quinta-feira, 22 de setembro de 2011



Turva felicidade a de Arrigo Barnabé. Essa que se agarra às ostras, que se agarra às algas. Ainda assim, espontânea. Ainda assim, clandestina. Tal e qual uma flor de Clarice Lispector, que ao “se erguer, parece quebrar-se”.

Quando emerge do pântano, sob o relento do olhar de crocodilos, espia uma luz clara que tamborila de instrumentos multicoloridos: ali está Schoenberg, e sua escala de arco-íris sem tom.

Com o olhar de Mary Shelley, sua “pele encarquilhada, lábios negros e retos” urde o grito de Frankenstein, boca retorcida do medo, apupos e aplausos no Festival Universitário de 1979, Diversões Eletrônicas, Silvio Caldas e Orestes Barbosa sob a ótica de luminosos fórmicos.

Rufem os tambores, há uma missa a ser celebrada para Arthur Bispo do Rosário, o artista plástico, que se confundiu louco, e outra missa a ser celebrada para Itamar Assumpção, o louco que se confundiu artista, e assim sejam todas as distorções de imagem, eternas e sagradas, na extrema unção da irrealidade.

Abre-se o piano, arrasta sua longa cauda, guarda as jóias na “caixa de ódio” de Lupicínio Rodrigues, o passarinho que viu a raiva consumar o amor com as garras de um gavião. E arranha a garganta de Cássia Eller, a cantar o “Dedo de Deus”, e alivia as cordas de Tetê Espíndola, a acompanhar suas peraltices transformistas, e dueta com Ney Matogrosso, em espetáculo de androginia, Dionísio e breu do mundo.

Clarão mágico de influências rodantes: não pergunte, Skylab, quem matou nosso personagem, ouça a língua de Caetano Veloso: acrilírico. Consonantes telepatias digestivas. Mastiga, mastiga, até encontrar Arrigo, até insurgir a beleza da estranheza sem nenhum acorde, sem nenhum tom, nenhuma vogal, nenhuma consoante. Escorre o sabor de veneno. No porão, as teias trazem Tom Waits.

Do caos vem a criatura, irrestrita criatura de paz nesse labirinto. Quero “ver se você consegue me seguir neste labirinto”. Tubarões voadores, sou Clara Crocodilo. Tubarões voadores, é o terreno espírito. Tubarões voadores, de repente Orson Wells, trilhas, locuções, para todo um filme, uma única tomada, o último rife. “Pois te entender é o ato de destruir” Arrigo Barnabé.

Nascido em Londrina, compositor com formação erudita, que teve fundamental contribuição para a chamada ‘Vanguarda Paulista’, movimento que desmatizou (arredou as cores, inovou) da música brasileira, a partir de sua iniciativa teatral, inspirada em histórias em quadrinhos e no dodecafonismo, para remodelar o tom da tradicional canção.

Discos:

1980 – Clara Crocodilo (com a banda Sabor de Veneno)
1984 – Tubarões Voadores
1986 – Cidade Oculta (trilha sonora)
1987 – Suspeito
1992 – Façanhas
1997 – Ed Mort (trilha sonora)
1998 – Gigante Negão
1999 – A Saga de Clara Crocodilo
2004 – Missa In Memorian: Arthur Bispo do Rosário
2007 – Missa In Memorian: Itamar Assumpção
2008 - Ao Vivo em Porto (com Paulo Braga)


Raphael Vidigal

Publicado no jornal "Hoje em Dia" em 22/09/2011.

terça-feira, 13 de setembro de 2011



Arnaldo Antunes sempre se divertiu em cena. O antídoto risonho proposto por Nietzsche para desarvorar a vida é levado a ferro e fogo por sua persona bem grata. No palco do Instituto de Arte Contemporânea e Jardim Botânico (popular Inhotim), no último dia 11 de setembro, o artista desfilou sua dança apocalíptica, sua poesia concreta e seu terno cheirando a rasgado, eucalipto saído dos quadrinhos de Batman, provável “Duas Caras”, pois bom intuitivo que é, prefere os vilões.

O desafio a que se lança com microfone às costas, óculos preto & branco, e gravata ajeitada realça a gravidade de uma música pop imbuída de pretensão e ousadia. Tanto quanto o hermetismo melódico e estrutural de suas composições mais distantes, a proximidade também discorre arquitetada em balançantes hastes de ouro.

Pois fazer música pop de qualidade é tão sublime quanto lançar distorções contra tons. No abandono de seu lar, Arnaldo convida, “A Casa é sua”, parceria com Ortinho, cantada ao ouvido do coração, em clima de multidão: “Não me falta cadeira, não me falta sofá, só falta você sentada na sala, só falta você estar...”

Antes, porém, é Adoniran Barbosa quem invoca as chamas do passado, em sua restrita contestação ao ritmo que dá nome ao disco de Arnaldo, “Já fui uma brasa”, proclama: “Eu gosto dos meninos deste tal de iê iê iê, porque com eles, canta a voz do povo, e eu que já fui uma brasa, se assoprar, eu posso acender de novo”. Sem consternação, acende o novo fogo da platéia.

“Iê Iê Iê”, a própria, é música autoral construída na companhia dos parceiros tribalistas Marisa Monte e Carlinhos Brown que brinca com o sonhado sucesso: “Visto meu casaco de couro bang bang, manchado de batom e de sangue, se você pedir eu subo no palanque, e mostro aquele passo de funk”. Em contraposição melódica, “Essa Mulher” é ácida subordinação masculina, que rebobina êxito do álbum “paradeiro” (em minúscula): “Ela quer viver sozinha sem a sua companhia, e você ainda quer essa mulher”.

Alçada a estampa de homens entregues, surgem as homenagens a Odair José, que em “Quando você decidir”, apela na voz embargada de Arnaldo Antunes: “Lembre que eu existo, meu amor”, e Lupicínio Rodrigues, urgido sob a ferocidade dos versos e da guitarra de Edgar Scandurra: “Agora você vai ouvir aquilo que merece!”.

Em ambiente mais adaptado ao verde que espalha a paisagem, “Vou festejar”, de Jorge Aragão, Dida e Noeci é embalada nos metais da voz de Arnaldo, que ora tremem, outrora reluzem calmos. Em nova idiossincrasia, realça a beleza instantânea de “Americana”, da lavra do sanfoneiro potiguar Dorvigal Dantas, reiterando o inegável talento para remodelamentos sensíveis em composições alheias.

A leveza e agilidade com que Arnaldo tece seus movimentos estranhos de corpo a sugerir coquetéis de graças é interlocução dos textos sonoros e de palavras, que em “O Que Você Quiser” se traveste de “fruto proibido, deus ou diabo”, “Invejoso”, parceria com Liminha, alimenta o pecado capital cotidiano em delícia que recheia melodia sinuosa, que transcorre do melancólico ao cômico, enquanto “Longe”, de Arnaldo, Betão Aguiar e Marcelo Jeneci, surge sob o manto de translúcida reflexão nostálgica: “Onde é que eu fui parar? Aonde é esse aqui? Não dá mais pra voltar, porque eu fiquei tão longe?”

Em derradeiro número da tarde, o mestre de cerimônia inconforme (inconformidade sem formas inabaláveis), Arnaldo Antunes, saúda os convidados com seu titânico “Pulso”, arregimentado com Toni Belotto e Marcelo Fromer, na época em que a banda ainda era do iê iê iê, deixando espatifar palavras e sons sobre o palco, belo vilão desejável que é.

Raphael Vidigal

Publicado no jornal "Hoje em Dia" em 13/09/2011.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011



As lágrimas caem por elas mesmas. Nem que você queira, me levará ao centro de reabilitação. Estou na Motown. Anos 50. Negras vozes, melodias negras. Amores desfeitos na gravidade de um contrabaixo.

A tinta é uma mágoa na sobrancelha. Os cílios cortinam, mas o olhar revela. E a boca adquire o remorso compartilhado. Coração de alicate nas tatuagens. Marcas no corpo. Rouca alma.

O ritmo do blues. A batida do jazz. A batida das máquinas. O entrecortar do alicate. O balanço dos vocais. Remexendo bebidas, seringas, cabelos colados. Quietos. Esvoaçantes. Voa-se muito pela fumaça. Amy Winehouse. Assim meio perdida. Em linhas quase medíocres.

“Love is a losing game”. Eu sei. Quando a cantora apareceu, não era uma menina tímida. Disfarçava o sorriso melancólico. Mostrava a dor. A postura altiva lhe recobria os cabelos ao alto de seus pés, saias bem engomadas, maquilagem de alta fantasia.

Foi tudo de verdade. Não foi um sonho que a gente teve, como aconteceu com Cartola, já disse Nelson Sargento. Nem uma epígrafe alinhavada por Oscar Wilde, a mostrar sua alma, das profundezas. Foi tudo tão real e artístico que houve quem descambasse a querer mostrá-la como uma de nós. Com os mesmos problemas. Maquilagem borrada. Seios de fora. Cicatrizes espalhadas pelo corpo magro, lânguido e aquela voz.

Era de verdade, por mais que se queira crer que não. Que fosse mais natural e óbvio tratá-la dentro de uma embalagem. Que ela fosse negra, criada nos subúrbios americanos. A sujeira, a estranheza, a excentricidade espaireceu como gotas de poeira. Incapazes de impregnarem vestidos alvos.

A sobriedade que cobra-se dos artistas parece ser a mais absurda das realidades. Pois a fantasia daquela menina egressa diretamente dos anos 50 americanos trazia na loucura o ponto de contato com estrelas claras. Cintilantes? Gostariam de dizer. Talvez um pouco mais. A palavra cisne não expressa a brancura do vôo da ave, escreveu Patti Smith.

E todos os badulaques, tintas, acessórios, imagens não capturam a voz. A voz que só é ouvida por ela própria. E por quem tem no coração uma mágoa. Verdadeira, realizada, bem guardada. Lustrada com cuidado. Amy Winehouse colocou sua mágoa na voz. Não o contrário.

E se um dia a mágoa é líquida, não petrificada como busto estóico, por que não permiti-lo à sua cantora a imaterialidade do que é eterno?

“Minhas lágrimas secam sozinhas.” Descansam as manchetes. Resta uma voz, com tudo o que quis dizer.

Raphael Vidigal

Publicado no jornal "Hoje em Dia" em 23/08/2011.

terça-feira, 12 de julho de 2011



Não espere arroubos sonoros. Zélia Duncan canta meiga, delicada, suave, suas composições novas. Isso é o que prepara o disco. Diante da platéia a contenção das interpretações se revela desafiadora e fugaz, com leve sorriso de coragem sorrateira.

A presença de Zélia no palco é resguardada de beleza, pelo vestido de Ronaldo Fraga (o coração do artista segundo a cantora), o cenário de Analu Prestes, pinturas abstratas refletidas pelas cores de uma iluminação climática, e a simpatia da protagonista, acompanhada de perto por Ézio Filho (direção musical e contrabaixo), Webster Santos (violão, bandolim e guitarra), Jadna Zimmerman (bateria, percussão e flauta) e Leo Brandão (teclados e acordeom).

À vontade desta, dissolve-se o desdém “pelo sabor do gesto”, título do álbum lançado em 2009 que alicerça show apresentado no último dia 10 de julho no Palácio das Artes, e que rende belo número onde a cantora posiciona-se com violão ao colo e interpretação intimista.

Ao abrir a apresentação com “Boas Razões”, versão de música do artista francês Alex Beaupain, Zélia assinala a que veio, embora ainda distante fisicamente do público, já esboça o vigor e a vontade com que irá conduzir a noite. A participação de Fernanda Takai nessa canção no disco é substituída pelos vocais do guitarrista da banda. Na sequência, emenda-se a solenidade a Rita Lee, de quem Zélia é eterna devota, com a pop roqueira “Ambição”.

Mas o circo aconchegante começa a pegar fogo a partir de “Intimidade”, música de Zélia e Christiaan Oyens que lembra os primórdios do Barão Vermelho (da época de Cazuza & Roberto Frejat), um bluesy cadenciado com letra ácida e humor farpado. A cantora esparsa em rigidez malemolente os gestos necessários ao destinatário da mensagem.

Aliás, um dos pontos altos do espetáculo é a condução sonora de Zélia Duncan, que se distingue por todo o corpo com intervenções precisas de interação bem humorada e suposição ligeira de pernas e braços, que logo se recolhem ao lugar de origem.

Na super-tocada “Tudo sobre você”, a nitidez dos versos se estende ao belo arranjo, inventivo e dinâmico, onde os instrumentos retomam lembranças de festas de aniversário infantis, artimanhas de John Ulhoa, co-autor da música, produtor do álbum e segundo Zélia Duncan, maior responsável pela existência do tudo em cena, ao respondê-la em e-mail sobre o projeto: ‘xá com nóis’, brincadeira diversas vezes direcionada à platéia.

A “Felicidade” de Luiz Tatit, embandeirada pelo autor paulista como o novo mal do século em lugar da depressão, escancara tom debochado sugerido pelo sobe e desce de sobrancelhas da cantora. O que lhe é complementado pelo sorriso de lado e os questionamentos sóbrios, quase falados: “Não sei por que tô tão feliz, preciso refletir um pouco e sair do barato.”



Nada mais lhe escapa, os espaços vazios preenchidos de felicidade argumentam sem precaução nenhuma a letra propositadamente rimada de Zeca Baleiro, ao denominar símbolos de desejos amorosos da geração descartável: do “tesouro dos czares” ao “céu de celulares”, esta uma imagem perfeita ao romantismo ajambrado.

“Se eu fosse um blues, te mandava embora, se eu fosse um samba, esperava a aurora”, refina melodia e letra em parceria de Dante Ozzetti, com construção incomum de sentidos determinados pela emoção da música: do choro à valsa, da fuga de Sebastian Bach à Nona Sinfonia de Beethoven, reproduzida alusivamente à citação do verso.

O fraseado reto de “Duas Namoradas” de Itamar Assumpção e Alice Ruiz, serve-se no samba deslocado de Zélia Duncan, garantindo a hibridez proposta: “Tenho duas namoradas, a música e a poesia, que ocupam minhas noites, que acabam com meus dias”. Também o “Cedotardar” de Moacyr Albuquerque e Tom Zé alcança sublime vôo na voz bem acolchoada e no arranjo dramático, com progressão paulatina ao intencional clímax em bolero: “no mais horroroso castigo....te sigo!”. A poesia é preservada em sua integridade.

“Borboleta”, gerida em comunhão por Marcelo Jeneci, Arnaldo Antunes, Alice Ruiz e Zélia é ligeira e pop, e justifica-se pelo complemento da cantora: ‘um bando de marmanjo fazendo música de criança’. Um dos grandes momentos acontece à explanação em língua de sinais de “Todos os Verbos”, dedicada à fã semi-auditiva que buscou Zélia. Na procura de se abrir a esse universo tão sonoro quanto, a artista emociona em singeleza e doçura.

Na interpretação do “Tom do Amor”, nascida da descoberta do ‘diálogo de uma mãe ensinando as coisas importantes da vida à filha’, tudo em torno aconchega sutilezas, levezas, descompromissos e descontrações. Zélia flutua jardins de cores amenas, que não chegam a ser infantis, nem convidam à melancolia. É um contato que se interrompe, e o intervalo entre o espesso gesso e a liquidez da tinta é que moldura o quadro particular da cantora. Gotas que pingam devolvendo gestos, canções, palavras, afetos esquecidos em ambiente que se tornou cheio e duro. A composição é dividida com Paulinho Moska.

Sem esconder as ironias, Zélia canta uma desconhecida de Roberto Carlos, “I Love You”, e outra dedicada aos corações esperançosos, “Por isso corro demais”. Já no final, “Flores”, de Fred Martins e Marcelo Diniz combina poesia e energia na medida incerta pretendida: “Flores para quê? Flores para quando tu chegares, flores para quando tu chorares, uma dinâmica botânica de cores.” E o visual recebe mesmo duas flores artesanais.

O bis recheado de sucessos, “Catedral”, versão para música de Tanita Tikaram, e “Alma”, de Pepeu Gomes e Arnaldo Antunes, ganha coro ‘afinado’ da platéia, segundo a própria cantora e motivação elevada, fechando em altos tons as sonoridades decifradas em luzidias miniaturas.

Zélia não está se poupando, não deixa de ser enfática, destemida, apenas descobriu outra maneira de encarar a vida: sorrindo ao invés de gritando. Não escondida, mas aparecendo para quem quer ouvi-la. Não há nesse gesto a passividade, mas o saboreio de uma comida muito mais palatável ao devaneio de nuvens que tempestades.



Raphael Vidigal Aroeira

Publicado no Jornal "Hoje em Dia" em 12/07/2011.

quarta-feira, 6 de julho de 2011



Prodígio já nasceu chorando. Não queria aquele nome. A mãe o chamou Aníbal. Os amigos o batizaram Moleque do Banjo.
Seria sempre Garoto, aonde quer que fosse, arrastava suas cordas mágicas. Diziam serem encantadas, aquelas mãos.
Saiu de São Paulo foi para o Rio de Janeiro. Depois, Estados Unidos.
Voltou à cidade que o acolheu, descansou o coração, nos preparativos de mais uma viagem. Levou consigo as cordas. Deixou delas, uma pequena amostra, suficiente para alentar lembranças e saudades recolhidas.

Amoroso

O pai de Garoto tocava guitarra portuguesa e violão. Do irmão Batista, também músico, o menino que já ensaiava num instrumento improvisado de pau e corda, ganhou o primeiro banjo. Desde cedo, integrou o “Regional dos Irmãos Armani”, com 11 anos, depois “Conjunto dos Sócios”, “Chorões Sertanejos”, “Conjunto Regional”, em substituição a Zé Carioca, “Rádio Educadora Paulista”, entre outros. Convites nunca lhe faltaram. Ao se apresentar com o violonista D. Montezano, conhecido como Serelepe, ao diretor artístico da Parlophon, foi imediatamente convidado a gravar um disco, contendo os maxixes “Bichinho de Queijo” e “Driblando”, de sua autoria, envergando o singular banjo. Mais tarde, iria unir suas cordas às de Zezinho, conhecido Aimoré, em infindáveis serenatas no bairro da Luz, e depois num conjunto de choro. E mais tarde ainda, iria compor “Amoroso”, em 1942, com a completude que lhe era específica.



Desvairada

Perambulando com suas cordas vibrantes, Garoto conheceu Petit, com quem formou ao lado de Aimoré, trio que se apresentava no salão nobre de um edifício em São Paulo, o Martinelli. Depois viajou com o último para o Paraná, a bordo da “Quarta Caravana Artística”, Porto Alegre, no “Cassino Farroupilha” e Buenos Aires, na Argentina, acompanhando Carlos Gardel em algumas músicas. No retorno a São Paulo, tomou posse de um violão-tenor para se apresentar com o seresteiro Silvio Caldas e o velho companheiro de viagem. Ainda na década de 30, gravou choros e valsas pela Columbia, demonstrando sua habilidade também na guitarra havaiana. Estreou na Rádio Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro, e se encontrou com Carmen Miranda, Alvarenga e Ranchinho, Ary Barroso, Jararaca e Zé Formiga, Dorival Caymmi e Laurindo de Almeida, dando iniciativa, com este, à “Dupla do Ritmo Sincopado” e grupo “Cordas Quentes”. Isso após participar do “Conjunto Regional” da Rádio Cruzeiro do Sul em sua terra natal, desfazer a dupla com Aimoré e se casar, fixando-se na capital fluminense. Ao menos por algum tempo. Sua rotina “Desvairada” bem correspondia ao ritmo do choro de 1949.



Vamos acabar com o baile!

Incrivelmente, apesar do talento destacado, Garoto chegou a ficar algum tempo desempregado, com o fechamento da Rádio Cosmos. No entanto, a maior oportunidade da sua vida ainda estava por vir, quando recebeu um carta: “Querido Garoto, espero que você tenha gostado da idéia de vir para cá, e aceite-a, pois esta terra é a melhor do mundo, só você estando aqui é que acreditará. Estamos ansiosos para que você venha; eu e os rapazes.” A remetente era Carmen Miranda, que o chamava para substituir Ivo Astolfi no “Bando da Lua”. Resultado: rumou para os Estados Unidos, onde permaneceu por oitos meses na companhia da Pequena Notável, fazendo parte do conjunto e chamando a atenção naturalmente, pelo brilho de suas cordas. Teve a honradez de conhecer diversidades cidades, fazendo o que melhor sabia e gostava, atuar em filmes, e tocar até para o presidente norte-americano, Franklin Roosevelt, na Casa Branca, tudo isso nos idos de 1939 e 1940. Tornou-se o “homem dos dedos de ouro”, nas palavras do organista Jesse Crawford. Já de volta ao Rio de Janeiro, compôs “Vamos acabar com o baile!”, com José Brandão, em 1952. Baile foi o que realizou em sua passagem em terras estrangeiras, mantendo boquiabertos até os mais exigentes.



São Paulo Quatrocentão

Finalmente afixado no Rio de Janeiro, criou o conjunto “Garoto e seus Garotos”, com Valdemar Reis, Poli e Almeida no violão, mais Russo do Pandeiro. Ao fim deste projeto, se encaminhou para a Rádio Nacional, se deparando por lá com a pianista Carolina Cardoso de Meneses, com quem gravou discos em dupla. Formaria também dupla com José Meneses, alternando guitarra, violão, violão-tenor e cavaquinho, durante os programas radiofônicos “Nada além de dois minutos”, “Ao som da viola” e “Um milhão de melodias”. Ainda por cima trabalhava na Orquestra da Rádio Nacional, regida por Radmés Gnatalli, de quem foi colega e legou eterna amizade. Mas seria em trio que conseguiria o maior sucesso da carreira, quando, em 1953, compôs o dobrado “São Paulo Quatrocentão”, para os festejos do aniversário da cidade natal, em companhia de Chiquinho do Acordeom e letra de Avaré. A composição virou verdadeira febre, com recordes de vendagem de disco (algo em torno de 700 cópias) e interpretação da inclusive cantora na época, Hebe Camargo, reconhecida posteriormente como apresentadora de TV.



Duas contas

Garoto estreou como letrista ao compor o samba-canção “Duas contas”, em 1953, antecipando a bossa nova. No mesmo ano, embeveceu os presentes com a interpretação solo do Concerto nº 2 para Violão e Orquestra, dedicado a ele por Radamés Gnatalli, em pleno Teatro Municipal do Rio. Mas a história que o levara a se atrever no mundo da escrita começara um ano antes, quando, a convite do diretor musical do programa da Rádio Nacional, “Música em Surdina”, Paulo Tapajós, topou se alinhar a Fafá Lemos e Chiquinho do Acordeom naquele que ficaria conhecido como o “Trio Surdina”. Seguiram-se dois discos, e no primeiro deles vinha a música que comprovara seu atrevimento, sem rimas, levando o próprio autor dos versos à insegurança. Paulo Tapajós, que o incentivara, estava certo, a música correspondia a seu talento já comprovado como instrumentista, também na letra. E bastava: “teus olhos são duas contas pequeninas, qual duas pedras preciosas, que brilham mais que o luar”.



Gente humilde

A gravação de “Gente humilde” aconteceu informalmente, quase por acaso, como presente a um amigo querido de Garoto, o professor mineiro Valter Souto. Num acetato simples, eternizou-se o momento de inspiração que recaiu divino, com a espontaneidade que acalora os corações de artistas. A cena observada passaria incólume, não tivessem aquelas mãos o poder de restringir às cordas a leveza de um sentimento inalcançado. Afinal o poeta vê a árvore e se encanta por ela, e nos encanta com sua poesia. A mesma árvore que vemos todos os dias. Com auxílio de Vinicius e Moraes e Chico Buarque, a canção abraçou em 1970 versos que Garoto não disse, mas zumbiu.

“Comecei a tocar sozinho, e com o falecido Pinheirinho Barreto e Aluisio Silva formamos um novo grupo. Foi quando gravamos ‘Zombando da Morte’, um samba que se tornou muito popular.” Garoto



Raphael Vidigal Aroeira

Lido na Rádio Itatiaia dia 10/07/2011.

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