veiga, Zizi Possi, e outros.
Cabritada malsucedida
Geraldo Pereira teve trajetória errática, não sabendo ao certo qual caminho lhe pertencia até descobrir o samba. Além disso, nunca largou certos vícios que acalentavam suas composições. Nascido em Juiz de Fora, no interior de Minas Gerais, tinha por incerto o nome do pai, embora a mãe Clementina Maria Thedoro lhe afirmasse ser Sebastião Maria, seu segundo marido, com quem teve mais dois filhos além de Geraldo. Os outros eram filhos de Antônio Manuel de Araújo. Apesar dos pesares, pode-se afirmar que Geraldo Pereira foi bem sucedido no intento de tornar-se sambista de renome, embora mais celebrizado após sua passagem por essa vida. Já em 1953, o mote para a linhagem de fino trato do compositor era uma fatídica “Cabritada malsucedida”, em que ele embalava as enrascadas pelas quais passaram os convidados da festa que acabou em caso de polícia. Lançada por ele mesmo, ganhou regravações de Miúcha e Luiz Melodia. 
Escurinho
A última música de Geraldo Pereira, lançada em 1955, na voz do “padrinho” – assim ele o chamava – Ciro Monteiro, representa em síntese o universo primordial do compositor, com a batida descompassada e a princípio mal entendida que ele confraternizou com o samba e a bossa nova. Naquele ano, rezaria a lenda propagada, entre outros, pelo próprio autor do ato, ele seria abatido pelo capoeirista pernambucano João Francisco dos Santos, depois de provocar repetidas vezes o Madame Satã, aos 37 anos. No entanto, há quem discorde dessa afirmação, e diga que a causa da morte foram os problemas intestinais que Geraldo sempre carregou, agravados pela bebida e pelo soco. Sobre isso, não há pareceres definitivos nem que estabeleçam o fim de todas as dúvidas, mas o legado de Geraldo Pereira, esse sim, é inquestionável, basta uma ouvida de canto de orelha em “Escurinho” - companheiro da “Escurinha” também criada por ele - gravado com maestria por Roberto Silva, somente para uma pequena idéia do que se costuma falar a respeito do inventivo compositor, tanto desordeiro quanto talentoso.
"Um compositor tem que saber música, não ser que nem eu, que não sei de nada. Eu faço porque tá dentro de mim." Geraldo Pereira
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 01/05/2011.

A doença aliada à origem africana da avó rendeu-lhe o apelido inusitado. As baixarias ouvidas em casa pelo choro do pai e dos amigos deram a ele uma flauta mágica. O ouvido desaforado fez com que se transformasse em maestro, inepto e aclamado: Villa-Lobos, Ernesto Nazareth, Jacob do Bandolim, todos foram unânimes em aplaudi-lo. As vaias vieram quando excursionou com os Oito Batutas para ver o mundo. E se tornou um brasileiríssimo arranjador influenciado pelo jazz americano e os ritmos africanos. As dificuldades financeiras, a bebida e o fumo, o presentearam com um sax. E todas essas rasteiras terrenas ajudaram a compor o gênio que transcendeu as barreiras do tempo: Carinhoso, Lamentos, Um a Zero, Rosa. Pixinguinha, música semente. 
Rosa
Sorte para a música brasileira que o garoto Alfredo da Rocha não obedecia aos pais quando era mandado para a cama. Foi assim, ouvindo escondido a festa do choro em sua residência que ele obteve inspiração para compor “Lata de leite”, aos 12 anos, em homenagem aos músicos que chegavam bêbados pela manhã e bebiam o leite de outros nas portas das casas. Pouco depois, aos 17, o menino deu prova da importância que viria a ter no cenário musical, ao compor “Rosa”, uma valsa de 1917 que ganhou versos de Otávio de Souza, “um mecânico muito inteligente que morreu novo”, segundo o próprio Pixinguinha. A gravação antológica realizada em 1937 por Orlando Silva realça o tom de encantamento com o inatingível da melodia e todo o romantismo da letra.
Sofres porque queres
Pixinguinha era o caçula de uma família de 14 irmãos, incluindo os dois casamentos de sua mãe. O pai tocava flauta nas horas vagas e incentivou o “menino bom” quando viu sua afinidade com o instrumento. Primeiro ele tocou cavaquinho, depois foi ter aulas de sopro com Irineu de Almeida. Com 13 anos, já estava em disco. Suas primeiras gravações autorais aconteceram em 1917, com “Rosa” e “Sofres porque queres”, um tango em parceria com Benedito Lacerda gravado por Isaurinha Garcia em 1949. Um choro sofrido e esperançoso. 
Os Oito batutas
Pinzindim, como era chamado pela família, demonstrava toda a habilidade na flauta ao incorporar improvisos que o fariam famoso em todas as rodas de choro. Em 1919, ele alcançou seu primeiro sucesso em larga escala, com o samba de carnaval “Já te digo”, parceria com o irmão China, uma atrevida resposta ao compositor Sinhô, que reivindicava a co-autoria de “Pelo telefone”, considerado o primeiro samba brasileiro e registrado somente por Donga. Nesse mesmo ano, Pixinguinha compôs com Benedito Lacerda um tango que mais tinha cara de maxixe, “Os oito batutas”, nome do célebre conjunto formado por ele ao lado de Donga, China, Nelson Alves, Raul e Jacob Palmieri, Luís de Oliveira e José Alves de Lima. Os caminhos dos batutas foram marcados por preconceito e pelo rompimento de barreiras tanto territoriais como conceituais. Tocaram na França, Argentina e em casas de música erudita, atestando em todos os âmbitos a exemplar competência do grupo. A música retrata mesmo uma trajetória ascendente e entusiasmada. 
Lamento
"Se você tem 15 volumes para falar de toda a música popular brasileira, fique certo de que é pouco. Mas se dispõe apenas do espaço de uma palavra, nem tudo está perdido; escreva depressa: Pixinguinha.” Foram as palavras eternizadas de Ary Vasconcelos. Vinicius de Moraes concordava, e declamou emocionado: “A bênção Pixinguinha, tu que choraste na flauta todas as minhas mágoas de amor”. A admiração pelo instrumentista, fez com que o poetinha pusesse versos milimétricos na refinada composição do maestro de 1928, “Lamento”. A bênção definitiva de Vinicius ocorreu em 1963, quando os dois atuaram juntos na trilha sonora do filme “Sol sobre a lama” de Alex Viany. Elizeth Cardoso interpretou com Jacob do Bandolim e o conjunto Época de Ouro as pequeninas esferas brilhantes da canção. As “coisinhas simples” de Pixinguinha. 
Naquele tempo
A excursão de Pixinguinha com os Oito Batutas pela França era para ter durado um mês, mas acabou se estendendo por seis. Na volta, eles foram acusados de terem se rendidos aos cânones da música americana, especialmente o jazz. Foi nesse tempo que a gravadora Victor contratou Pixinguinha para ser seu maestro e arranjador. O já considerado instrumentista demonstrou toda sua gama de influências ao inovar as matizes do arranjo brasileiro e dar a ele uma roupagem nova, com elementos do jazz, da música africana, européia e generosas doses de percussão que garantiam o tempero nacional. “Naquele tempo”, choro de 1934, gravado na época ao bandolim por Luperce Miranda, rememora tempos áureos sem perder de vista a continuidade. É a nostalgia de olho no futuro. O estrangeiro que auxilia no interior. 
Carinhoso
Pixinguinha foi regente de várias orquestras, entre elas a Orquestra Típica Pixinguinha-Donga, os Oito Batutas e a Diabos do Céu. Suas inovações melódicas provocaram certa celeuma nos meios de imprensa, que não entendiam sua sofisticação. Ao escrever um choro em duas partes, e não em três, como era costume, o próprio compositor sabia que seria alvo de reclamações. Por isso mesmo, “Carinhoso” demorou 20 anos para tomar forma definitiva e alcançar sucesso irrevogável. O que só aconteceu quando João de Barro, o Braguinha, adentrou a ourivesaria de Pixinguinha e lapidou com versos a refinada harmonia. Desde a gravação de Orlando Silva em 1937, por recusa de Francisco Alves e quebra de compromisso de Carlos Galhardo, a música se tornou um dos maiores emblemas do cancioneiro brasileiro, com mais de 200 regravações, quebrando o preconceito com a dedicada delicadeza de Pixinguinha.
Um a zero
Também chamado de “Carne Assada” pelos íntimos, Pixinguinha era bom de copo e comida, e gravou seu nome em ouro na mesa do Bar Gouveia. Assim também, a rua Belarmino Barreto, onde morava, passou a se chamar Pixinguinha, por um projeto do vereador Odilon Braga, sancionado pelo prefeito Negrão de Lima, em 1956. Todo esse reconhecimento não foi suficiente para que ele tivesse uma saúde financeira estável. Por conta disso e do alto consumo de bebidas alcoólicas, trocou a flauta pelo saxofone, e passou a brindar com sensacionais contrapontos os solos de Benedito Lacerda. A dupla gravou inúmeros choros, entre eles “Um a zero”, composto em 1919 para celebrar a conquista da Seleção Brasileira sobre o Uruguai no campeonato sul-americano de futebol. A música ganhou letra de Nelson Ângelo, violonista do Clube da Esquina, e é mais um show de bola que Pixinguinha dá com suas ousadas inversões.
Ingênuo
O radialista, cantor e compositor Almirante foi quem convidou Pixinguinha e Benedito Lacerda para participarem de seu programa “O Pessoal da Velha Guarda”, que seria a base para a criação da orquestra de mesmo nome. Contando posteriormente com Donga e João da Bahiana como convidados, entre outros, a iniciativa foi levada para a Rádio Clube em 1953, e mais tarde resultou no Festival da Velha Guarda, com transmissão para a rádio e a TV Record, em 1954. “Ingênuo”, choro de 1946, composto um ano antes do convite para a atração, tem ritmo dolente e sereno que comprova a versatilidade de um dos mestres da canção brasileira. Mais tarde, ganhou letra do talentoso Paulo César Pinheiro.
Vou vivendo
No ano de 1955, Pixinguinha chegou ao LP através dos discos “A Velha Guarda” e “Carnaval da Velha Guarda”, com a participação de seus músicos e Almirante. Era a estréia do renomado compositor, instrumentista, maestro e arranjador no novo formato. Dois anos depois, seria convidado pelo então presidente Juscelino Kubitschek a almoçar com o trompetista norte-americano Louis Armstrong no Palácio do Catete. Em 1946, ele havia composto com Benedito Lacerda um inspirado choro nomeado “Vou vivendo”. De forma simples e prodigiosa, expunha as belezas e cicatrizes de uma vida plena, em que gozou de fama e atravessou espinhos, mantendo inalterada a humilde sabedoria.
Fala baixinho
Sobre suas músicas, Pixinguinha dizia: “Elas vêm, só isso”. Assim ele veio e soprou a vida, e se foi no mesmo sopro de flauta e saxofone, menos de um ano depois de sua amada companheira Betty, numa cerimônia de batizado. Ainda viva, Betty não sabia que Pixinguinha estava internado no mesmo hospital que ela, e ia lhe visitar de terno e buquê de flores na mão como se viesse de casa. Antes de morrer o músico ainda teve tempo de receber homenagens no Teatro Jovem, Museu da Imagem e do Som, Teatro Municipal e Assembléia Legislativa, com as presenças de Clementina de Jesus, João da Bahiana, e outros. A última música foi para Eduardo, segundo neto, filho de seu único descendente, Alfredinho, que ele chamou de “Eduardinho no choro”. Em 1964, Hermínio Bello de Carvalho letrou um bonito choro do compositor, gravado belamente por Maria Bethânia em 1999, com uma determinação implícita: Quando lembrar Pixinguinha, “Fala baixinho”, que o coração ouve.
"A bênção Pixinguinha, tu que choraste na flauta todas as minhas mágoas de amor" Vinicius de Moraes
Raphael Vidigal Aroeira


As águas de Itapemirim deram ao mundo um Rei e um fora da lei. Um médico e um monstro. Cachoeiro, no masculino, maturou a seleção natural entre aquele que seria quase unânime em agasalhar corações maternos e o que exacerbava feminilidade na postura prática. Pernas cruzadas, cabelos longos e negros como lágrimas ou labirintos, boca embicada à espera de um batom corrosivo vermelho que pintava seu nome nos encartes dos discos: Sérgio Sampaio. O outro prescinde apresentação, Roberto Carlos.
Sob a égide do Espírito Santo, ambos nasceram regidos por Marte, o elemento fogo e o signo de Áries, nas datas de abril cujo simbólico animal é o carneiro. Mas o misticismo esteve longe de enclausurá-los, embora presente, e se fizeram lobo em pele de variados gêneros. O rock foi a matiz inicial. Enquanto Roberto empunhou sua guitarra italiana, carros explosivos e mil e uma namoradas, Sérgio foi pela trilha provocadora a que um amigo baiano o apresentou, com sessões das dez num cinema espinafrado. Raul Seixas conduziu Sampaio. O irmão de sobrenome, Erasmo, foi o grande comparsa do amigo Carlos.
Sérgio caminhou deslocado. O assombro a que persegue o monstro e avilta a própria integridade crava marcas de lucidez plebéia no rosto irônico e fundo. A poesia intrincada e cáustica de vidros mastigados (Kafka e Augusto dos Anjos; homenagem louca a Torquato Neto) expele sangue limão, misturando o extremo coloquial palpável à sórdida opacidade. A musicalidade de violão inquieto e agudo preserva os estouros do fox, a morosidade dolente de uma harmonia retalhada por raízes perenes, a espontaneidade do samba patriarcal e a gravidade do samba-canção, a quem deve os louros para Orlando Silva, Sílvio Caldas e Nelson Gonçalves.
Roberto caminhou ao centro. As luzes medicinais acompanham os trejeitos de galã do Rei que sabe impressionar, conquistar e cortejar seu povo. Com um sorriso esperto que mais tarde se dará maduro, poesia dita no pé do ouvido e sofisticação de arranjos. É o médico que amacia as dificuldades e apresenta a cura para os problemas ocasionais e preocupantes. Para tudo há uma dose de sua canção. Ele está no comando aclamado. 
O desajeito existencial do monstro é asfaltado pela colocação pertinente do médico. O Rei dá as respostas. O fora da lei pergunta. A pergunta é incômoda e a resposta, em geral, conforta. Um cristaliza; o outro, turva. Sérgio era fã de Roberto Carlos. A criatura que busca abalar as estruturas do criador, impassível em sua afirmação. E o homem que busca ferir Deus, referência explícita a quem reverencia no questionamento. “O Caetano rebolava e fazia de tudo pra chocar João Gilberto, então é isso, a gente tem que chocar os ídolos da gente.” Cazuza
E por essa linha, Sérgio se embicou (tal qual um Garrincha habilidoso) por esses cantos da vida e lá ficou. Pagou preço caro enquanto Roberto permaneceu eterno, jovial e gratuito. O médico e criador para quem a criatura dedicou um velho blues pedindo para cantar sua música, pois não sabia fazer romances (“E até o nosso calhambeque não te reconhece mais, eu trouxe um novo blues com um cheiro de uns dez anos atrás, e penso ouvir você cantar”). Um monstro de aparência feia, desidratado e infiel, que se orgulha de ser mentiroso, e que arrastou sua garganta cortada nas calçadas sujas de um mundo independente, inesperado e inóspito. Um mundo próprio alheio a determinadas leis de Estado que o Rei promulgou, com sua voz cirúrgica capaz de emocionar os corações menos abaláveis e empolgar os nervos mais sóbrios.
“Sei como dói meu amor de poeta”, agoniza a Real beleza de Sérgio Sampaio. “Se você pretende saber quem eu sou, eu posso lhe dizer”. As curvas da estrada de Santos que propagaram Roberto Carlos. “Que eu estou no paradeiro dessa gente. Quem morreu? Quem teve medo? Quem ficou?”, duvida Sérgio Sampaio. “Daqui pra frente, tudo vai ser diferente, você tem que aprender a ser gente, e o seu orgulho não vale nada”. Garante Roberto.
Ávido por melancolia suspira Sampaio: “Eu guardo seus dias de chuva dentro de mim”, relegado a um posto por inadequação, muito inédito e contemporâneo. “Não adianta, nem tentar, me esquecer...” orgulha-se Roberto Carlos, e toma posse assumindo o romantismo e a Jovem Guarda, repetido e consagrado. O criador teve trajetória larga, bem planejada. A criatura esbandalhou-se perdida sempre à procura. Veio sofrida, efêmera e duradoura pela beleza que guardam os instantes de iluminação. Não se pode afirmar que se foi. Ainda habita, e lateja, mesmo assim, esporádica. O Rei recolhe flores no jardim das vaidades.

Eu quero é botar meu bloco na rua (marcha-rancho, 1972) – Sérgio Sampaio
Com sua loucura lúcida, como disse Lygia Fagundes Telles de Caio Fernando Abreu, Sérgio Sampaio criou uma das mais emblemáticas canções de carnaval de todos os tempos. Em meio à ditadura militar que se instaurara no Brasil, o compositor capixaba, tido por muitos como maldito, dá uma aura lamentosa à festa popular mais famosa do país, ao entoar versos confessionais em tom melancólico, emendando logo na sequência o refrão esperançoso que garantiu o sucesso da canção: “Eu quero é botar meu bloco na rua, brincar, botar pra gemer...”. Além do conteúdo sexual abordado no refrão há também referências ao uso de drogas, tudo feito com muito deboche, misturando tristeza e alegria e dando seu aval definitivo à festa máxima brasileira: o carnaval.
Raphael Vidigal Aroeira

Vou te contar a história de um malandro astuto
Que subiu o morro
E arrumou confusão
Tudo porque bateram na sua nêga
E ele então, foi tirar satisfação
Esse malandro fez muito samba
Depois de cantar com outros bambas
Wilson Batista, Macalé e Miguel Gustavo
Cantou a ópera com Bezerra e Dicró
“Cuidado, Moreira!”
Mas nunca largou o linho branco
E o chapéu panamá na cabeça brasileira
Vou lhe dizer sem sugestão
Qual é o nome desse figurão
Fala: “Derrepenguente as coisas acontecem e nós da Hora do Coroa, estamos aqui pra falar pra vocês: passado, futuro, presente, tudo depende.”
Pode chamar de Moreira da Silva
Alguns o chamam Morengueira velho oeste
É o herói do cinema americano
É o herói da música que segue
Cambaleando com estilo
Vem com pompa e circunstância
Segura a faixa que nosso Moreira
Não bebe, não fuma, não perde a noite de sono
E não há nada que o irrite mais
Que um certo amigo urso não pagar a condição
“malandro que é malandro, não é malandro”
Breque!
Chega de papo “vamo” ouvir seu carteado!
Etelvina! 
Arrasta a sandália
Depois de se virar como motorista de táxi e auxiliar de garagem, entre outras profissões, Antônio Moreira da Silva, que perdeu o pai jovem, quando tinha 11 anos de idade, lançou seu primeiro sucesso como cantor, no ano de 1933. “Arrasta a sandália” foi um samba de carnaval de autoria de Aurélio Gomes e Baiaco que esbanjava a condição do protagonista: “arrasta a sandália, minha morena, estraga mesmo e não tenha pena...” “que eu te dou outra de veludo, enfeitada de fita, e mando vir lá da Bahia”.
Implorar
Em 1935, Moreira da Silva venceu o carnaval cantando o samba “Implorar”, de Kid Pepe, Germano Augusto e João da Silva Gaspar. Na época a autoria foi contestada por Divino, que dizia ser ele, junto com seu falecido primo Cedar Silva, diretor da escola de samba Mocidade Louca, o autor da canção. Acontece que Divino estava no leito de um hospital, e não teve muito tempo para brigar pela paternidade, que acabou sendo um belo presente para a música brasileira. 
Acertei no milhar
A invenção do improviso foi por mero acaso, segundo o próprio Moreira da Silva, responsável direto pela popularização do “breque”. De acordo com o que ficou na história, ele teria remendado com astuto falatório os versos de “Jogo proibido”, em 1937. E foi esse exímio talento que convenceu o radialista César Ladeira a oferecer-lhe seguinte valor para cantar na Mayrink Veiga, ao que ele respondeu: “Ora, César, não vês que eu sou o tal?!”. Como na canção de Wilson Batista e Geraldo Pereira de 1940 ele acertou no milhar e ingressou de vez nas paradas de sucesso. Só que a astronômica quantia não passou de um sonho.
Amigo Urso
Moreira da Silva viaja até o pólo Norte para cobrar de certo amigo Urso que não lhe dê o calote. O samba pitoresco de Henrique Gonçalvez foi mais um êxito da carreira de Moreira que enfim deslanchava. Após um começo trôpego como cantor de umbandas e serestas ele encontrou seu verdadeiro terreno. E a década de 40 seria fértil em acertos musicais, especialmente em 1941.
Esta noite eu tive um sonho
As viagens e os sonhos de Moreira da Silva estavam expostas em suas músicas. Em tom de galhofa ele almeja partida para a Alemanha no samba “Esta noite eu tive um sonho”, em parceria com Wilson Batista de 1941. E até citação em alemão cabia na bagunça bem arrumada de Morengueira. 
Na subida do morro
Trocar músicas na década de 50 era algo comum, segundo o próprio Moreira da Silva. Era essa relação que ele tinha com Geraldo Pereira. Um colocava o dedo numa autoria daqui, outro dali, e assim estabeleceu-se a parceria. Uma delas foi “Na subida do morro”, samba que conta com a graça maliciosa de Moreira da Silva, as intempéries de um triângulo amoroso que se transforma em crime passional. A canção politicamente incorreta foi um dos maiores sucessos de sua carreira, lançada em 1952.
Olha o Padilha
No samba “Olha o Padilha”, Moreira da Silva brinca com a fama nada boa de um certo delegado que dizem ter realmente existido. A música foi composta em 1952 ao lado de Ferreira Gomes e Bruno Gomes, e aborda como de costume as asperezas vividas no cotidiano do morro, sempre com muito bom humor. 
Cidade Lagoa
“Cidade Lagoa” flagra o povo do Rio de Janeiro em apuros. Tudo porque a cidade foi de novo acometida por uma enxurrada. Os versos irreverentes de Cícero Nunes e Sebastião Fonseca debocham da situação repetida e apresentam novas soluções: comprar lancha, canoa ou ser girafa! Gravada por Moreira da Silva em 1959 e regravada por Jards Macalé em 1998, a música retrata uma realidade inalterada.
O Rei do Gatilho
Inspirado nos filmes de faroeste americano, Miguel Gustavo criou uma épica epopéia para seu personagem. Moreira da Silva vestiu a estampa de Kid Morengueira e saiu atrás de justiça. Com direito a um amigo Índio, cavalo, mocinha temerosa e citação de Hitchcock, a história bateu recorde de bilheteria na discografia do malandro herói, que ainda por cima terminava com a viúva do bandido que matou: “que até hoje ninguém sabe quem morreu, eu garanto que foi ele, ele garante que fui eu...”. Ou não! Tudo isso em 1962.
Morengueira contra 007
Miguel Gustavo teve como base inserir diversas personalidades em sambas feitos sob medida para Moreira da Silva cantar. No contexto das histórias de aventura, o humor era o grande trunfo. Essa fórmula esteve inclusive presente na música “Super-heróis”, de Raul Seixas e Paulo Coelho. A exemplo das bem sucedidas sequências cinematográficas, o herói Kid Morengueira cumpria sua missão ao final, fosse contra 007 ou qualquer outro. Mais uma vez em 1968 ele não se fez de rogado. E assim foi até o fim da vida, aos 98 anos, disposto como nunca a uma boa malandragem. 
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 10/04/2011.