
O Raimundo mais famoso do Ceará levou as velas do Mucuripe para velejar o Brasil inteiro. Seu parceiro na música mostrou aos jovens seu descontentamento com a própria geração. O poeta que nasceu no Ceará era na verdade agricultor. O poeta que levou essa paixão no nome não era cearense. O grupo que se tornou mais conhecido exibiu com orgulho seus “Quatro Ases e um Coringa.” Outro compositor daquela terra desfilou na avenida seu bloco do prazer. E o letrista mais proclamado nas canções do Rei do Baião foi a síntese desse povo rico e diverso. 
Mucuripe
Fagner e Belchior se conheceram em Fortaleza, depois do primeiro sair de Orós e o segundo deixar Sobral. Juntos, ao lado de Rodger Rogério, Ednardo e Ricardo Bezerra formaram o “Pessoal do Ceará”, que se apresentava semanalmente em um programa de rádio. Levando na bagagem as lembranças de sua terra, seguiram roteiros distintos, Fagner indo para Brasília estudar arquitetura e Belchior indo para o Rio de Janeiro estudar medicina. Mas em 1971, no Festival de Música Popular do Centro Universitário de Brasília, Fagner inscreveu uma música que havia feito com o conterrâneo agora distante. “Mucuripe”, destino solitário das jangadas em Fortaleza, tirou o primeiro lugar e atentou os olhares brasileiros para a permanente poesia das águas da canção cearense. Um ano depois, a música foi interpretada por Elis Regina. Com esse êxito, Raimundo Fagner mudou-se para o Rio de Janeiro e Belchior para São Paulo. Além disso, Fagner fez seu próprio registro, na série “Disco de Bolso”, lançada pelo jornal “Pasquim”, com Caetano Veloso cantando no outro lado do compacto “A Volta da Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Refletia no canto arraigado de Fagner, a permanente poesia das águas. Da flor fez-se o agasalho. Da vela que ilumina o mar, a esperança de um rapaz novo encantando.
Como nossos pais
Outro sucesso de um cearense na voz de Elis Regina foi a cultuada “Como nossos pais”, hino composto por Belchior que lamentava as não conquistas de sua geração. Traçando um paralelo interessante sobre a história da humanidade, o compositor sentenciava que estavam todos fadados a cometerem os mesmos erros do passado. Usando imagens fortes e carregadas de ironia, a música se tornou uma das mais conhecidas na voz de sua intérprete definitiva, que a gravou em 1976. Naquele ano, Belchior ainda lançou “Apenas um rapaz latino americano” e “A Palo Seco”. E a onda hippie passaria em seus versos se transformando justamente naquilo que mais repudiou.
Bloco do Prazer
O compositor Fausto Nilo conheceu os integrantes do “Pessoal do Ceará” ainda na década de 70, e desde então passou a ser gravado por cantores como Fagner e Belchior, e mais tarde, Chico Buarque, Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Geraldo Azevedo, e outros. No ano de 1979, o “Trio Elétrico Dodô e Osmar”, banda criada pelos inventores do Trio Elétrico na Bahia, lançou no carnaval a música “Bloco do Prazer”, parceria de Nilo com o novo baiano Moraes Moreira. O frevo, em ritmo acelerado, é uma conclamação desenfreada à alegria e à festa. Gravada por Nara Leão em 1981, tornou-se sucesso nacional na voz de Gal Costa, um ano depois. Era apenas o início do desfile daquele cearense de Quixeramobim.
Asa Branca
Humberto Teixeira foi parceiro de Luiz Gonzaga em verdadeiros clássicos da canção brasileira, além de ter fundado com ele o popular baião. Nascido em Iguatu, no interior do Ceará, Humberto recebeu de Luiz Gonzaga a missão de finalizar uma música que versava sobre uma certa lenda nordestina. A lenda era sobre “Asa Branca”, uma conhecida pomba brava que deixa para trás o sertão quando a seca se acomete dele. O compositor não só finalizou a música como escreveu versos de profunda sensibilidade, entre eles “quando o verde dos teus óios se espaiá na prantação.” A toada do homem que imita o vôo do pássaro tornou-se emblemática na união entre o cearense Humberto Teixeira e o pernambucano Luiz Gonzaga. 
Kalu
A musa de verdes olhos de Humberto Teixeira, realmente existiu, como ele confessou anos mais tarde em entrevista: "Na verdade, Kalu existiu. Só que com outro nome, naturalmente". O baião de sua autoria foi um pedido feito diretamente por Dalva de Oliveira, que desejava incluir uma música nordestina na excursão que faria à Europa com a orquestra de Roberto Inglez. Gravada por ela em 1952, foi um dos grandes sucessos daquele ano, e mais uma dentre as muitas músicas famosas do cearense Humberto Teixeira, regravada por nomes como Chico Buarque e Eliana Pittman.
Cabelos brancos 
Os conflitos amorosos entre Dalva de Oliveira e Herivelto Martins deram início a uma briga pública e músicas que se tornaram eternas no cancioneiro brasileiro. Entre elas, “Cabelos brancos”, de 1949, gravada pelo conjunto cearense “Quatro Ases e um Coringa”. O grupo formado pelos irmãos Evenor, José e Permínio Pontes de Medeiros, e ainda André Batista Vieira e Pijuca fez sucesso no final da década de 40 ao lançar o rancoroso samba de Herivelto. Outros sucessos do quinteto foram “Baião de Dois”, de Luiz Gonzaga e do conterrâneo Humberto Teixeira, “Baião”, também da dupla, “Trem de Ferro”, de Lauro Maia e “Onde estão os tamborins” de Pedro Caetano. Em 1957, as cartas do baralho cearense decidiram cada uma trilhar o seu próprio caminho.
A triste partida 
O cearense Antonio Gonçalves da Silva, nasceu em Assaré, e ficou conhecido como Patativa de sua cidade. Seguiu a profissão do pai e tornou-se agricultor, mas ficou conhecido como poeta. Com pouca formação escolar, aprendeu mexendo na terra a irrigar as palavras que sentem o coração das pessoas. Principalmente as pessoas do seu nordeste, da sua aldeia inabitada que ele levou ao mundo. No ano em que se iniciava a ditadura no Brasil, o brilho de um monarca deu luz à arte de Patativa. Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, o viu recitar os versos de “A triste partida”, e decidiu que lhe cabiam as harmonias de uma música. Em 1965, como num repente, a caminhada triste e árdua do nordestino em busca dum melhor destino ganhou os ares de todo o país. A seca poesia clara de Patativa impregnava todo o Brasil. Dali em diante, seus livros de poesia poderiam ser lidos ou escutados, ou ainda admirados, por aqueles que o vissem trabalhando ao vento. 
Luar do Sertão
Catulo da Paixão Cearense nasceu na capital do Maranhão, e aos dez anos foi para o interior do Ceará. Interior que amaria muito mais do que qualquer capital. Catulo era apaixonado pelas coisas singelas, simples e ingênuas e delas fez a obra-prima de suas canções. Eternizada na memória afetiva do povo brasileiro, “Luar do Sertão” foi composta por ele em 1914, e gerou divergências com relação à autoria da música. Enquanto Catulo afirmava que a havia composto sozinho, inspirado por uma música folclórica, outros como Heitor Villa-Lobos e Almirante diziam que a melodia era de João Pernambuco, violonista semi-analfabeto. O que não se discute é a lembrança imediata de cada brasileiro quando se começa a tocar o refrão que remete ao balanço de uma rede.
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 17/10/2010.

Por trás da expressão carrancuda, do semblante de poucos amigos e da barba que escondia-lhe a chance de um sorriso mais largo, havia um coração pronto a explodir do menino que desceu o São Carlos para colocar o dedo na ferida dos problemas sociais e afetivos de mulheres e homens. Filho do Rei do Baião, da dançarina Odaléia e da música brasileira que acolheu com tamanha propriedade, a cara de Gonzaguinha era a de um Brasil que não se entrega e não deixa de apontar as mazelas que atingem as suas pessoas. Com a camisa aberta e o peito à mostra ele escreveu através de suas músicas um retrato sensível, por vezes raivoso, outras vezes irônico, de sentimentos universais e em decadência. Era um grito de alerta, e ao mesmo tempo, de esperança. 
Filho de vários pais e de várias mães, Gonzaguinha teve história parecida com a de muitos brasileiros. Nasceu no ventre da cantora e dançarina da noite Odaléia e foi registrado pelo expoente maior da música nordestina levando seu nome. Com a morte da mãe quando ele tinha dois anos, vítima de uma tuberculose, Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior foi entregue aos carinhos de dona Dina e seu Xavier, para que o pai pudesse cumprir sua vida de viajante. Luizinho, como passou a ser chamado no morro de São Carlos, no Rio de Janeiro, logo aprendeu a tocar violão com seu padrinho, a sacar as malícias das ruas, e a ter vontade de conhecer outras bandas. Essa epopéia comum a tantos brasileiros, Gonzaguinha cantou “Com a perna no mundo”, de 1979, em que deixava um caloroso recado à madrinha querida: “Diz lá pra Dina que eu volto, que seu guri não fugiu, só quis saber como é, qual é, perna no mundo, sumiu...”
Espere por mim, morena
Moleque arisco e interessado em conhecer o mundo, Gonzaguinha decidiu aos 16 anos que queria cursar economia. Como os padrinhos Dina e Xavier, conhecido como Baiano do Violão, não tinham condições de pagar seus estudos, o menino resolveu por conta própria que iria morar com o pai. Depois de um começo de relação atribulada, com Gonzaguinha desentendendo-se constantemente com a madrasta e Luiz Gonzaga por conta de posições ideológicas, os ânimos se acalmaram, e a convivência entre os dois foi aos poucos melhorando. Gonzaguinha foi matriculado em um colégio interno e conseguiu concluir o curso que tanto queria. Mas a herança que pulsava em suas veias era a da música. Em 1967, seu pai gravou pela primeira vez uma composição sua: “From United States of Piauí”, canção bem humorada e crítica acerca dos americanismos na língua portuguesa. Mas somente em 1976, ele assumiria de vez as influências e a importância do pai em sua trajetória. No disco intitulado “Começaria Tudo Outra Vez”, gravou “Asa Branca”, um dos maiores sucessos de Luiz Gonzaga, e a toada “Espere por mim, morena”, grande êxito popular que trazia à tona o lado romântico e saudoso de um Gonzaguinha doce e leve, que falava de rede, cobertor e sol. 
Grito de Alerta
No ambiente universitário, Gonzaguinha passou a ter contato com Ivan Lins, Aldir Blanc, César Costa Filho e outros, com quem formou o Movimento Artístico Universitário, conhecido como MAU. O grupo se reunia com freqüência na casa do psiquiatra Aluízio Porto Carreiro para longas conversas e rodas de violão. Passaram então a participar de festivais, e no ano em que foi vencedor com a canção “O Trem (Você se lembra daquela nêga maluca que desfilou nua pelas ruas de Madureira?)”, Gonzaguinha recebeu uma das maiores vaias de sua carreira. Apenas em 1973, ele conheceu o sucesso. Ao entoar “Comportamento Geral” no programa de Flávio Cavalcanti, Gonzaguinha chocou os jurados, esgotou o disco nas prateleiras e foi censurado pela ditadura. Além do espírito combativo, as reuniões na casa de Aluízio, renderam-lhe seu primeiro casamento, com Ângela Porto, mãe de seus dois primeiros filhos. O discurso do embate político cedia espaço em 1980 para um envolvente Gonzaguinha, que acostumado a ouvir na infância Jamelão, Lupicínio Rodrigues e músicas portuguesas, entregava para Maria Bethânia consagrar um samba-canção de sua autoria, em que discutia as difíceis questões do coração. Deixando de lado a razão, “Grito de Alerta” era uma tentativa sincera de se desapegar de questões menores e amar de portas abertas. 
Guerreiro Menino
Gonzaguinha sempre foi considerado um artista de temperamento difícil, não gostava de dar autógrafos e raramente compunha com outros parceiros. Tido por muitos como mal humorado e arrogante, era na verdade um sujeito provocador, despojado, como ele próprio definia: “um grande gozador”, um moleque levado e teimoso que gostava de descumprir ordens. No entanto, o comportamento arredio e a desconfiança que lhe marcavam eram atribuídas por muitos aos conflitos que teve com Luiz Gonzaga. As diferenças entre os dois acabariam se tornando lá na frente o elo perfeito para formar uma parceria entre o sambista do morro carioca e o nordestino que inventou o baião, o destino de ambos cruzando o país, Gonzagão e Gonzaguinha. Já bem à vontade para tratar de temas mais sentimentais, Gonzaguinha teve gravada na voz de outro nordestino uma de suas músicas que continham maior ternura. Em 1983, seu compadre Fagner recebeu de Mariozinho Rocha o aviso de que Gonzaguinha havia lhe mandado uma música. O detalhe é que o empresário considerava que ela tinha sido feita “nas coxas” e não valia a pena gravá-la. Fagner insistiu, chorou de emoção ao ouvi-la e a transformou no carro-chefe do seu LP daquele ano. “Um homem também chora” delineava com maciez sensações singelas e muito humanas, habituadas a se esconderem atrás de hipocrisias. Gonzaguinha falava sem deixar passar nenhuma farpa da criança que constrói e existe em cada homem, da faceta mais frágil e carinhosa dos guerreiros meninos. E ele era um deles.
Sangrando, Explode Coração E Vamos à luta
No início da década de 80, Gonzaguinha passou a morar em Belo Horizonte com sua segunda esposa, Lelete. Desse casamento nasceu a sua caçulinha, Mariana, irmã de Daniel, Fernanda e Amora, filha do relacionamento do cantor com a Frenética Sandra Pêra. Nessa época, ele vivia sua melhor fase e já desfrutava dos sucessos de “Ponto de Interrogação”, “Grito de Alerta” e “Sangrando”. A balada imortalizada por Simone revelava um desenho auto-biográfico e pungente do compositor que não se dizia cantor, mas intérprete de suas emoções. Na letra de “Sangrando”, o intérprete se rendia por inteiro. Começava soltando a voz com um delicado pedido, para depois consentir que a música se apoderasse dele e exprimisse a vida em sua plenitude.
Contestador por natureza, em 1975 Gonzaguinha havia dispensado seus empresários para fundar depois seu próprio selo, Moleque, que também seria o nome do seu álbum de 1977. Nesse ano, “Explode Coração” tornou-se um dos maiores marcos de toda a carreira de Maria Bethânia. Intitulada inicialmente “Não dá mais pra segurar”, a música é um desabafo lento, progressivo, um exercício de confissão e entrega em que o compositor se despe de seus medos e aceita todos os desejos. Em “Explode Coração”, Gonzaguinha se descortina para que a vida entre sem pedir licença. 
Durante a sua trajetória, Gonzaguinha conviveu com a pobreza na favela, problemas de saúde como as duas tuberculoses que teve, e a falta de liberdade imposta pela ditadura. Apesar disso, deu um jeito de driblar as armadilhas para conquistar o que achava que tinha direito. “E vamos à luta” é talvez o samba mais animado, emblemático e contagiante de sua obra. A música é um recado otimista de persistência e coragem direcionado aos brasileiros que batalham seu lugar ao sol diariamente, com espaço para uma fezinha especial na juventude. Através dos versos esfuziantes da canção, Gonzaguinha cultiva as delícias da união e do sonho. Gravada por ele em 1980, a música foi apresentada depois em duetos descontraídos com Alcione e Roberto Ribeiro.
Começaria tudo outra vez
Ao som de bolero, samba, baião ou toada. Assim Gonzaguinha escreveu seu nome na canção brasileira. Um nome que já tinha peso antes mesmo dele nascer, e que foi aos poucos penetrando nos ouvidos das pessoas com aquele diminutivo. O menino esguio que falava de dramas, amores e problemas sociais, cresceu e continuou menino. Continuou falando, cantando, observando aquilo que lhe tocava com o cuidado de quem enxerga uma fruta madura no pé da árvore. Gonzaguinha no palco era solto, espontâneo, como se estivesse em casa, mas quando escrevia era incisivo, agudo, enfático, dando a medida que lhe cabia da força dos relacionamentos humanos em sua vida. Não imaginava ele que em 1976, só estava no começo, mas ainda assim decidia: “Começaria tudo outra vez, se preciso fosse, meu amor...”
"Só quero ver as pessoas assoviando as minhas músicas" Gonzaguinha 
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 26/09/2010.
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Na primeira quarta-feira do mês de agosto desse ano, a cantora Leny Eversong, dona de uma das mais potentes vozes que o Brasil já teve, teria completado 90 anos de idade.
Leny, que nasceu Hilda Campos Soares da Silva, começou a carreira aos 12 anos, cantando no programa “A Hora Infantil”, na Rádio Clube de Santos, cidade onde nasceu. Demonstrando desde o início seu enorme talento para interpretar foxes estrangeiros, Leny logo passou a ser chamada de Hildinha, a Princesa do Fox. Pouco tempo depois, ela deixaria para trás o nome em português, mas não abandonaria as canções estrangeiras, passando a se especializar também em outros ritmos, como jazz, bolero e blues. Ela, que não falava nada em inglês, anotava na mão a pronúncia das palavras e era proibida por seu empresário de dar entrevistas fora do Brasil, arriscando no máximo alguns “all right´s” e “ok´s”. -image013%5B1%5D.jpg)
A partir da metade da década de 50, Leny passou a receber convites frequentes para se apresentar anualmente em Las Vegas e fazer shows pela Europa, já que a essa altura também cantava (e muito bem) em outras línguas, como italiano, espanhol e francês, e tudo isso sem saber falar o idioma.
Apesar da enorme fama da qual já desfrutava no exterior, Leny nunca obteve no Brasil o reconhecimento que lhe era devido, e gravou poucas vezes em português, numa dessas tendo feito registros históricos de músicas que seriam sucesso mais tarde na voz de Elis Regina, a exemplo de “Aleluia”, de Edu Lobo e Ruy Guerra, e “Arrastão”, a música que lançou Elis no Festival da Canção, também de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. 
No início da década de 70, quando seu marido desapareceu supostamente seqüestrado por traficantes que o confundiram com seu filho (mais tarde ele seria preso acusado de envolvimento com drogas), Leny não quis saber mais de música e se refugiou por um tempo na casa do amigo e cantor Agnaldo Rayol. Conhecida por sua figura gorda e loura e sua voz que alcançava tons extremos, Leny ficou deprimida, teve diabetes e raramente apareceu em alguns programas televisivos. Nunca mais gravou um disco. Aquela figura alegre, expansiva, que falava alto e comia muito já não existia mais.
No dia 29 de abril de 1984, pouco tempo depois de ter as duas pernas amputadas, Leny morreu aos 63 anos, e sua voz desapareceu definitivamente.
Entre seus maiores sucessos estão Jezebel, gravada por ela em 1956 e Summertime e St Louis Blues, sucessos em inglês gravados em 1957. Além disso, foi responsável por lançar o cantor Juca Chaves, ao gravar uma música sua quando ele tinha então 16 anos, e ajudou Cauby Peixoto no início da carreira.
Hoje em dia, ainda é possível encontrar seus discos sendo vendidos pela internet por preços que variam entre R$80 e R$150, e em 2007, o jornalista e produtor musical Rodrigo Faour, lançou uma coletânea de Leny Eversong através da série Grandes Vozes, editada pela Som Livre.
Leny Eversong tornou-se artigo de colecionador, raridade, mas sua voz poderosa, afinada e límpida é a prova maior do valor de uma cantora de inquestionável qualidade. 
(Matéria publicada no jornal "Hoje em Dia")
Raphael Vidigal Aroeira

As ondas verdes do mar recebem uma oferenda, uma brisa clara, uma areia espessa. Colares, correntes, patuás e pulseiras presenciam uma espuma branca correndo entre braços abertos que se erguem graciosamente e com as mãos espalmadas, uma para cima e a outra para baixo, cantam um salve aos orixás. A espuma branca que corre entre os braços colore o vestido da sereia de traços negros desfiados em sua boca vermelha, seus cabelos frondosos como os de uma árvore, seu canto mestiço e intenso. Ela agita as mãos com leveza enquanto as linhas da capoeira passam por elas tecendo a barra rodada do vestido longo e os amuletos. O canto da sereia nos leva para o fundo do mar onde encontramos conchas, flores e estrelas. Mas não morremos lá. Porque as águas do mar da sereia são as águas salgadas do mar da Bahia que como um raio de luz se dissipam nas avenidas do Rio e nos levam até as montanhas de Minas. Se vocês querem saber quem é a sereia, ela é a tal guerreira, de voz de brisa condensada, mar em oferenda, de areia Clara. 
“O mar serenou quando ela pisou
Na areia
Quem samba na beira do mar
É sereia”
Entrelaçando os braços e chamando as palmas enquanto o mar banha seu corpo e a purifica, a sereia Clara Nunes junta em seu canto a força do branco colonizador que conquistou o ar através do fogo, a ternura do negro africano que aqui chegou pelos mares da Bahia e a emoção do índio que já plantava nessas terras. Sua voz é um divino manto que cobre as jarras de barro, as matas, os milharais e as mãos de mulheres lavando roupa. Mesmo quando ela está na areia é possível ver nos olhos da sereia duas gotas d’água, seu corpo veste uma espuma branca e na doçura de sua voz há o sal da Bahia, a bandeira azul e branca da sua Portela no Rio e as cachoeiras de Minas. Com as mãos para o céu e os pés no chão ela pisa no terreiro de sua fé e lança seu olhar sempre adiante, sua presença sempre à frente, sua expressão serena que conheceu as três raças e encantou o Brasil. 
“Seu brilho parece um sol derramado
Um céu prateado, um mar de estrelas
Revela a leveza de um povo sofrido
De rara beleza que vive cantando profunda grandeza”
Enquanto o coro do samba lhe monta um altar, a sereia do mar de Minas faz evocar a mata, o povo, a prata, o céu do sabiá e as forças da natureza. Clara Nunes acende velas, meche os chocalhos, leva fé para os corações que batucam samba e se banham em manjericão. Espalha alegria da Bahia a Minas, passando pela Portela. Rodando seu vestido longo e branco, Clara segue o ritmo da morena de Angola com sua voz brasileira de profissão esperança. Uma voz que traz o ouro de Minas banhado pelo mar salgado da Bahia e acompanha um sorriso espontâneo coroado por flores e conchas que lhe enfeitam os cabelos. Um brilho mestiço que se encontra nos olhos, no sorriso e no canto místico de Clara Nunes. No folclore da sereia brasileira que iluminou as minas de ouro dos corações marejados. %5B1%5D.jpg)
“Morena de Angola que leva o chocalho
Amarrado na canela
Será que ela mexe o chocalho
Ou o chocalho é que mexe com ela?”
Raphael Vidigal Aroeira

A cortina do teatro se abre e o homem com voz feminina e pose libidinosa contorna de preto os olhos e pisa firme no palco, pinta de vermelho a boca e aguça os ouvidos para sentir os sons que emergem de seu corpo quase nu. Uma flor vermelha se espreguiça na orelha e ruma para lançar seu perfume por entre os dentes separados desse mago sensual e aflito. O batom vermelho beija bandidamente o público com seus agudos que dançam acompanhando os quadris e as batidas do peito. Colares de pérolas, brilhantes e badulaques completam o espetáculo. O mago se transforma em peixe, em água viva, em pássaro, em lobisomem. Se transforma num pescador de pérolas. As correntes do homem libertário enfeitam seu corpo mas não impedem seus movimentos. No palco ele está livre, pula, dança, flerta com milhares de rostos ao mesmo tempo e canta. Canta com sua voz encantada que nenhuma força jamais impediu. Porque não há força capaz de impedir o canto de Ney Matogrosso. Dentro dele há um bicho, uma mulher, um canto imprevisível e sedutor que rebola lascivamente dentro do imaginário e do corpo da música brasileira. 
“Esse corpo moreno
Cheiroso e gostoso
Que você tem
É um corpo delgado
Da cor do pecado
Que faz tão bem”
Investido por sua postura de bicho-homem Ney Matogrosso libera seus instintos mais provocantes e crava a língua no ouvido do público. Por todos os lados uma espiral de cores o circunda e faz prevalecer o feitiço dourado do amarelo de seu corpo e o vermelho fogo que lateja em seu rosto. Com uma venda preta cobrindo seus olhos Ney realiza fantasias de todas as espécies e se despe em cena ao revelar seus desejos mais secos e mais molhados. Ney Matogrosso é um artista destemido, atrevido, dançante, capaz de unir o homem e a mulher em seu canto. Um artista que ao se despir em público faz do palco o teatro de sua vida. 
“Nunca vi rastro de cobra
Nem couro de lobisomem
Se correr o bicho pega
Se ficar o bicho come”
Com o sangue latino em brasas e anéis brilhantes que lhe veneram os dedos, Ney Matogrosso penetra o olhar sobre a platéia, domina a voz e o palco com seus agudos rasgados e volumosos e se entrega aos sentimentos e às sensações fazendo muita cena, usando e abusando de seu talento performático, seu figurino exótico e sua voz mágica. Adepto convicto da exuberância e da fartura Ney Matogrosso revigora seus sentidos com a vitalidade de um homem bicho mulher de quase 70 anos de experiências e liberdades e estimula os pecados da gula e da luxúria ao brindar a música brasileira com sua arte exuberante e ousada.
"Sou um homem, sou um bicho, sou uma mulher
Sou a mesa e as cadeiras desse cabaré
Sou o seu amor profundo, sou o seu lugar no mundo"
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 01/08/2010.

A voz rouca e encorpada de Eduardo Araújo já ecoava pelos campos da fazenda de seu pai em Joaíma, no interior de Minas Gerais, desde muito cedo, e logo o fez perceber que a carreira de veterinário talvez não fosse a melhor opção para sua vida. Partiu então em busca de outras terras e resolveu cavalgar pelas notas e acordes dançantes de um ritmo novo que surgia com força e ousadia no cenário musical brasileiro: a Jovem Guarda. Liderada por nomes como Roberto Carlos e Erasmo Carlos e tendo ainda em seu elenco as presenças marcantes de Renato e seus Blue Caps, Ronnie Von, The Fevers, Jerry Adriani além das musas Wanderléa, Rosemary e Sylvinha Araújo, dentre outros, a Jovem Guarda logo emplacaria nas paradas de sucesso e faria com que um desesperançado Eduardo Araújo deixasse novamente a fazenda de seu pai para trás e voltasse ao Rio de Janeiro atrás do sonho de cavalgar na crista da onda daquelas canções. O que aconteceria efetivamente no ano de 1967 quando estourou com o seu primeiro sucesso, a canção “O bom”, de Carlos Imperial, que traduzia o comportamento e a postura musical e artística daquela nova geração de músicos. 
“Ele é o bom, é o bom, é o bom
“Ele é o bom, é o bom, é o bom
Ah! Meu carro é vermelho, não uso espelho pra me pentear
Botinha sem meia e só na areia eu sei trabalhar”
Eduardo Araújo sempre se mostrou um artista inventivo e original que além de comandar o programa o “Bom”, na TV Excelsior, ao lado de sua futura esposa Sylvinha Araújo, também começava a fazer experimentos na música brasileira. Tendo dito em 1971 que Luiz Gonzaga era o “papa da verdadeira música brasileira” ele já demonstrava a sua vontade de misturar diversos gêneros sob a batuta do rock ao gravar com virilidade músicas como “Asa Branca”, “Juazeiro”, ambas de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, e “Ave Maria no morro”, de Herivelto Martins, dentre outras. No entanto, o maior sucesso autoral de Eduardo Araújo até hoje ainda é a música “Vem quente que eu estou fervendo”, em parceria com Carlos Imperial, verdadeiro Midas das paradas de sucesso da música brasileira. 
“Se você quer brigar
E acha que com isso
Estou sofrendo
Se enganou meu bem
Pode vir quente
Que eu estou fervendo”
Esse espírito inventivo e desbravador envolveria também Sylvinha Araújo, que havia ficado nos primeiros lugares da parada de sucessos em 1968 com a música “Minha primeira desilusão”, e agora gravaria versões pungentes e inusitadas das músicas “Risque”, de Ary Barroso e “Paraíba”, também de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, o que levaria o jornalista Nelson Motta a compará-la à musa do blues dos anos 70, Janis Joplin. E Sylvinha Araújo não era mais apenas a cantora que imitava Rita Pavone, ganhava assinatura e público próprios. 
“Hoje eu mando um abraço
Pra ti pequenina
Paraíba masculina
Mulhé macho, sim sinhô"
Essa vontade de se remeter às raízes da música brasileira intensificou-se na década de 80, quando Eduardo Araújo mergulhou de cabeça na chamada country music e retornou definitivamente para onde tudo começou. Sempre apaixonado por cavalos e o ambiente da fazenda, com o qual conviveu desde a infância, Eduardo Araújo passou a se notabilizar por fazer agora uma música com a qual o brasileiro do interior sempre se identificou e que passava a invadir também o sentimento do homem criado na cidade, a partir da mistura de dois gêneros, o country e o rock. Sem perder a veia inovadora, Eduardo gravou uma versão em twist da música “Maringá”, de Joubert de Carvalho, e obteve grande sucesso ao homenagear uma das mais nobres raças de cavalo, o “Mangalarga Marchador”. 
“Ô Maringá, Maringá
Depois que tu partiste
Tudo aqui ficou tão triste
Que eu garrei a imaginar
Ô Maringá, Maringá
Para haver felicidade
É preciso que a saudade
Vá bater noutro lugar”
Os cabelos lisos e penteados de lado com direito a olhar galanteador deram lugar ao chapéu de boiadeiro e ao bigode, mas a essência do rock continua em suas músicas que misturam com qualidade irretocável os melhores gêneros da música brasileira. Com guitarra em punho, violão a tiracolo e voz sempre imponente e verdadeira Eduardo Araújo segue há 50 anos por essa estrada do rock, guiado pela voz jovial e inesquecível de Sylvinha Araújo. Eduardo e Sylvinha Araújo, dois pioneiros do rock brasileiro e da mistura de gêneros, serão sempre lembrados no hall dos nomes mais importantes da música brasileira. 
“Eu sou terrível
Vou lhe dizer
Eu ponho mesmo
Pra derreter
Estou com a razão no que digo
Não tenho medo nem do perigo
Minha caranga é máquina quente
Eu sou terrível”
Raphael Vidigal Aroeira

Sob uma luz mais baixa ele carrega flores e corteja a dama. Folhas se entregam ao chão pois é outono, no mesmo instante o vento sibila sob o mar que bate contra a areia na noite deserta e pressente o orvalho que irá molhar as flores na primavera. Tito Madi é um cavalheiro da canção que debaixo das poucas estrelas que pontilham um céu escuro e macio conforta-nos com sua dor. A chuva tenta em vão abafar a saudade lá fora enquanto Tito nos inebria com sua voz límpida e doce pontuada pelas notas de um piano ou regida por uma orquestra. 
“A noite está tão fria, chove lá fora
E esta saudade enjoada não vai embora
Quisera compreender porque partiste
Quisera que soubesses como estou triste”
A voz morosa e graciosa de Tito Madi sinalizava, no final da década de 50, qual seria o canto e as melodias da próxima estação. A bossa nova, canção que simbolazaria um Brasil novo e moderno iria se utilizar das influências trazidas pela turma de Tito Madi, Dick Farney, Agostinho dos Santos, dentre outros. As harmonias sofisticadas que Tito usava em suas músicas carregavam consigo todo o requinte de um compositor que sempre primou pela delicadeza e vê o canto como uma forma de cochicar ao ouvido da amada todo seu carinho e amor. 
“E volte, por favor
Venha correndo
Que estarei para lhe dar
Carinho e muito amor”
Nas palavras de Tito Madi, sua obra e a de Dolores Duran funcionam como “elo de união da música brasileira entre as fases de Chico Alves e a bossa nova”. Caracterizado por ser um compositor cuidadoso e atento aos detalhes, Tito Madi utiliza-se do recurso de repetir com melindro as mais bonitas palavras da canção para que elas fiquem sutilmente gravadas nos corações. Pode-se dizer que a voz e as composições de Tito Madi inspiram-se na leveza que o bater de asas de um passarinho, a jóia regada a ouro e o bilhete colocado em meio ao buquê de rosas da namorada trazem para o mundo.Tito Madi canta olhando nos olhos e compõe como se fizesse uma confissão singela de seus mais nobres sentimentos. Tendo recebido prêmios como “Disco de Ouro”, medalhas dos Diários Associados e da Revista do Rádio, Tito teve também seus maiores sucessos regravados em versões em inglês nos Estados Unidos. Porque Tito é o compositor que faz balançar os corações da zona norte e da zona sul do Brasil. E inclusive fora dele.
“Balance os cabelos seus
Balance cai mas não cai
E se cair vai caindo caindo
Nos braços meus”
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 18/07/2010.

Elis Regina, a voz das Madalenas, Marias e Clarices.
A voz que brinca moleque o sonho de criança e ensina como nossos pais sobre as agruras do dia a dia.
A voz que dançou na bossa ao lado de Jair Rodrigues.
Durante seus 36 anos de vida, Elis Regina nos deu uma certeza.
A certeza de que no momento em que canta tudo é possível, desejado e permitido.
“Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito
Tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos como nossos pais”
Elis é essa força que vem de dentro e explode na superfície, nos olhos fechados, no sorriso largo, nas sobrancelhas em pé que lhe conferem aquele ar desafiador, provocante e destemido.
Nas mãos que movem-se para o alto, procurando no espaço vazio a verdade torturante daquele momento, inquietas, intensas.
Tudo parece vibrar com sua voz.
Tudo pulsa, lateja, transborda em Elis Regina.
“A tua mão no pescoço
As tuas costas macias
Por quanto tempo rondaram
As minhas noites vazias”
Elis Regina é essa vontade de cantar o mundo em todas as suas notas, acordes e versos.
E ela canta.
Com fé cega e faca amolada, compreende em seu canto todo o velho, o novo, o nada será como antes.
Compreende em sua voz todo o mundo.
Os bêbados, as equilibristas, as águas de março e as romarias.
Elis Regina é a vida no limite, a canção, a voz que ultrapassa limites.
Que alcança os tons mais distantes e os corações mais escondidos.
Sublinhando com tinta quente, que arde como pimentinha e varre como furacão, todos os contornos possíveis da melodia.
Ninguém é mais o que canta do que Elis Regina.
“Poema divino cheio de esplendor
Teu sorriso quente, inebria, entontece
És fascinação, amor”
Elis Regina canta, sempre canta, música e vida.
Raphael Vidigal Aroeira
Lido na Rádio Itatiaia dia 21/03/2010.